Comunidade transforma 'lixão' em horta e reduz efeitos de mudança climática

Uma área em Recife cheia de lixo, onde havia escombros de uma fábrica de postes, hoje tem coqueiro, pé de maracujá e de acerola, bananeira e jurema preta, árvore que atinge cerca de sete metros, com uma copa grande e florida.

Do solo que exalava cheiro de chorume, agora brotam batata-doce, macaxeira (mandioca), abóbora, alface e outros vegetais que reforçam a alimentação de 1.200 famílias da Comunidade Caranguejo Tabaiares, no bairro do Bongi, Zona Oeste da capital de Pernambuco.

O calor intenso por causa do chão de concreto —que reflete a luz do sol— e o medo da chuva que causava enchentes e a proliferação de mosquito também não existem mais. Agora, a temperatura ali é mais amena e a água que cai do céu rega a terra em que a vegetação (e a comida) nasce.

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Imagem: Arquivo/Horta Semeando Resistência

O pontapé inicial para toda essa transformação foi dado por um projeto do Instituto Escolhas. O estudo mapeou 400 hectares de áreas abandonadas no Recife com potencial de serem ocupadas com cultivos alimentares e demonstrou como a agricultura urbana pode ajudar a combater a fome e reduzir os efeitos das mudanças climáticas.

As famílias da Comunidade Caranguejo Tabaiares então se uniram para transformar a área de descarte de lixo na Horta Comunitária Semeando Resistência.

"O local gerava sérios transtornos para os moradores, como enchentes. Também sofríamos com problemas de incêndio, já que as pessoas queimavam o lixo e o fogo se espalhava", lembra Sarah Marques, coordenadora da horta comunitária.

Bananas cultivadas na horta da Comunidade Caranguejo Tabaiares
Bananas cultivadas na horta da Comunidade Caranguejo Tabaiares Imagem: Arquivo/ Horta Semeando Resistência

Para recuperar a capacidade produtiva do solo contaminado, foi necessário adotar uma série de medidas. "Fizemos mutirões para limpar o local e revirar a terra, pedimos triturado [um tipo de mistura nutritiva para o solo] na prefeitura, retiramos terra do mangue para adubar a área etc.", explica.

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Mais verde, menos problemas

Sarah garante que todo o esforço dos moradores para dar vida ao terreno valeu a pena. "Hoje, a temperatura é mais amena. Se antes havia risco para as crianças estarem perto por causa dos mosquitos e do mau cheiro, agora é agradável. A biodiversidade melhorou, hoje tem camaleão, centopeia", comemora.

A gerente de portfólio do Instituto Escolhas, Jaqueline Ferreira, explica que a horta contribuiu para minimizar os efeitos da mudança climática e amenizar o calor na comunidade devido à renovação do ar que as árvores promovem, além das sombras que produzem. "Locais onde há mais concreto do que vegetação são mais quentes porque o concreto espelha a luz do sol", conclui

Produção agroflorestal extrativista no bairro Guabiraba, no Recife, mapeada no estudo do Instituto Escolhas
Produção agroflorestal extrativista no bairro Guabiraba, no Recife, mapeada no estudo do Instituto Escolhas Imagem: Acervo Instituto Escolhas/ Ecorural, 2023

A área verde ainda permite que água da chuva seja absorvida pelo solo, evitando alagamentos. Em áreas de morro e encostas, a vegetação também é uma alternativa para reduzir os deslizamentos que, de forma recorrente, deixam pessoas desabrigadas e chegam a causar mortes no Recife e em vários lugares do Brasil.

Por tudo isso, Jaqueline Ferreira ressalta a importância de gestores municipais atentarem-se para os benefícios ambientais que a agricultura urbana oferece. "Os gestores devem fazer o mapeamento das áreas subutilizadas ou abandonadas e, especialmente, realizar a cobertura vegetal."

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Segundo a gerente de projetos do Instituto Escolhas, se a produção de alimentos proveniente da agricultura urbana for inserida no comércio local, pode contribuir para reduzir as emissões de gás carbônico que impactam o meio ambiente. "Isso dispensaria a compra de alimentos que dependem de grandes deslocamentos feitos por caminhões que consomem óleo diesel, um combustível de origem fóssil."

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