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Julio Gomes

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Herói, técnico da Armênia 'inventou' Júlio Baptista e revelou Sergio Ramos

Caparrós (Foto: Getty Images) -
Caparrós (Foto: Getty Images)
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

01/04/2021 05h15

O mês de março não era nada bom para o esporte armênio. Havia começado com uma notícia impactante: o Grande Mestre de xadrez Levon Aronian anunciava a decisão de abandonar o país e ir viver em St Louis, representando os EUA em competições internacionais. Considerado um dos cinco melhores jogadores do mundo na atualidade, Aronian, 38, era um herói nacional. E se foi.

Mas nada como um dia atrás do outro. Em um outro esporte, que nada tem a ver com o xadrez e em que a Armênia não tem tradição alguma, chegam alegrias inesperadas. O tal do futebol. Sai Aronian. Entra em cena Joaquin Caparrós, nascido em Utrera, região de Sevilha, 65 anos atrás - quando a Armênia não era um país independente e, sim, uma das repúblicas socialistas soviéticas.

O homem que revelou Sergio Ramos, um dos zagueiros mais importantes da história do Real Madrid. Que confiou logo de cara em um jovem tímido que chegava da Bahia chamado Daniel Alves. E que "inventou" a "Bestia", o Júlio Baptista goleador, que acabaria até na seleção brasileira.

Se uma pessoa resolvesse pegar um carro para ir de Sevilha a Ierevan, a capital armênia, iria dirigir três dias sem parar e percorrer mais de 5600 km. É claro que Caparrós fez o trajeto de avião. Foi em 17 de março do ano passado, quando estávamos todos assustados, nos trancando em casa. O técnico foi a Ierevan, assinou contrato, ficou apenas quatro dias e voltou correndo para a Espanha, para não acabar "preso" na pandemia em um país até então desconhecido. "Já veremos o que vai acontecer", disse, em uma entrevista naquele dia.

Mas, sobre Caparrós e o que ele fez no Sevilla, falarei mais logo logo. Antes, precisamos entender por que, afinal, estamos aqui escrevendo sobre este pequeno e distante país.

De uma semana para cá, a Armênia se transformou na grande história das eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 2022. Começou a caminhada com três vitórias em três jogos, sobre Liechtenstein (1 a 0), Islândia (2 a 0) e Romênia (3 a 2). Lidera o grupo J com nove pontos, à frente de uma certa Alemanha. O campeão do grupo vai para a Copa, coisa que a Armênia nunca passou nem perto de fazer. O segundo colocado ainda poderá sonhar com a vaga na repescagem. Islândia e Romênia eram as favoritas para a segunda posição, mas ambas caíram derrotadas em Ierevan.

Pelo menos até setembro, quando as eliminatórias seguirão, a Armênia aparecerá ali mesmo, no topo da tabela. Um motivo para sorrir em um país que seis meses atrás vivia um princípio de guerra com o vizinho Azerbaijão pelo controle da contestada região fronteiriça de Nagorno-Karabakh.

É um país triste e em guerra em que começa a trabalhar Caparrós. O futebol internacional volta em setembro de 2020 com a disputa da Uefa Nations League. A Armênia está na terceira divisão, a Liga C. Em seis jogos, ganha três, empata dois e perde um. O jogo decisivo, contra a Macedônia do Norte, é disputado em novembro, no Chipre, logo após o cessar fogo.

Hovhannes Hambartsumyan é o nome do novo herói nacional. Jogador do Anorthosis, do Chipre, é ele quem faz o gol da vitória por 1 a 0. A Armênia ganha o grupo e sobe para a Liga B, ou seja, a "segunda divisão" da Nations League. A Macedônia do Norte, que jogará a próxima Euro e que ontem ganhou da Alemanha, em teoria um time melhor que o da Armênia, ficou pelo caminho.

Os jogadores armênios explodem em alegria. E, no vazio campo neutro do Chipre, ouve-se um grito forte. "Que ponham o hino da Armênia! Que ponham o hino da Armênia, porra!", gritava Joaquín Caparrós, num misto de entusiasmo e indignação. A cena correu o país, e o estrangeiro Caparrós ganhou imediatamente status de "herói de guerra".

Sucesso na Liga das Nações e, agora, um começo espetacular nas eliminatórias e que dá esperança aos armênios, que nunca jogaram uma Copa. São seis vitórias em nove partidas. Mas, afinal, quem é este tal de Caparrós?

Um jogador frustrado, Caparrós iniciou a carreira de treinador aos 26 anos. Mas apareceu para a Espanha de fato no ano 2000, quando foi apontado técnico do Sevilla. Ali, duas décadas atrás, começou a ser forjado o Sevilla que fez parte de tantas manchetes, que levantou tantos troféus e revelou tanta gente importante no futebol europeu.

