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Pressão por Tóquio-2021 começa a tornar Olimpíada em 2020 insustentável

Homem com máscara de proteção em frente à logomarca dos Jogos Tóquio 2020 - ISSEI KATO
Homem com máscara de proteção em frente à logomarca dos Jogos Tóquio 2020 Imagem: ISSEI KATO
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

21/03/2020 11h47

É muito provável que os Jogos Olímpicos de Tóquio não aconteçam em 2020, mas sim em 2021. Isso apesar da vontade expressa do Comitê Olímpico Internacional (COI), dono da festa, de manter tudo como planejado. Nas últimas horas, cresceu a pressão dos protagonistas para que a Olimpíada seja adiada, em um movimento puxado por uma dobradinha que, sozinha, venceria a Olimpíada: natação + atletismo dos Estados Unidos. O Comitê Olímpico do Brasil (COB) se juntou a pioneiros como os da Espanha e da Noruega e também pediu expressamente que Tóquio-2020 se torne Tóquio-2021.

Está em jogo o interesse de dezenas de milhares de pessoas. Treinadores, fisioterapeutas, voluntários, patrocinadores, cinegrafistas, funcionários do Comitê Organizador, etc... O interesses de todos eles, de todos os chamados stakeholders deve ser levado em conta. Mas há só um grupo que pode dar a decisão: os atletas. Eles são insubstituíveis. Sem eles não há Olimpíada.

E eles começam a dizer que não querem competir uma Olimpíada em 2020. Não sem poder treinar, não com esse clima no mundo todo, não nessas condições. Claro que o coronavírus impacta de forma diferente atletas de países e modalidades diferentes. Com as pessoas proibidas de saírem na rua na Espanha, foi o comitê olímpico de lá o primeiro a pedir publicamente o adiamento da Olimpíada.

Entre os atletas, Bruno Fratus foi um dos primeiros a soltar a voz. Ele faz parte de três grupos diferentes interessados no adiamento: é brasileiro (o país começa a entrar em confinamento e vê o número de casos explodir), é nadador (não tem acesso à água e, por isso, não consegue treinar) e treina nos Estados Unidos (onde as universidades e as piscinas públicas estão fechadas).

Depois dele, ainda ontem (20), a federação de natação dos Estados Unidos pediu ao comitê olímpico do seu país o adiamento da Olimpíada. Como adiantou o Olhar Olímpico, neste sábado (21) a federação de atletismo fez o mesmo. Juntas, essas duas federações venceriam o quadro de medalhas da Rio-2016, com 29 medalhas de ouro (e 65 no total), contra 27 da Grã-Bretanha e do resto dos EUA e 26 da China.

O Comitê Olímpico dos EUA defendeu ontem mesmo a postura do COI de que há tempo para discutir adiar a Olimpíada ou não, mas a pressão cresce com a postura pública do atletismo. E outros atores importantes estão entrando na novela. Na Grã-Bretanha, a federação de atletismo também pediu o adiamento dos Jogos. A entidade é próxima ao britânico Sebastian Coe, medalhista olímpico, presidente da World Athletics, a federação internacional de atletismo.

Atletismo e natação tomam a frente desse movimento porque são as duas modalidades que precisam de seletivas nacionais para escolher quem vai à Olimpíada e já está claro que muito dificilmente haverá tempo hábil para realizá-las antes da Olimpíada marcada para começar 24 de julho. Depois de se reunir com federações internacionais na terça, o COI disse que vai flexibilizar os critérios de classificação, aceitar resultados antigos, etc, mas isso não atende a demanda dos americanos.

Para eles, as seletivas de natação e atletismo são parte dos Jogos Olímpicos, mais difíceis do que as eliminatórias da Olimpíada na maioria das provas. São eventos grandiosos, transmitidos na TV, e com ingressos esgotados. Mais do que isso: sem seletivas não há como escolher quem vai a Tóquio. Não há, no mundo, nenhuma seletiva nacional de natação confirmada para a data inicialmente prevista e com aceitação de público nas arquibancadas.

No Brasil, o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) defendeu o adiamento da Paraolimpíada ontem (20), em movimento também relevante para o futuro dos Jogos. É que o Comitê Paraolímpico Internacional (IPC) é presidente por um brasileiro, Andrew Parsons, que antes presidiu o CPB - as duas entidades hoje mantém relação fria.

Hoje foi a vez de o COB se posicionar pelo adiamento da Olimpíada para 2021, o que logo foi chancelado também pela Confederação Brasileira de Judô (CBJ), influente na modalidade. Numa ação coordenada, federações brasileiras como a de ginástica começaram a informar que vão pedir às respectivas federações internacionais que também intercedam pelo adiamento.

A tendência nas próximas horas e dias é que mais gente perca o medo de falar o que pensa: que não há clima para realizar a Olimpíada em 2020 e que os atletas merecem uma preparação adequada para disputar os Jogos, o que só será possível em meados de 2021. O COI que se vire para fazer isso acontecer.