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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Medina pausa carreira para se manter em pé após tsunami na vida pessoal

Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

24/01/2022 18h47

Há um ano e meio, Gabriel Medina vivia nas Maldivas o auge da sua vida de comercial de margarina. Viajava a uma ilha afrodisíaca acompanhada da nova companheira, a mulher da sua vida, e da família que sempre foi seu alicerce, em um passeio que rendeu ótimas fotos. Ali começava, porém, um tsunami na vida do surfista, que até se manteve em cima da prancha, porque tem um talento muito acima da média, mas que deixou um rastro de destruição.

Medina confirmou hoje (24), ao anunciar a decisão de não participar das primeiras etapas do circuito mundial, que o ano de 2021 muito conturbado causou desgaste mental. "Tenho questões emocionais que estou precisando lidar. Venho de meses muito desgastantes. Reconhecer e admitir para mim mesmo que não estou bem vem sendo um processo muito difícil, e optar por tirar um tempo para me cuidar foi talvez a decisão mais difícil que já tomei em toda a minha vida", afirmou em postagem no Instagram.

Medina já enfrentava complexos problemas na vida pessoal quando errou a mão na cobrança pública sobre o Comitê Olímpico do Brasil (COB) para levar a esposa Yasmin Brunet aos Jogos Olímpicos de Tóquio com uma credencial de oficial técnico. Na época, o público sabia que ele havia rompido a relação profissional com o padrasto e técnico da vida toda Charles Saldanha, que estava brigado com a mãe, mas não que Yasmin passou a ser o alicerce que mantinha Gabriel de pé.

Gabriel Medina posta foto com Yasmin Brunet - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A complexidade do problema só foi revelada em setembro, pelo Olhar Olímpico. O afastamento do surfista da mãe e do padrasto foi tamanho que Gabriel e o casal entraram em um litígio judicial, com direito a divisão de bens. Medina descobriu que a mãe, que administrava sua carreira e seu dinheiro, tirava quase R$ 300 mil por mês do dinheiro que ele ganhava e havia feito dívidas em nome da empresa deles. Se não podia confiar nela, passou a desconfiar até da sombra.

Paralelamente, revoltou-se contra o fato de a mãe tentar interferir em sua vida amorosa. Simone sempre fez isso, de acordo com diversas fontes, mas naquele momento Gabriel estava determinado a bater de frente para ficar com Yasmin. Ver a mãe mudar-se para a casa ao lado da dele para controlar tudo de mais perto foi, neste caso, a gota d'água. Mãe/padrasto e filho romperam profissionalmente e pessoalmente. O fato de perder o Instituto Gabriel Medina, porque a mãe alegava que o terreno (comprado por Gabriel) estava no nome dela, só aumentou a dor dele.

Até então, Gabriel só precisava se preocupar em surfar. A mãe cuidava do dinheiro, o padrasto da carreira, e até a lista de convidados das festas de aniversário dele eram feitas por Simone. Na viagem de volta do primeiro título mundial, desde o Havaí, a namorada da vez do surfista viajou de classe econômica, enquanto todo o resto da família foi de primeira classe, porque Simone era quem comprava as passagens e ela assim decidiu.

Gabriel Medina, tricampeão mundial de surfe - WSL - WSL
Imagem: WSL

Ao romper com mãe e padrasto, Gabriel passou a gerir sua própria vida. E trocou os pés pelas mãos quando pressionou o COB para levar Yasmin a Tóquio. Ele tinha ótimos argumentos, mas conduziu o processo da forma errada. Ficou, para a opinião pública, que o surfista era um garoto mimado.

A fragilidade ficou exposta na viagem para Tóquio, que, por coincidência, foi nos mesmos voos que da reportagem do UOL Esporte. Medina não estava feliz indo à sua primeira Olimpíada. Acostumado a estar sempre acompanhado de técnico, família, amigos, segurança, namorada, etc, ele foi ao Japão completamente sozinho, isolado, como se ninguém o apoiasse. Na praia de Tsurigasaki, perdeu na semifinal para o japonês Kanoa Iragashi e agiu como mau perdedor.

Logo depois dos Jogos, não foi ao Taiti para uma das etapas do circuito mundial porque não havia tomado até então a vacina contra a covid. Como revelou a coluna, ele teve quatro oportunidades para tanto, e recusou todas. A razão não era negacionismo, mas preocupação com eventuais efeitos sobre seu treinamento. Pensando do ponto de vista sanitário, a atitude era egoísta de qualquer forma, tanto que rendeu merecidas críticas e mais uma vez expôs Medina ao escrutínio público.

O surfista respondeu surfando, aproveitando também o novo momento. Desde que rompeu com Charles, Medina passou a se relacionar muito melhor com o brazilian storm (a "tempestade brasileira", como é conhecido o grupo de brasileiros que compete na WSL). O surfista que, influenciado pelo padrasto, antes mal dava bom dia, passou a participar dos encontros, jogar bola, dar risada junto.

Mais leve, Medina sobrou no circuito mundial e faturou o tricampeonato em Trestles. Mãe, padrasto e irmã estavam a poucos quilômetros dali na Califórnia, mas não foram nem lhe dar parabéns. Na esteira do rompimento com o núcleo materno, se aproximou do pai, Claudinho. Depois de mais de 20 anos, passaram o natal juntos.

Gabriel Medina e o pai, Claudinho - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Passado um ano e meio daquela viagem às Maldivas, o mundo sabe que Medina não faz parte de nenhum comercial de margarina. Ele é muito rico e tricampeão mundial, mas tem questões pessoais importantes para lidar. Melhor surfista do mundo na atualidade e sem precisar esconder mais seus problemas, optou por não dar desculpas para ficar fora das primeiras etapas do circuito. "É justo que todos vocês que sempre torceram por mim saibam do momento que estou enfrentando. A saúde mental é muito importante", disse no comunicado.