Logo depois de Caparrós, um jogador que havia acabado de se aposentar, Ramón Rodríguez Verdejo, mais conhecido como Monchi, foi apontado como diretor de futebol do clube. Juntos, Monchi e Caparrós foram buscar jogadores como Daniel Alves, Júlio Baptista, Luis Fabiano, Renato, Adriano.

E revelaram um certo Sergio Ramos, que vinha se destacando na base e ganhou, com Caparrós, a titularidade do Sevilla ainda aos 17 anos de idade.

Caparrós "inventou" o artilheiro Júlio Baptista, que havia chegado do São Paulo como um volante. Ele acabaria virando peça da seleção brasileira e vendido ao Real Madrid, em 2005, por 20 milhões de euros. Na mesma janela de transferências, Sergio Ramos seria vendido por 27 milhões.

Daniel Alves chegou um pouco antes, em 2002, e saiu do Sevilla um pouco depois, em 2008, vendido por 34 milhões ao Barcelona. O blog entrou em contato com o atual jogador do São Paulo para falar do sucesso de Caparrós na Armênia. E Daniel Alves citou o que ele considera a grande virtude do primeiro técnico que ele teve na Europa.

"Já vivi de perto esse poder do Joaquín de retirar dos atletas o seu melhor, então não é surpresa que esteja obtendo grandes resultados!", falou.

Curiosamente, foi após a saída de Caparrós, cinco temporadas depois, que o Sevilla deslanchou. Juande Ramos assumiu o time em 2005 e começaram a pingar títulos de Copa da Uefa e Copa do Rei. Na Espanha, era senso comum que a competitividade trazida ao clube por Caparrós, um técnico duro, mas muito expansivo e intenso, havia preparado o terreno para que o Sevilla explodisse.

O clube andaluz é o maior campeão da Europa League (novo nome da Copa da Uefa), com seis títulos: 2006, 07, 14, 15, 16 e o último, em 2020. Ganhou Copa do Rei em 2007 e 2010, uma Supercopa europeia e outra espanhola. Tão importante quanto, passou a frequentar sempre a Champions League. Mudou de patamar, enfim.

Monchi saiu para a Roma em 2017, mas voltou ao Sevilla em 2019. Caparrós ficou dois anos no La Coruña, depois mais quatro no Athletic Bilbao (chegou a uma final de Copa do Rei) e, a partir de 2011, pingou por uma porção de clubes e países. Voltou ao Sevilla em 2018 e ajudou o clube duas vezes como técnico "tampão". Com a volta de Monchi, Caparrós foi apontado como diretor de desenvolvimento de novos talentos.

Houve outro fator para a mudança: dois anos atrás, Caparrós descobriu que sofria de uma leucemia crônica. A doença está controlada e não requer tratamento. "Descobrimos a tempo. Estou feliz e pronto para muitas guerras", disse o treinador, após a notícia vir a público - e sem saber o que profetizava.

Ele não aguentou nem um ano dentro dos escritórios. A vida de Caparrós é estar no banco de reservas. E, em março do ano passado, ele aceitou assumir a Armênia.

"Foi uma experiência complicada. Primeiro, o Covid, depois, a guerra", contou em entrevista ao Goal após o êxito na Nations League. "Havia garotos com família e amigos morrendo na guerra e, logo após receberem a notícia, iam para o treino. Tínhamos que falar com eles individualmente e havia ainda o problema do idioma. Nos colocamos no lugar deles, choramos juntos. Notei que a linguagem não verbal ajuda mais que a verbal. Com gestos, mostramos que nos sentíamos como eles. Conseguimos convencê-los de que tinham a chance de fazer seu povo feliz, o país inteiro".

"Éramos o centro de um país triste e conseguimos dar alegria para as pessoas", falou Caparrós à TV Antena 3.

O filho do treinador, então, foi contaminado pelo coronavírus quando visitava o pai. "Situação muito complicada, os hospitais estavam cheios por causa da guerra", lembra. Mas tudo ficou bem.

Passada a guerra e o triunfo na Nations League, controlada a pandemia, chegou a hora de conhecer, de fato, o país. "Aqui as batatas são batatas de verdade!", fala, com a ênfase típica dos andaluzes. "Legumes espetaculares, muito bom vinho", segue. "Este é um país de gente muito boa e que ama o futebol".

O próximo passo? Em setembro, jogos cruciais contra a Macedônia do Norte e a Alemanha. A caminhada rumo à Copa do Mundo parece longa demais, quase impossível para um país como a Armênia. Mas, para quem viveu tudo o que Caparrós e os armênios viveram, sonhar é mais do que um direito: é um dever.

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