PUBLICIDADE
Topo

Atleta olímpica brasileira superou confinamento e volta à rotina na China

Gui Lin volta a sair às ruas na China - Arquivo pessoal
Gui Lin volta a sair às ruas na China Imagem: Arquivo pessoal
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

23/03/2020 04h00

Milhares de atletas brasileiros estão começando a experimentar uma nova realidade, que parecia impensável até alguns dias atrás: ficar trancafiado em casa, não só impedidos de ver amigos e famílias como qualquer outra pessoa, mas também sem poder treinar. Uma atleta olímpica brasileira sabe bem como é isso, porque vivenciou antes essa experiência. Gui Lin, agora uma recém-aposentada do tênis de mesa, passou 30 dias sem poder sair de casa na China e agora começa a voltar a viver uma vida quase normal.

Em entrevista ao Olhar Olímpico por um aplicativo de mensagens popular na China, Gui Lin contou que sua cidade, Nanning, onde moram mais de 7 milhões de pessoas, só teve 54 casos coronavírus. Mesmo assim foram implementadas medidas muito mais restritivas do que as existentes em qualquer cidade brasileira hoje.

"Em cada dia, só uma pessoa de cada família podia ir ao supermercado. Logo no início surgiu um QR Code para registrar movimentação das pessoas. Para você entrar ou sair de um lugar, inclusive lugares públicos, era necessário scanear o QR. Com isso o governo tentar rastrear suas movimentações quando aparece um caso confirmado, conseguem encontrar com rapidez as pessoas que podem ter tido contato, examiná-las e evitar a expansão", explica.

Gui Lin nasceu na China e veio morar no Brasil quando ainda era criança. Foi aqui que, treinada por Hugo Hoyama, ela se tornou uma jogadora de tênis de mesa. Naturalizada na véspera dos Jogos de Londres, foi a duas Olimpíadas pelo Brasil, em 2012 e 2016. Provavelmente iria também a Tóquio, mas decidiu abandonar a carreira de jogadora de tênis de mesa, voltar a morar com os pais na China e iniciar uma pós-graduação.

Como tanto a mãe quanto o pai dela trabalham em hospital, exatamente naquele onde aconteceu o primeiro caso de coronavírus em Nanning, a quarentena para ela foi mais longa. "A gente tem mais risco de pegar, aí decidimos ficar mais tempo em casa, até dar tempo suficiente de passar, para ter certeza que não passaríamos para os outros. Como eles continuam a trabalhar, então é melhor eu não ficar andando pela cidade. Tentamos se proteger e também proteger aos outros", afirma.

No total, a quarentena durou um mês. Saídas, nem para o mercado, porque tudo era comprado online. Como no Brasil, ela conta, de início as medidas não eram seguidas à risca. Demorou um tempo até todos se conscientizarem. "Como a intensidade de concentração de pessoas é alta, não sabemos onde está o vírus, é muito importante evitar ao máximo que as pessoas que têm risco de contrair o vírus fiquem andando por aí. No início o povo daqui também era assim, estavam agindo como se estivesse tudo bom, mas quando fecharam a cidade perceberam que o problema é sério,"

A agora ex-jogadora adaptou a mesa da sala e alinhou latas como se fossem uma rede para poder jogar tênis de mesa contra os pais e sair do tédio. Segundo ela, o mais difícil durante a quarentena foi cuidar da parte psicológica. "No começo também fiquei desesperada. A preocupação maior é com meus pais, porque eles têm que trabalhar nesse período, mas tentei procurar as coisas mais positivas. Comecei fazer planos de estudar, fazer exercício dentro de casa. Durante nesse período quase montei uma academia em casa. Temos que organizar bem os horários, ocupar cabeças com as coisas positivas", explica.

Dicas para os brasileiros que estão agora entrando em quarentena? "Fiquem em casa. Colaborem o máximo possível, por favor. Por que o custo e risco de tratamento dessa doença é muito alto, os profissionais de área saúde estão sofrendo muito. Eles tão correndo risco de vida para ajudar a gente. Somos todos iguais, então vamos ajudar eles também. Só precisamos ficar em casa. Já ajuda muito."

Até porque há uma luz no fim do túnel. Uma hora a quarentena vai acabar, como acabou na China, ainda que com restrições. "Começamos a sair de casa quando nossa cidade ficou 18 dias sem caso novo. Agora as coisas estão começando a normalizar aos poucos. Como apareceram uns casos que vieram do exterior, ainda não podemos ficar 100% relaxados, as escolas continuam fechadas. Estamos tomando muito cuidado como antes, evitar a ir lugar que tem muita gente e lugares fechados."