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Missão Portugal é prova que Brasil falhou em criar legado da Rio-2016

Equipes de ginástica embarcam para Portugal - Mônica Faria/COB
Equipes de ginástica embarcam para Portugal Imagem: Mônica Faria/COB
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

18/07/2020 04h00

A badalada "Missão Europa", do COB, é uma vergonha para o esporte brasileiro. Exatos quatro anos depois dos Jogos Olímpicos do Rio, o país leva seus melhores atletas para treinar na Europa porque o Brasil não conseguiu entrar no chamado "modo legado" e, até hoje, não deu destinação para as facilidades construídas para a Olimpíada. Algumas delas, sequer terminou de construir ou reformar.

A desculpa oficial é que o Comitê Olímpico do Brasil (COB) está precisando levar mais de 200 atletas para Portugal, para ficarem lá não mais do que 45 dias cada um, de hoje até o final do ano, porque no Brasil eles não teriam condições de treinamento. Também ontem (17), quando mais de 100 pessoas entraram num avião em Campinas (SP) rumo a Lisboa, o governo do Rio autorizou diversas práticas esportivas, incluindo a maior parte das serão praticadas em Portugal.

A Missão Europa é do COB, mas sua existência é um fracasso para o país, como um todo - o que não exclui o COB. Vamos pegar o exemplo o governo do Estado de São Paulo, que prometeu entregar em 2016 um Complexo Esportivo Baby Barioni completamente reformado. Até hoje não entregou. Estivesse pronto e funcional, o complexo poderia receber equipes como a de ginástica artística, ou de judô, que ficariam alojadas dentro do próprio centro.

É verdade que diversas cidades e estados impõem regras que impedem ou atrapalham o treinamento de alto rendimento e estamos, afinal, ainda no pico da pandemia, com mais de mil mortes por dia. Mas enquanto uma parte da seleção brasileira de judô viaja a Coimbra (Portugal), outra parte estava treinando normalmente em Cuiabá (MT), onde treinar judô está permitido. O COB pagou mais de meio milhão de reais, em recursos públicos, para a Federação Portuguesa de Judô, para poder usar suas instalações. Não seria melhor que esse dinheiro continuasse no Brasil?

Antes de embarcar para Portugal, Flávia Saraiva e Rebeca Andrade já estavam treinando no Flamengo. O próprio COB tem um Centro de Treinamento de ponta no Maria Lenk, no Rio, que vai abrir já na segunda-feira (20). Não seria mais economicamente viável montar um esquema de concentração no Rio? Utilizando as instalações do Flamengo ou até as do COB? O governo federal tem um acordo com hotéis da região que assegura um preço baixíssimo pelo aluguel de quartos para quem compete ou treina no Legado Olímpico.

A equipe de nado artístico estava treinando no CEFAN, da Marinha, outra instalação reformada com dinheiro público para Olimpíada, antes de embarcar para Portugal, onde as mesmas atletas vão ficar alojadas numa instalação público-privada ligada ao comitê olímpico português, o CT Rio Maior. Por que não fazer isso no próprio CEFAN, que tem alojamento de primeira linha, utilizado em campeonatos militares sediados no Rio?

O CT Rio Maior deve ser o quartel-general do Brasil antes dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, assim como foi a Escola de Educação Física do Exército, na Urca, antes da Rio-2016. Se o governo já liberou a utilização da Urca, por que o QG português é melhor que o brasileiro? Por mais de R$ 5 milhões de dinheiro público brasileiro está indo para o bolso do governo português, não do esporte brasileiro?

A resposta está no sistema esportivo brasileiro. Há pouco ou nenhum diálogo entre COB, governo do Rio ou de qualquer outro canto, Marinha, Exército, confederações, clubes... Quem deveria cumprir esse papel, pensar soluções, promover o diálogo, é o governo federal, que abandonou o Parque Olímpico da Barra e não tem nenhum plano para o local, exceto fazer de tudo para privatizá-lo. E tudo fica mais difícil se, na volta do esporte de rendimento, a cadeira de secretário de alto rendimento está vaga há um mês - Bruno Souza foi nomeado ontem e ainda não tomou posse.

Mas é claro que o COB tem grande responsabilidade na decisão que, afinal, é dele. Faltam quatro meses para a eleição presidencial do comitê e Paulo Wanderley perdeu sua grande vitrine, que seria a Olimpíada. O COB precisa mostrar serviço e a Missão Europa cumpre esse papel, permitindo ainda que ex-atletas com direito a voto sejam convidados para passar uma semana em Portugal. Dois coelhos com uma cajadada só.

O comitê se orgulha de ter construído diálogo com o governo português para conseguir a autorização especial para a entrada dos brasileiros. Enquanto isso, o movimento olímpico até agora não se sentou com a cúpula do governo paulista para tentar discutir um protocolo para treinamentos de altíssimo rendimento mesmo em regiões na fase vermelha. O futebol pode treinar, porque fez lobby e apresentou bons protocolos, mas os olímpicos não. Por causa disso, hoje fecha o CT do atletismo, em Bragança Paulista. Talvez se o foco não estivesse em Portugal as coisas seriam diferentes.