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Padre Julio publica foto de criança vítima da Aids: 'ainda choro'; ajude

Fabiana, vítima da Aids, foi acolhida por projeto pioneiro no resgate a crianças e adolescentes com HIV - Arquivo pessoal/Padre Júlio Lancellotti
Fabiana, vítima da Aids, foi acolhida por projeto pioneiro no resgate a crianças e adolescentes com HIV Imagem: Arquivo pessoal/Padre Júlio Lancellotti

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

29/05/2021 06h00

Nesta quinta (27), o padre Julio Lancellotti publicou uma fotografia em memória de uma menina de 6 anos chamada Fabiana Maria. Ela foi vítima da Aids, em 1995, e o padre a considerava como filha. "Até hoje guardo os óculos que ela usava", afirma o padre para Ecoa.

Fabiana fez parte de uma ação pioneira no tratamento ao HIV no país. A Casa Vida, fundada em 1991 por padre Julio, funciona até hoje em São Paulo e abriga crianças e adolescentes que precisam de tratamento médico — é possível doar para ajudar crianças como Fabiana.

A menina foi uma das primeiras crianças abrigadas pela Casa Vida a morrer devido à Aids. No início do projeto, o comum eram as mortes de bebês com pouco tempo de vida. "Nos primeiros meses de projeto, um bebê morria por mês", diz o padre para Ecoa. "Eu não sabia se iria aguentar mais mortes", acrescenta. Mas Fabiana viveu até os seis anos.

De início, era muito chorona, manhosa, e bastante magra. Ela e o irmão eram soropositivos e passaram de mão em mão na família até a Justiça determinar o envio da dupla ao novo projeto encabeçado por Julio. (Mais tarde, a mãe também faleceu vítima de HIV). Com o tempo, Fabiana ganhou peso, foi para escola e começou a se desenvolver.

Início do projeto

A Casa Vida surgiu após uma visita do padre a uma unidade da Febem na capital paulista. "Os adolescentes com HIV eram segregados", lembra. O outro estímulo foram projetos de lei em Brasília para direito ao aborto a mães soropositivas, embora nos inícios dos anos 90 ainda não se soubesse se os filhos seriam infectados pelo vírus durante toda a vida. "Diziam que seria uma 'casa da morte', e por isso escolhemos o nome 'Casa Vida'".

A doença permaneceu em Fabiana. Segundo o padre, na época não havia coquetéis de medicamento para tratá-la. Mesmo assim, ela crescia. Com o tempo, se enturmou com os colegas. Uma das melhores colegas era Mislene, companheira de passeios pelas ruas da região leste de São Paulo.

Fabiana usava óculos de hastes grossas e os guardava dentro de uma caixinha junto a uma corrente dada pelo padre. Tinha opiniões fortes e quando passava por tratamentos, os médicos precisavam redobrar os pedidos de permissão para deixar ser analisada. Aos domingos, acompanhava o padre nas missas e foi batizada. As crianças eram chamadas de filhas por Julio.

Como ajudar o projeto

No início, a Casa Vida foi custeada por doações de pessoas e grupos de solidariedade. "Quando compramos a sede, vizinhos chegaram a entrar na Justiça para impedi-la", relembra o padre.

A partir dos anos 2000, com a queda no índice de infectados, com mais medicamentos contra o HIV e exames de detecção mais eficientes durante o pré-natal, a casa passou a ter menos crianças soropositivas atendidas. Assim, ampliou o atendimento.

Padre Júlio e primeiras crianças atendidas pelo projeto Casa Vida; Fabiana está sentada ao pé da escada. A amiga Mislene no colo do padre - Arquivo pessoal/padre Julio Lancellotti - Arquivo pessoal/padre Julio Lancellotti
Padre Júlio e primeiras crianças atendidas pelo projeto Casa Vida; Fabiana está sentada ao pé da escada. A amiga Mislene no colo do padre
Imagem: Arquivo pessoal/padre Julio Lancellotti

Hoje, a Casa Vida trata e abriga crianças e adolescentes com outras doenças além do HIV que são vítimas de maus tratos ou abandono. Elas são enviadas ao local pela Justiça quando conselheiros tutelares identificam uma doença que precisa de tratamento. Atualmente, a instituição tem 15 abrigados à espera de entrarem no sistema de adoção ou retornarem para algum membro da família.

O serviço é mantido pela Associação Nossa Senhora do Bom Parto e foi coordenado pelo padre Julio Lancellotti. As doações podem ser feitas por meio site.

Após morte, padre escreveu carta

Padre Julio se emociona até hoje ao falar de Fabiana. "Ela me marcou muito", diz. Aos seis anos, a menina foi ficando cada vez mais fraca e tinha dificuldade para comer. A doença atingiu o sistema imunológico e causou anemia e inflamação. O irmão de Fabiana cresceu e se mudou para outro estado.

O padre guarda as fotografias de Fabiana e emoldurou uma delas. Quando ela morreu, no dia 27 de maio de 1995, ele escreveu um poema. "A brilhar me faz sonhar que um dia, não tão longe, eu de novo vou te encontrar", dizem os versos. "Ainda hoje, quando leio, eu choro de novo", conclui.

Como ajudar

Centro Social Bompar (Nossa Senhora do Bom Parto)
Doações a partir de R$ 20 mês por meio do site.
Tel.: (11) 2696-3200
E-mail: bompar@bompar.org.br

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