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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Pedimos perdão um ao outro, diz pai após pazes com Medina

Gabriel Medina e o pai, Claudinho - Arquivo pessoal
Gabriel Medina e o pai, Claudinho Imagem: Arquivo pessoal
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

28/09/2021 04h00

O próximo Natal será especial para Cláudio Ferreira. Pela primeira vez em duas décadas, o beijo de "feliz Natal" no filho não será dado em um encontro breve, na calçada, em frente ao portão. Cláudio é pai do tricampeão mundial de surfe Gabriel Medina. E, depois de 20 anos de uma relação estremecida, os dois têm planos de, enfim, passarem a data como uma família.

"Só esse ano que ele veio falar comigo. Muitas das coisas que aconteceram, ele desconhecia, porque a mãe dele sempre falou muito mal de mim. E eu disse que a verdade é essa, essa, essa. A gente conversou muito, chorou muito. Ele falou: 'Pai, me perdoa. Desculpa ter errado esses anos todos'. Eu também pedi perdão. Eu, muitas vezes, pensei mal dele, achava que ele não queria me ver, mas era a Simone fazendo as coisas por trás, e a gente era envolvido. Graças a Deus, permaneceu a verdade. Estamos vivendo a verdade hoje em dia", contou Claudinho ao Olhar Olímpico.

Desde que o surfista mais velho se tornou uma figura pública conhecida no Brasil, o controle da narrativa sobre Gabriel Medina sempre pertenceu à mãe dele, Simone Medina, e ao padrasto, Charles Saldanha, que cuidavam da carreira. Assim, o que sempre se contou, seja em reportagens da imprensa ou em conteúdos com as digitais dos agentes de Medina, foi a história de um núcleo familiar feliz, que contornava a ausência do pai biológico.

Claudinho, pouquíssimas vezes, deu entrevistas. Enquanto a mãe e o padrasto de Medina ficaram com cerca de R$ 20 milhões em bens no acordo firmado com o filho, revelado pelo Olhar Olímpico na semana passada, Claudinho continua rodando Maresias de moto a trabalho, nunca viajou ao exterior e mora na casa herdada dos pais na área mais afastada da praia. Ali também mora a família de Felipe, o filho mais novo de Claudinho e Simone. Ele, a esposa e a filha de dois anos foram expulsos de casa pela mãe e acolhidos pelo pai.

Felipe e Claudinho sempre foram próximos, ambos apaixonados por futebol. Gabriel tinha relação mais afetuosa com Charles, um paulistano que largou a faculdade de arquitetura na USP para viver na praia e surfar. Para Claudinho, Simone fez a cabeça do filho. "Foi um jogo que ela fez de sempre podar. Gabriel é isso, isso, isso. Se ele passasse daquilo, ela reclamava", diz ele.

A reportagem procurou Simone Medina por mensagens. Na quinta-feira passada (23), ela respondeu sobre o acordo que definiu a venda do edifício em que ficava o Instituto Gabriel Medina, mas não aceitou dar uma entrevista formal. Ao ser questionada sobre o pai de seus dois filhos, parou de responder. A última mensagem enviada pela reportagem foi no fim da tarde de segunda-feira (28). O espaço segue aberto para que ela se pronuncie.

Pai e filho começaram a se aproximar quando Medina ainda namorava Tayná Hanada, a quem Claudinho não cita nominalmente. "Foi ela que começou a trazer mais o Gabriel, incentivava ele a me visitar. Infelizmente, eles desmancharam até hoje por um jeito estranho, mas creio que foi uma armação", opina. Ele não diz de quem, mas diversas fontes ouvidas pela coluna culpam Simone pelo fim do relacionamento. É comum a análise de que a mãe queria escolher com quem o filho se casaria.

Medina escolheu Yasmin Brunet, tida como mais madura que o surfista, e que o ajudou a abrir os olhos para determinadas situações familiares. Uma, o expressivo volume de dinheiro que Gabriel ganhava e que era gasto por Simone e Charles. Outra, a relação com o pai.

"Quando ele teve oportunidade, ele me apresentou a ela. Aí começou a Yasmin falar para o Gabriel: 'Sua mãe fala dele [de Claudinho] de um jeito, mas quando eu venho aqui, eu tô falando com ele normal, sincero, não estou entendendo. Você precisa falar com ele mais. Foi quando eles foram para o Havaí e casaram. Uma hora antes, ele me ligou, me contou e eu abençoei o casamento. Quando ele voltou e foi contar para a mãe, a Simone não gostou", conta Claudinho.

Ele conta que sempre alertou o filho para que lesse tudo que fosse assinar e para que cuidasse bem do seu patrimônio. Medina, porém, deixou essa responsabilidade com Simone e Charles. "Agora, ele está sabendo a verdade. O prédio do Instituto [Gabriel Medina] foi comprado com o dinheiro dele, só que ele confiou no padrasto e na mãe, e ela até hoje diz que é dela. Mas ela não tinha dinheiro para comprar, foi meu filho que comprou. Agora, ela quer vender o terreno que é do meu filho, mas que está no nome dela".

Apesar da venda do prédio, Medina quer manter o Instituto funcionando em Maresias, em novo local e com novos administradores. Claudinho é um dos que defendem que o projeto, que era voltado ao esporte de alto rendimento, uma espécie de clube para formar atletas profissionais, passe a assistir jovens carentes da região.