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Atacado por candidato, break dance será esporte olímpico a partir deste ano

B-boy brasileiro Bart estará na grande final do Mundial de Break Dance, na Índia - Red Bull
B-boy brasileiro Bart estará na grande final do Mundial de Break Dance, na Índia Imagem: Red Bull
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

02/10/2020 11h40

O break dance se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter no Brasil na madrugada de hoje (2), depois de ser citado ao menos duas vezes como exemplo negativo de atividade escolar por Arthur do Val (Patriota), candidato a prefeito de São Paulo, em debate promovido pela Band.

"O filho (sic) das mães da periferia vão ter educação dentro da escola e não gastar sua energia tendo aulas de 'picho', de, de, de, break dance", disse Do Val, tratando da modalidade esportiva em tom de deboche.

Os próximos prefeitos terão que conviver, porém, com o fato de que o break dance será esporte olímpico durante a gestão deles. Isso significa que deverá haver break dance nos Jogos Escolares, na Bolsa Atleta e no COB, por exemplo. A decisão ainda não está tomada, mas está bastante encaminhada.

A ideia partiu do Comitê Organizador dos Jogos de Paris-2024 e já foi aceita pelo Conselho Executivo do conservador Comitê Olímpico Internacional (COI). Uma comissão especialmente dedicada ao programa olímpico ouviu atletas, federações internacionais e comitê nacionais para chegar à proposta de que o break dance seja disputado em Paris, junto com outros três esportes radicais, dois deles urbanos: escalada velocidade, skate e surfe.

De acordo com o COI, a decisão final será tomada em dezembro, na próxima reunião do Conselho Executivo. Isso significa que, quando os hoje candidatos assumirem as prefeituras em janeiro, o break dance será um esporte olímpico tanto quanto o vôlei, o basquete, o handebol e o judô, por exemplo.

O Olhar Olímpico explicou em fevereiro de 2019: o movimento olímpico está disposto a bater de frente com os puristas e se aproximar, cada vez mais, do público jovem, principalmente aquele conectado à cultura de rua. Exatamente aquele que não veste uma camisa polo, calça tênis branco e vai para o clube jogar squash - modalidade que, há tempos, tenta entrar no programa.

Um teste já foi feito e pode ser considerado muitíssimo bem-sucedido. O break dance foi disputado na Olimpíada de Juventude de Buenos Aires, em 2018. A competição aconteceu em uma estrutura montada no Parque Madero, um dos locais mais movimentados e de atmosfera jovem da capital argentina. Lá foram disputadas também as provas de escalada, basquete 3×3 e BMX freestyle - essas duas disciplinas vão estrear em Tóquio-2020.

Com skate, escalada e break dance, Paris dá mais um passo nesse sentido de integrar a Olimpíada com a cidade, representado, também, pela decisão anunciada mais cedo de realizar uma prova para cidadãos comuns no mesmo dia e no mesmo percurso da maratona olímpica. A maratona aquática vai ser no Sena. O Campo de Marte (o gramado em frente à Torre Eiffel) receberá o vôlei de praia. E por aí vai.

A competição de dança em Paris será organizada pela World Dance Sport Federation (WDSF), que é reconhecida pelo COI há mais de 20 anos como a entidade responsável pela dança esportiva mundial. Especialista principalmente na dança de salão, seja clássica ou em ritmos latinos, ela agora terá que se renovar para abraçar melhor o break dance.

Esse é o desafio dos próximos anos, maior do que o vivido pelo skate, inclusive. Dar um caráter esportivo, organizado, para o que historicamente é arte, é cultura, é caótico. Nunca foi necessário submeter uma competição de break dance, em qualquer lugar do mundo, à chancela ou às regras impostas pela WDSF. Agora, ao menos parte do calendário precisará ser assim. Da mesma forma, os atletas que quiserem competir em Paris terão que se federar.

É um processo longo, mas de ganha-ganha. Ganha o movimento olímpico, cada vez menos careta. Ganha o break dance, que, com visibilidade e reconhecimento vai combater o preconceito e ganhar cada vez mais as ruas, as quadras e as escolas.