PUBLICIDADE
Topo

Como São Paulo eliminou a transmissão de HIV de mãe para filho

Carolina Vila-Nova

Colaboração para Ecoa

21/12/2019 00h04

Fernanda Costa*, 30, fazia o pré-natal quando descobriu ser soropositiva. Era abril de 2015, dia de seu aniversário, e ela entrava no segundo trimestre de gestação. Três meses antes, Fernanda havia feito um primeiro exame — com resultado negativo — para detectar HIV e sífilis. A mudança de diagnóstico provocou incredulidade. Ela não mantinha outros parceiros sexuais além do marido.

A contraprova confirmou o resultado, e Fernanda foi encaminhada a um hospital na zona leste de São Paulo para iniciar imediatamente o tratamento com coquetel. "O médico que conversou comigo me acolheu muito bem. Se não tivesse tido esse acompanhamento, acho que teria feito besteira", afirma. "Quando se descobre uma coisa assim, a gente acha que a vida acabou e que vai morrer um dia depois", completa.

Mãe e filho  - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
O exame de HIV é feito a cada três meses a partir do momento em a mulher procura o posto de saúde
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Apesar de ter convivido com pessoas com HIV (sua mãe, já falecida, era portadora), Fernanda não sabia que a filha poderia nascer sem o vírus. "Tinha um relacionamento, só ficava com ele, então nunca achei que fosse acontecer comigo", relembra. "Eu só pensava que não queria que a minha filha tivesse [o vírus]."

Isabela nasceu prematura, na 30ª semana de gestação. Só depois do parto por cesárea é que a mãe descobriu que sua carga viral estava indetectável. O bebê foi submetido a um tratamento com o antirretroviral AZT e teve acompanhamento por um ano e meio com um infecto-pediatra. A criança, hoje com 4 anos, não tem o vírus.

O final feliz na gravidez de Fernanda é resultado de uma política pública adotada pela Prefeitura de São Paulo em 1996, que se intensificou a partir de 2002 e ganhou novo impulso em 2007, com a adoção de um protocolo de ações para combater a transmissão vertical — de mãe para filho — pelo HIV.

Em 2019, esse esforço valeu a certificação concedida pelo Ministério Público de Saúde à cidade de São Paulo de eliminação total desse tipo de contaminação. "O interessante dessa certificação é mostrar que você ter uma política de Estado para o SUS dá resultado", disse o médico Robinson Fernandes de Camargo, coordenador da área de assistência do programa de DST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde.

"É uma notícia muito legal, mas que mostra que as ações têm de ser perenes, principalmente em uma cidade como São Paulo, que é enorme e bastante complexa. Não é algo que acontece do dia para a noite", afirma Camargo.

Em essência, o protocolo prevê uma intervenção rápida junto à mulher gestante com HIV para deixar sua carga viral indetectável. Para isso, é preciso ações de profilaxia antes, durante e depois do parto, para a proteção da criança. O ideal é que a mulher inicie o pré-natal antes do terceiro mês de gestação, período em que são realizados exames rápidos de sorologia de sífilis e HIV. O resultado sai em cerca de 20 minutos.

"O bebê exposto ao vírus tem maior probabilidade de óbito. E se ele cresce, é com malformações. Quanto mais cedo a mãe entrar em tratamento, a probabilidade de que essas repercussões ocorram é muito menor", afirma Sônia Raquel Wippich Coelho, coordenadora da área técnica da Saúde da Mulher da Secretaria Municipal da Saúde.

O pré-parto, parto e pós-parto

Sônia Raquel Wippich Coelho, coordenadora da área técnica da Saúde da Mulher da Secretaria Municipal da Saúde - SMS/Divulgação - SMS/Divulgação
Sônia Raquel Wippich Coelho, coordenadora da área técnica da Saúde da Mulher da Secretaria Municipal da Saúde
Imagem: SMS/Divulgação
A capital paulista faz pré-natal de 97% das grávidas, o que representa entre 120 mil e 130 mil gestantes por ano (do universo de mulheres dependentes do SUS). A meta estabelecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) é de 95%. O exame de HIV é feito a cada três meses a partir do momento em que a mulher procura o posto de saúde e começa o pré-natal.

São detectadas, por ano, entre 400 e 420 mulheres gestantes HIV positivas, segundo Camargo. Elas são encaminhadas para a rede de atendimento especializado e devem cumprir uma meta de pelo menos sete consultas durante a gravidez, além de realizar ultrassons e outros exames.

Um teste rápido, feito na maternidade, determina se a gestante pode ou não ter parto normal sem risco de contaminação para o bebê. Se ela tiver acima de 1.000 cópias de vírus por ml, é indicado cesárea. No momento do parto, a mulher recebe AZT injetável, enquanto o bebê toma AZT xarope durante 30 dias após o nascimento.

Ainda no hospital, a mãe faz uso do medicamento cabergolina para interromper a lactação devido ao risco de contaminação, como foi o caso de Fernanda. "Foi a parte mais difícil. Muitas pessoas ficavam questionando: 'Por que você não amamenta sua filha? Nossa, mas ela nasceu prematura, precisa do seu leite'", conta. A família de Fernanda nunca soube de seu diagnóstico. Como parte do protocolo, ela recebeu uma fórmula láctea por um ano.

Após deixar ao hospital, a criança é acompanhada durante dois anos pelo Serviço de Atendimento Especializado. A mãe tem a opção de sair com um DIU (dispositivo intrauterino) já inserido.

O exame durante o pré-natal

"É muito importante estimular que as mulheres façam frequentemente a testagem para o HIV. Porque hoje temos medicamentos extremamente potentes, com baixíssimos efeitos colaterais, e em dois meses de uso a carga viral fica zerada", afirma o médico.

Segundo Camargo, antes da adoção do protocolo de ações para combater a transmissão vertical, 30% dos filhos de mães com HIV ficavam positivos.

*Nome alterado a pedido da entrevistada