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Rafael Reis


Nova geração belga tem irmãos brasileiros que não falam português

Gabriel Lemoine, atacante de sangue brasileiro que defende a seleção belga - AFP
Gabriel Lemoine, atacante de sangue brasileiro que defende a seleção belga Imagem: AFP
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

25/03/2020 04h00

Laurent Lemoine não tem nome de brasileiro e nem sequer fala português. Mesmo assim, possui sangue verde e amarelo correndo nas veias, assim como seu irmão mais novo, Gabriel, que também é jogador profissional de futebol.

Os dois fazem parte da nova geração que a Bélgica, terceira colocada na Copa do Mundo de 2018 e responsável pela eliminação da seleção de Tite nas quartas de final da competição, está preparando para o futuro.

O zagueiro de 21 anos do Mechelen passou por todas as seleções inferiores da terra de Hazard, Courtois e Lukaku do sub-15 ao sub-19. Agora, espera suas primeiras convocações para o time sub-21.

Três anos mais novo que Laurent, Gabriel é atacante, saiu de casa no começo desta temporada e agora atua na base do Bordeaux, da França. Além disso, costuma dar as caras na seleção belga sub-18.

Eles são filhos de mãe brasileira com pai belga. Por isso, possuem dupla cidadania e podem optar por qual país querem defender no mundo do futebol.

"Nossa mãe é de Carongola, em Minas Gerais. Quando tinha 26 anos, ela se mudou para a Bélgica e conheceu nosso pai", explica Laurent, em inglês.

Por falta de dinheiro, os irmãos só vieram ao Brasil uma vez, quando eram crianças. Como o português nunca foi a língua oficial de sua casa, eles se afastaram bastante da cultura da terra da família materna. Menos no futebol, é claro.

"Essa é nossa maior conexão do Brasil. Como a maioria dos brasileiros, nós amamos futebol. Ele é algo instintivo para nós e algo que fica claro quando as pessoas nos veem nos gramados. Jogamos um futebol técnico e muito bonito", afirma o mais velho dos Lemoine.

Laurent é fã de Ronaldinho, a quem define como um mago. Já Gabriel tem Ronaldo como ídolo e passou boa parte da adolescência assistindo a vídeos do Fenômeno no YouTube para se inspirar a ser um atacante melhor.

"Meu irmão tem cara mais brasileira porque é atacante e tem um cabelo no estilo do Ronaldinho. Para mim, é diferente. Sou zagueiro, então pareço mais durão. Mas gosto do futebol ofensivo. Acho que é a minha parte brasileira falando."

Mas essa diferença não fica restrita aos gramados. Enquanto Laurent vibrou com a vitória da Bélgica sobre o Brasil no último Mundial, Gabriel ficou dividido, meio que sem saber como reagir.

E essa divergência entre os irmãos também aparece quando eles são questionados sobre a possibilidade de trocar a seleção belga pela brasileira.

"Se essa oportunidade surgisse, seria algo muito difícil porque teríamos que escolher entre nossa mãe e nosso pai. Eu acho que optaria pela Bélgica porque já joguei Euro e Copa do Mundo sub-17 com a seleção belga e tenho muitas memórias com essa camisa. Meu irmão não sabe o que faria. No momento, é 50% de chance para cada lado", completa Laurent.

Caso "virem a casaca" e optem por defender no futuro a terra da família materna, os irmãos Lemoine seguirão o mesmo caminho de Andreas Pereira. O meia do Manchester United também nasceu na Bélgica e atuou nas equipes menores da seleção europeia antes de vestir a amarelinha e definir sua cidadania futebolística.

Os belgas lideram o ranking da Fifa e estão classificados para a próxima edição da Eurocopa, que seria disputada neste ano e foi adiada para 2021 em virtude da pandemia do novo coronavírus (covid-19). Integrantes do Grupo B, terão Dinamarca, Finlândia e Rússia como adversários na primeira fase.

Rafael Reis