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Marília Ruiz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Começa hoje 'The Last Dance' de Renato no Grêmio

Renato Gaúcho, técnico do Grêmio, em partida entre Grêmio e Fluminense - Lucas Uebel/Getty Images
Renato Gaúcho, técnico do Grêmio, em partida entre Grêmio e Fluminense Imagem: Lucas Uebel/Getty Images
Marília Ruiz

Tenho 20 anos de jornalismo esportivo: 5 Copas do Mundo, 4 Olimpíadas, muitos Brasileiros, alguns Mundiais e várias Copinhas. Neste blog seguirei fazendo isso: escrevendo sobre futebol. Sem frescura. Sem mimimi. Para versões oficiais dos clubes e atletas, recomendo procurar as assessorias de imprensa.

07/03/2021 04h00

Preparem as câmeras e comecem a registrar caras, caretas, choros, matadas de bola à beira do gramado e coletivas "virais". No dia em que pode conquistar seu oitavo título pelo Grêmio como técnico, Renato começa também a se despedir do clube que já o imortalizou em vida.

O anúncio da renovação de seu contrato até o final deste ano às vésperas da decisão da Copa do Brasil contra o Palmeiras teve ingredientes de um pacto de divórcio amigável de um casal bem resolvido. Acertado entre as finais, apesar da derrota no jogo de ida por 1 a 0, o acordo prestigia e valoriza uma relação longa, feliz e vitoriosa. Sim, sabemos, isso não é comum em clube algum por aqui.

Tal qual aquela última temporada memorável de Michael Jordan pelo Chicago Bulls (vocês que ainda não assistiram à série "The Last Dance", façam-no imediatamente), o pacto Grêmio-Renato tem promessa de reforços para uma despedida vencedora, terá esforço para revelar jogadores que recheiem os cofres do clube, tem a serenidade de preservar intacta a "estátua".

Em conversa com o BLOG 24 horas antes da decisão, durante 20 minutos, Renato falou das vantagens dos rivais mais ricos, fez autocrítica, mas disse que está confiante de que poderá erguer uma nova taça no Allianz Parque, e ainda contou seu sonho de um dia assumir a Seleção.

Ouça a entrevista:

A seguir os principais trechos da entrevista. A íntegra (com trechos sobre técnicos estrangeiros, "mapas de calor", a Seleção de Telê e muito mais) será veiculada na programação do Bandsports, da TV Band e na rádio Bandeirantes neste domingo.

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Marília Ruiz: Quem é o melhor técnico?

Renato Portaluppi: Estamos bem servidos de técnicos no Brasil. Não é porque o Renato e o Abel chegaram à final da Copa do Brasil que somos os melhores técnicos do Brasil. Mas é verdade que, junto com nossos grupos, chegamos com méritos até aqui.

MR: Poucos técnicos disputaram tantas decisões como você nos últimos anos. Na minha opinião, esse é o pior Grêmio que você teve nas mãos. Também acho que não foi o melhor trabalho que você já fez. Convença-me que você será campeão hoje (para tal precisa reverter fora de casa a vantagem palmeirense).

RP: A gente trabalha para isso. Não digo mal acostumada, mas a nossa torcida ficou bem acostumada com o que Grêmio fez nos últimos anos, jogando um futebol que encantava o Brasil todo. É difícil manter isso por 5 anos. Vejo muitos jogos de grandes equipes da Europa que também não estão jogando a mesma coisa. É uma coisa natural. Até porque o Grêmio é um clube que chega em todas as competições, mesmo sendo um clube que não investe alto, que tem sempre os pés no chão... A gente revela muitos jogadores e, quando eles aparecem, o Grêmio vende. Tenho no grupo atual três jogadores daquele time super vencedor de 2016/17: Geromel, Kanneman e o Maicon. De quatro anos atrás, são muitas mudanças. E mesmo assim, chegamos em todas as competições. Para quem não investe muito, é um clube que faz muito pelo futebol. Voltando à sua pergunta sobre te convencer de que o Grêmio será campeão, a gente trabalha para isso. Sei que o Abel (Ferreira) também trabalha. Mas estou bastante confiante. Bastante confiante.

MR: Seu adversário de hoje tem situação bem diferente. Com dinheiro e investimento, o Palmeiras ganhou muitos títulos nos últimos anos. Nesta temporada já ganhou a Libertadores. O Palmeiras é o melhor time do Brasil?

RP: Eu destaco três grandes planteis: Flamengo, Palmeiras e Atlético. Também destaco o meu grupo, apesar de a gente não estar jogando o futebol que encantou o Brasil ultimamente. Mas eu gosto muito do meu Grêmio. Quais são as vantagens dos três grupos que eu falei? É a vantagem de você ter R$ 1 mil e não R$100 para fazer compras no mercado. Quando você investe para ter um grupo forte, você aumenta muitos suas chances de conquistar um campeonato. Foi o que o Palmeiras fez. Foi o que o Flamengo. Investiram e ganharam. Tenho promessa do presidente Romildo Bolzan de reforçar o time para essa temporada. Sei que é difícil. O Grêmio não tem ninguém que coloque dinheiro. O Grêmio não receberia nada de arrecadação, mesmo que tivesse torcida. E ainda assim o clube sobrevive... O Grêmio precisa revelar jogador para fazer dinheiro. Mas não dá para comparar ou competir com os outros orçamentos.

MR: A gente assiste um movimento constante da vinda de técnicos estrangeiros para Brasil - às vezes, inclusive, só pelo passaporte, não pelo currículo. Por que não existe o caminho inverso: qual o bloqueio que existe para que os brasileiros sejam pretendidos no exterior?

RP: É até difícil responder essa pergunta. A gente vê um trabalho muito intenso (de empresários e agentes) principalmente para os técnicos argentinos. O pessoal não trabalha muito os técnicos brasileiros lá fora. Até porque não tivemos muitos brasileiros fazendo sucesso lá. Foram poucas oportunidades... Com mais chances, de repente o técnico brasileiro fosse mais bem visto. Falo isso não por mim: eu não tenho essa pretensão.

MR: Aproveito esse gancho para perguntar qual a sua pretensão depois desse último ano de contrato com o Grêmio. Seleção?

RP: Vamos receber reforços, vamos tentar revelar jogadores e ganhar mais títulos aqui. Mas será difícil eu continuar no Grêmio. Vou completar 5 anos. É muito tempo! Acredito que vou terminar essa temporada e depois vou ver. Sonho alto. Todo treinador tem que pensar em Seleção. Lógico que eu respeito o Tite, acho que ele é grande treinador, mas, como ele teve um dia oportunidade dele, eu quero ter a minha. Todo treinador que se garante tem que ter esse sonho na cabeça. Acho que só não pensa em Seleção quem não confia em si próprio. E eu confio no meu trabalho. Se um dia surgir essa oportunidade, é um sonho que eu vou realizar.

MR: Antes tem a final da Copa do Brasil. Boa sorte!

RP: Obrigado. Estou confiante!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL