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USP recebe feira para 30 mil pessoas, mas aulas e treinos seguem proibidos

Boat Show 2019; edição de 2020 será ao ar livre, na USP - Divulgação
Boat Show 2019; edição de 2020 será ao ar livre, na USP Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

15/09/2020 12h41

Pela primeira vez em 25 anos, o Brasil pode voltar a classificar um barco longo de remo para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Remadores paulistas, porém, estão impedidos de treinar no único local adequado para a prática da modalidade em São Paulo, a Raia Olímpica da USP, na Cidade Universitária. A justificativa da prefeitura do campus é que estamos no meio de uma pandemia.

Mesmo assim, a USP e o governo do Estado de São Paulo já anunciam que, em novembro, a Raia Olímpica vai receber uma feira de barcos, lanchas e iates, a São Paulo Boat Show, com expectativa de receber 30 mil pessoas na Cidade Universitária. Enquanto isso, não só a raia seguirá fechada para atletas como os eventos "científicos, culturais, artísticos e esportivos" ligados à comunidade acadêmica continuarão proibidos.

A USP não respondeu nenhuma pergunta feita pela reportagem. Enviou, apenas, a mesma exata nota enviada a outros veículos de imprensa que trataram sobre a Boat Show: "O evento está previsto para ocorrer em novembro e já conta com a autorização do governo estadual. Sua realização deverá atender às recomendações do Plano USP para o retorno gradual das atividades presenciais". Entre as perguntas sem resposta estão quanto a universidade vai receber para sediar o evento internacional e por que ele é prioritário em relação à volta às aulas, por exemplo.

O "Plano USP" foi apresentado à comunidade uspiana em meados de agosto e está correlacionado ao Plano São Paulo, do governo paulista, a quem a USP é subordinada. Se no âmbito estadual a divisão de fases é por cores (vermelha, laranja, amarela, verde e azul), no universitário as fases são definidas por letras: A, B, C, D e E, sendo a primeira mais restrita e a última a de "volta ao normal".

Hoje, enquanto a cidade de São Paulo está na fase amarela, a Cidade Universitária está na "fase B". O controle de entrada de público externo no campus é "rigoroso", o acesso aos edifícios é "parcial" e o acesso às áreas comuns é "restrito". Aulas teóricas só remotamente e até os restaurantes universitários (os populares "bandejões") estão fechados. Os museus e os centros culturais e esportivos precisam ficar fechados.

Programado para acontecer de 19 a 24 de novembro na Raia, um equipamento do Centro de Práticas Esportivas da USP (CEPEUSP), o Boat Show só seria possível na fase C do Plano USP. Neste documento, consta que "é obrigatório cumprir, no mínimo, quatro semanas consecutivas na Fase Verde — Fase C do Plano USP —, antes de iniciar o processo de relaxamento das restrições". Só há uma possibilidade para isso: a capital entrar na Fase Verde na próxima revisão, dia 9 de outubro, mantendo-se até a seguinte, em 7 de novembro.

A cidade de São Paulo segue na Fase Amarela, sem previsão ser ser promovida, mas o Boat Show já é dado como certo tanto pela USP quanto pelo governo João Doria (PSDB) que, de acordo com a universidade, já deu autorização para o evento. Procurada, a prefeitura de São Paulo ressaltou que respeita o Plano SP, que "não prevê a realização de eventos na fase amarela, etapa na qual a cidade se encontra neste momento".

A Secretaria de Turismo diz que feiras comerciais estão previstas para acontecer a partir do dia 12 de outubro, "com limitações e protocolos, desde que a região esteja na fase Verde". A pasta informa que, segundo os organizadores, são esperados 30 mil visitantes na feira.

Essas são as regras do Plano São Paulo. Mas o Plano USP é mais restritivo. Na Fase C, equivalente à Verde, os servidores continuarão trabalhando em escala de revezamento, com no máximo 60% dos colaboradores, o acesso às áreas comuns vai continuar "restrito" e a entrada nos Centros Esportivos (como a Raia, local da feira) será "com restrição de público" e com atividade somente em ambiente externo. Os museus e centros culturais vão continuar fechados, assim como os bandejões. A entrada de estrangeiros na Cidade Universitária seguirá proibida.

Bruno Covas e Ernani Paciornik, organizador da São Paulo Boat Show, após almoço na semana passada - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Nenhuma dessas regras vai impedir a realização do Boat Show, de acordo com a USP e com o governo do Estado. Vídeo divulgado pelos organizadores mostra que o layout prevê diversas tendas de expositores, assim como uma praça de alimentação. Barcos, lanchas e iates ficarão expostos na raia onde os remadores seguirão proibidos de treinar.

O Grupo Náutica, que organiza a Boat Show e vem divulgando que tem autorização do governo do Estado de São Paulo, disse em nota ao Olhar Olímpico que a feira "será realizada mediante a liberação da Prefeitura de São Paulo, respeitando também o Plano SP do Governo do Estado e seguindo todos os protocolos de segurança sanitária estabelecidos por lei". Os organizadores não confirmaram a expectativa de público, nem responderam quanto vão pagar pela locação do espaço. No material promocional, não há qualquer referência à necessidade de uma autorização municipal que ainda não veio.

A Secretaria Estadual de Esporte e a prefeitura de São Paulo já autorizaram a volta dos esportes individuais e sem contato na capital, na fase amarela. Mas, por opção da prefeitura, praticamente todos os equipamentos esportivos municipais seguem abertos apenas para a prática de caminhada. O Centro Olímpico ganhou uma pista de atletismo de padrão internacional, que segue fechada, por determinação da prefeitura. Ali também estão fechados a piscina olímpica, o dojô de judô e o centro de treinamento de ginástica artística.

Nos clubes municipais, pistas de atletismo, piscina e todos os outros equipamentos seguem fechados. A exceção é o Núcleo de Alto Rendimento (NAR), administrado por uma ONG, em um centro esportivo em Santo Amaro. Um protocolo específico foi aprovado para se treinar ali. Nos clubes privados as piscinas, pistas, dojôs e quadras de tênis estão abertas normalmente.

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