PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

Sem controle antidoping, Olimpíada não tem como garantir jogo limpo

Fachada da Wada, a agência mundial anti-doping - REUTERS/Christinne Muschi
Fachada da Wada, a agência mundial anti-doping Imagem: REUTERS/Christinne Muschi
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

22/03/2020 04h00

A Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) nega, mas paralisou o controle de dopagem no Brasil. Não apenas os exames em competições, uma vez que praticamente todo o esporte brasileiro está paralisado, mas também os exames surpresa, chamados de "fora de competição", em que oficiais vão até as casas e os locais de treinamento dos atletas sem avisar.

A situação não é exclusiva do Brasil e a Agência Mundial Antidoping (Wada) admite que as restrições de circulação de pessoas em todo o mundo têm imposto dificuldades ao combate ao doping. Tem crescido o burburinho entre os mais rígidos defensores do "jogo limpo" de que, assim, não há como realizar uma Olimpíada tão cedo. Ninguém tem como assegurar que o atleta que está em casa hoje, ciente de que não será incomodado por oficiais exigindo um exame, não terá se aproveitado de métodos proibidos quando disputar a competição mais importante do mundo em julho.

No Brasil, a estratégia é negar que exista a paralisação completa, ainda que o laboratório que realiza os exames esteja fechado desde quinta-feira (18), sem previsão para reabrir. A ABCD teme que, confirmando publicamente que não está realizando os exames surpresa, acabe abrindo brecha para que atletas inescrupulosos se aproveitem para realizar tratamentos proibidos. Por isso, publicamente a agência diz que segue tudo como planejado.

"A ABCD não irá interromper os testes realizados fora de competição e aguardará a posição oficial e final sobre a realização dos Jogos de Tóquio 2020 para reavaliar o Plano de Distribuição de Testes (PDT) aprovado para este ano", disse a entidade, em mensagem publicada no seu site na quinta-feira (19).

Oficiais ouvidos pelo blog, porém, afirmam que há pelo menos 10 dias eles não recebem demandas. Esses oficiais ficam em um banco de profissionais credenciados e são contratados como autônomos. Ainda na semana passada, no dia 12, eles receberam um e-mail com orientações extras para se protegerem contra o coronavírus. Um guia que diz como vestir e retirar as lutas e medidas extras de higienização. Também havia um alerta que atletas não podem recusar o procedimento usando o Covid-19 como justificativa.

Mas na prática as coisas funcionam diferente. A ABCD sabe que é arriscado colocar oficiais se deslocando pelo país para fazer exames e que os atletas temem sair da quarentena para receber desconhecidos em casa. E há um complicador: o laboratório antidoping brasileiro, da UFRJ, no Rio, está fechado. Não há como analisar os exames no Brasil, nem viajar com eles para o exterior, seja Montreal, Los Angeles ou Zurique, diante das limitações de tráfego aéreo e das quarentenas impostas nas duas pontas do trajeto.

Em nota, a UFRJ diz as atividades estão paralisadas porque "não há amostras a serem analisadas". "Assim que as competições esportivas tiverem condições de serem retomadas, automaticamente o laboratório retomará suas atividades normais. Até lá, o Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem continua com seu trabalho de pesquisa e assessoramento técnico-científico aos seus parceiros nacionais e internacionais", afirma a universidade onde fica o laboratório construído para a Rio-2016.

As discussões quanto ao controle de doping têm sido constantes nos bastidores do esporte desde que a China se fechou para controlar o coronavírus e notadamente paralisou exames. Nesta semana, as agências do Reino Unido (UKAD) e dos Estados Unidos (USADA) admitiram que estão reduzindo seus programas.

A USADA anunciou que se concentrará apenas nos atletas que ainda estão competindo e nos que estão se preparando para Tóquio-2020, também como uma forma de manter suas reputações. "Estamos igualmente comprometidos em proteger a saúde e o bem-estar dos atletas e do pessoal de coleta de amostras", afirmou a agência, em comunicado.

No Reino Unido também houve anúncio de uma "redução significativa" nos testes. "Esta é uma decisão difícil e que não foi tomada com leveza. Nossa prioridade é a saúde e o bem-estar dos atletas, nossa própria equipe e oficiais de controle de doping. Como organização, nossa responsabilidade continua sendo a de proteger o esporte limpo, mas devemos dar prioridade à saúde e ao bem-estar e agir de forma responsável, de acordo com os conselhos do governo durante este período sem precedentes", afirmou Nicole Sapstead, diretora-executiva do UKAD.

A sinceridade explícita provocou outras entidades a falarem sobre as dificuldades, incluindo a Wada, que soltou comunicado na sexta-feira à noite. "No momento em que a maioria dos países está adotando medidas rigorosas, essa nova situação para todos está, sem dúvida, afetando o sistema antidopagem. O fechamento de fronteiras, quarentenas ou isolamentos obrigatórios, cancelamentos de voos, restrições de movimentos sociais, fechamento de escritórios e cancelamento de eventos esportivos estão dificultando o trabalho cotidiano normal das pessoas envolvidas no combate ao doping", reconheceu a agência, sediada no Canadá.

O presidente da Wada, Witold Banka, deixou claro que a prioridade, agora, é a saúde global: "Esse assunto vai muito além do antidoping e do esporte. É uma emergência global. E nossa primeira prioridade deve ser saúde pública, segurança e responsabilidade social. Durante esse período, eu gostaria de reconhecer o quão difícil é também para os atletas que enfrentam interrupções em seus programas de treinamento e incerteza quanto ao que o futuro reserva para suas competições", ponderou ele.