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Bruno Fratus: Por que defendo que Olimpíada seja adiada

Bruno Fratus, nadador olímpico brasileiro  - Buda Mendes/LatinContent via Getty Images
Bruno Fratus, nadador olímpico brasileiro Imagem: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

21/03/2020 15h27

O nadador olímpico brasileiro Bruno Fratus, presente nos Jogos Olímpicos de 2012 e 2016 na prova dos 50 m livre e quatro vezes medalhista em Mundiais da modalidade, escreveu um texto para o UOL a respeito do impasse sobre a realização dos Jogos de Tóquio neste ano, em meio à crise mundial imposta pela pandemia do coronavírus.

Segue abaixo o posicionamento de um dos principais atletas olímpicos do país na atualidade:

"Cada dia que o Comitê Olímpico Internacional (COI) posterga a decisão de adiar os Jogos Olímpicos de Tóquio e mantém o pedido para que continuemos treinando em meio à pandemia do coronavírus é um dia a mais que atletas do mundo se veem pressionados a sair de suas casas para treinar, colocando em risco a própria saúde, a saúde de seus familiares e a saúde de toda a sociedade.

Não vou mentir para vocês. Se eu tivesse onde nadar, eu estaria nadando. Eu treino em uma piscina pública em Coral Springs, nos Estados Unidos, que hoje está fechada para evitar aglomerações em locais públicos. Decisão correta, indiscutível. Como todas as outras piscinas do país também estão fechadas, só me sobrou a opção de ir à casa de um amigo, que tem uma piscina de uns 10 metros. Até seria útil para mim, eu seguiria a recomendação do COI de continuar treinando, mas aí eu estaria desrespeitando as principais orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), do país onde vivo, e colocando em risco desnecessariamente a minha saúde, da minha família, do meu amigo e da família dele.

Ganhar uma medalha olímpica começou como um sonho de criança, quando eu tinha 11 anos. Esse sonho virou um objetivo sólido e tangível que há anos, já quase por duas décadas, todos os dias, está no meu pensamento quando acordo e quando vou dormir. São os Jogos Olímpicos que movem todos atletas ao redor do mundo. Mas, neste momento, há muitas outras preocupações na minha cabeça, outras prioridades. Eu não sou do grupo de risco, mas meus pais, que têm mais de 60 anos, e especialmente meu pai, diabético, são. A gente vê as notícias, as pessoas morrendo no mundo todo, e tudo que podemos fazer é ficarmos em isolamento, limitados aos exercícios que cabem na sala de casa.

É claro que isso não é nem perto do ideal. Eu pessoalmente vou encontrar uma forma de estar preparado caso a Olimpíada seja na semana que vem, em julho ou em 2021. Mas tudo isso é muito maior do que eu, meus objetivos pessoais, meu próprio umbigo. Na natação é comum que os ciclos de periodização levam em media 16, 18 semanas, isso se você não estiver parado há semanas. Como fazer isso sem entrar na água? Só dentro da piscina é possível treinar movimentos que não são naturais do ser humano, como flutuar, segurar a respiração, a amplitude de movimento que a natação exige, a sensibilidade à água...

O objetivo desse ciclo de 4 anos é sempre chegar no auge da forma no ano olímpico e competir contra adversários também no auge. Mas a crise global do coronavírus faz com que, como poucas vezes na história, nem todos tenham as mesmas oportunidades de se preparar. Os Jogos Olímpicos pelo lado do esporte competitivo perdem o sentido, a razão de ser.

Quando me posicionei defendendo o adiamento da Olimpíada, o fiz não para me colocar como um líder dos atletas. Minha intenção era empurrar essa primeira pecinha do dominó e quebrar a inércia da comunidade esportiva. Vou confidenciar, porém, que depois que decidi falar meu celular não parou de tocar. Conversei com diversos nadadores, do Brasil e de outros países como EUA, França, Itália, Hungria, Austrália e até do Japão, e não encontrei nenhum que seja a favor da Olimpíada na data marcada.

Já deixei claro que não pretendo assumir essa "briga" como minha e transformá-la no objetivo da minha carreira, mas de certa forma me incomoda a passividade que a maioria dos atletas tem demonstrado. Afinal de contas somos modelo para as gerações. Atravessar uma piscina ou chutar uma bola é uma parte muito pequena, quase que irrisória da nossa função em uma sociedade.

Você, atleta, é muito mais do que apenas um atleta, portanto faça uso ativo e responsável dessa imagem, dessa voz. Vamos nos empenhar em fazer a diferença da mesma forma que trabalhamos para atingir os nossos objetivos. Medalha é algo que fica lindo pendurado na parede ou no cabide. Mas no final das contas elas são apenas ferramentas que exponenciam a sua voz. Medalhas enferrujam, envelhecem, títulos são esquecidos. Legado, não.

Legado é a única coisa que realmente importa e que podemos tirar dessa loucura que é ser atleta olímpico.

Acho importante que os atletas opinem publicamente sobre a vontade deles. Os Jogos Olímpicos são nossos. Com todo respeito e reconhecimento que tenho ao Comitê Olímpico Internacional, minha intenção não é enfrentar a entidade, mas trabalhar junto. É preciso que se reconheça que os atletas são o centro desse universo representado pelo COI. Portanto é a vontade dos atletas, a favor ou não do adiamento, que precisa ser decisiva e final nessa decisão vital para a nossa comunidade.

Enquanto a decisão não é tomada, seguimos aqui, "treinando" e lidando com a expectativa de dentro de casa, fazendo a nossa parte seguindo as recomendações das autoridades. Fiquem em casa vocês também."

Olhar Olímpico