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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dose única de vacina de HPV pode solucionar a baixa cobertura no Brasil

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

13/05/2022 04h00

O HPV (Papilomavírus Humano) é um dos vírus que com maior alcance conseguiu se disseminar entre os seres humanos. Transmitido na maior parte das vezes por via sexual, estima-se que até os 45 anos de idade, 80% da população sexualmente ativa terá, em algum momento de sua vida, se infectado com ele.

Na enorme maior parte das vezes, uma infecção por HPV é eliminada pelo sistema imune sem causar nenhum sintoma. Nas poucas vezes em que isso não acontece, o HPV pode provocar o surgimento de verrugas genitais e, no pior dos cenários, diversos tipos de câncer, como de colo de útero, pênis, vulva, ânus, boca e garganta.

Por causar infecções sem qualquer sintoma e por se transmitir por meio do atrito entre peles, o HPV é sabidamente uma das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) que circula até entre as pessoas que usam o preservativo de forma consistente. Afinal, a camisinha não cobre toda a superfície corpórea de um indivíduo.

Só com a recomendação do uso da camisinha, o HPV se espalhou pela população brasileira, e um dos resultados disso, segundo o Global Cancer Observatory da OMS (Organização Mundial da Saúde), são os mais de 17 mil casos de câncer de colo do útero diagnosticados todos os anos no país.

Felizmente, além da camisinha também dispomos na prevenção do HPV as vacinas, que agem ajudando o sistema imune na eliminação viral depois que ocorre uma infecção. Por eliminar o vírus do corpo das pessoas, a vacina promove também, de forma bastante eficaz, a redução na incidência dos cânceres relacionados ao HPV. Isso é o que podemos chamar de uma verdadeira vacina contra o câncer.

A máxima proteção vacinal é obtida quando as doses são aplicadas antes de uma infecção por HPV ocorrer na vida de uma pessoa. Assim, a vacinação é disponibilizada gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde) tanto para meninos quanto para meninas com menos de 15 anos de idade.

Isso significa então que dentro de alguns anos o Brasil terá erradicado todos os casos de câncer causados pelo HPV? Infelizmente, não. E o principal motivo para esse anticlímax é a dificuldade que encontramos para alcançar uma boa cobertura vacinal de crianças e jovens.

Segundo dados divulgados em relatório da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), desde 2013, quando a vacina contra HPV foi introduzida ao PNI (Programa Nacional de Imunizações), a meta de cobertura vacinal mínima de 80% só foi atingida pela primeira dose entre as meninas (83,4%). Para a segunda dose, no entanto, ela já cai para 55,6%. Entre os meninos, o cenário é ainda mais preocupante, com coberturas de 57,9% e 36,4% para a primeira e segunda dose, respectivamente.

Seria completamente irreal imaginar que conseguiremos obter qualquer redução satisfatória nos casos de câncer causados pelo HPV se não completamos a vacinação em nem 4 em cada 10 meninos no Brasil. Isso se torna uma missão ainda mais impossível devido ao crescimento no país do discurso negacionista antivacina, que dissemina informações falsas sobre efeitos colaterais causados pelas vacinas.

Uma notícia, no entanto, que veio quase como um alento na última semana foi a mudança nas recomendações da OMS sobre a vacinação contra HPV. Um grupo de especialistas em imunização do órgão revisou uma série de novos resultados de ensaios clínicos publicados nos últimos anos e concluiu que, em crianças, a vacinação incompleta, com apenas uma dose, já é capaz de induzir uma proteção contra o HPV comparável ao esquema completo.

Com essa mudança, um mesmo lote de doses de vacina poderá imunizar o dobro de crianças, o que é especialmente interessante nos países mais pobres, justamente os mais acometidos pelos cânceres relacionados ao HPV.

Por enquanto, no Brasil as recomendações ainda não mudaram. Continuamos aplicando 2 doses para meninos e meninas de até 14 anos, e 3 doses para imunossuprimidos com idades de até 26 anos para homens e até 45 anos para mulheres.

Enquanto o Ministério da Saúde não atualiza as recomendações para vacinas contra HPV, precisamos desde já trabalhar a resistência dos pais à vacinação dos seus filhos, convencendo-os que o benefício será visto apenas em longo prazo. E que, quando crescerem, esses filhos certamente os agradecerão por terem sido vacinados na época certa.