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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil: o país da barriga vazia

Honório Moreira/Folhapress
Imagem: Honório Moreira/Folhapress

Mariana Belmont

18/03/2021 04h00

Algumas semanas atrás, dediquei uma coluna para tentar descrever e dar forma ao sentimento e sensações físicas da fome. A verdade é que a fome voltou pro mapa e pra pauta da imprensa. São dezenas de artigos, análises, reportagens. Inclusive, nesta semana, o jornalista Eduardo Carvalho escreveu sobre isso em sua coluna aqui em Ecoa.

Talvez eu seja repetitiva, mas no estado de calamidade que o Brasil se encontra hoje, é necessário repetir (ou precisa desenhar?) que as pessoas estão sem arroz, sem feijão e, em muitos casos, sem água para beber ou lavar as mãos.

Nessa semana, numa reportagem do Jornal Nacional, um senhor de mais ou menos 50 anos, negro, contou sua história: consegue comer somente durante a semana, porque vai até um centro comunitário pegar a marmita que distribuem. Aos finais de semana, as refeições se resumem a um café puro, "porque era o que tinha". A fome no Brasil, queridos leitores, tem forma e cor - é direcionada à maior parte da população brasileira, a população negra.

Na última semana, assistimos apáticos os mais pobres serem atropelados pela "passagem da boiada" e terem suas demandas negligenciadas pela farsa da PEC Emergencial. Pergunto, emergencial para quem? Será que os deputados que votaram a favor vivem com R$ 150 reais por mês?

A Paola Carvalho, diretora de Relações Institucionais da Rede Brasileira de Renda Básica, uma das organizações que participa da campanha pela extensão do auxílio emergencial até o final da pandemia, foi ao supermercado em Porto Alegre (RS), no início de março, enquanto a PEC era discutida, para checar o que é possível comprar com esse dinheiro.

O resultado do experimento? R$ 254,48 gastos para adquirir apenas 2 caixas de leite, 5 quilos de arroz, 2 pacotes de pães, 2 quilos de café, 2 garrafas de óleo, 3 quilos de feijão, 3 quilos de farinha, 3 quilos de açúcar, 1 pote de margarina e 2 quilos de carne moída de segunda. "Legumes, verduras e frutas ficaram fora da lista. Lembrando que para cozinhar, é necessário gás, e um botijão, hoje, não custa menos de 90 reais". Caso queira ver, o vídeo do experimento está disponível aqui.

Tem gente com FOME!

Com a piora dos casos do coronavírus no país, mais de 284 mil mortes, ultrapassando 11 milhões de infectados e as consequências da pandemia atingindo cada vez mais a população negra e periférica, a questão da fome se tornou emergencial. São mais de 39 milhões de pessoas vivendo na miséria, 14 milhões em situação de extrema pobreza e 14 milhões desempregadas, segundo os dados de 2020 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.

Diante de tamanha urgência, na última terça (16), a Coalizão Negra por Direitos lançou, em parceria com outras organizações e movimentos, a campanha "Tem gente com fome" - uma mobilização nacional de arrecadação de fundos para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia de covid-19. A campanha tem o objetivo principal de arrecadar dinheiro para a compra e a distribuição de alimentos e cestas básicas para mais de 222.895 famílias mapeadas pelas organizações e redes que coordenam a ação. O site para doações é o temgentecomfome.com.br e pode receber contribuições de qualquer valor, mesmo.

Doe agora!

Todas as doações recebidas serão revertidas em compra e distribuição de alimentos, produtos de higiene e de limpeza. Por meio da ação permanente nos territórios onde as organizações da Coalizão Negra atuam, a ideia é também estimular a formação de mutirões de solidariedade, ou seja, grupos de pessoas dispostas a (1) atuar na entrega das cestas básicas, de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e material de higiene; (2) na organização e acompanhamento das famílias para locomoção de idosos para vacinação; (3) na mobilização para defesa e conscientização sobre lockdown; e (4) na mobilização para incidência política local junto aos poderes constituídos, poderes públicos e instituições locais.

A finalidade da campanha "Tem Gente Com Fome" e do programa permanente realizado pela Coalizão é alcançar os mais diversos setores da sociedade brasileira capazes de colaborar com a manutenção de condições mínimas de saúde e alimentação de pessoas em situação de vulnerabilidade. E veja, não se trata de um trabalho de distribuição aleatória de cestas básicas, mas sim do apoio a territórios onde há trabalho de base, onde há mobilização de luta por direitos humanos, onde há lideranças organizadas e articuladas em redes de lutas sociais em todo o país.

Garantir apoio para esse universo significa fortalecer o trabalho no campo dos direitos humanos, da organização popular, do movimento negro e de favelas; significa alimentar de condições e esperança as iniciativas coletivas e comunitárias, e as lideranças locais, contingente de defensores de direitos sociais disposto a nos ajudar a atravessar esse momento tão difícil que vivemos no Brasil.

A campanha pela extensão do auxílio emergencial também continua - nas redes e nas ruas, nas articulações e continuar provando ao governo federal que o valor proposto como auxílio emergencial é insuficiente para manter uma família com condições minimamente dignas. Pelas principais capitais do país, cidades, serão espalhados lambes, ilustrações e projeções para chamar a atenção para o agravamento da fome e da miséria no Brasil.

É preciso estar atento e forte. Quem tem fome tem pressa.

"Tantas caras tristes querendo chegar em algum destino, em algum lugar. Se tem gente com fome, dá de comer", diz um trecho.

Em tempo. Enquanto essa coluna era fechada, o Brasil registrou mais 2.648 mortes e 90.303 casos do novo coronavírus no último período de 24 horas, elevando os números totais de vítimas e infectados para 284.775 e 11.693.838.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL