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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A importância da notificação dos casos em uma pandemia

Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo
Imagem: Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo
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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

07/01/2022 04h00

Feliz ano novo! 2022 chegou, e com ele a tosse, a dor de garganta, a febre e a dor muscular no corpo inteiro. Pois é, nessa virada de ano a covid-19 me pegou. E pelo que estou percebendo, no meu entorno de parentes, amigos e pacientes, ela pegou muita gente.

Como bom médico infectologista que sou, tenho conhecimento em epidemiologia e sei que uma explosão de casos no meu círculo pessoal não necessariamente corresponde à realidade populacional. Assim, fui atrás dos dados oficiais de casos diários de covid-19 e para a minha surpresa eles informam que, enquanto em diversas partes do mundo o número de casos da doença está aumentando de forma inédita, aqui no Brasil eles não param de cair.

Eu poderia até ficar feliz com essa informação, se não soubesse que na verdade estamos vivendo um apagão de dados de notificação de covid-19 no país depois que o Sivep (Sistema de Vigilância Epidemiológica) do Ministério da Saúde sofreu um ataque cibernético, no início de dezembro de 2021. Desde então, simplesmente não sabemos no país qual é o número real de pessoas que se infectaram ou internaram devido à covid-19, e nem quantas foram vacinadas contra o coronavírus.

A vigilância epidemiológica é responsável por dimensionar e identificar as tendências de uma epidemia. O número de casos de uma doença que ocorreram dentro de uma população num determinado período de tempo, quantos deles necessitaram de internação hospitalar e quantos evoluíram a óbito, é o mínimo que um gestor de saúde precisa ter nas mãos para poder tomar uma decisão acertada diante dessa epidemia, seja ela cancelar o Carnaval ou mesmo retomar medidas de restrição da circulação.

No enfrentamento da epidemia de covid-19 ou de qualquer outra doença transmissível, a notificação dos casos à vigilância epidemiológica é uma das etapas mais importantes, e quando não realizada de maneira correta, deixa toda a sociedade andando numa estrada no meio da madrugada com os faróis apagados.

No caso da epidemia de HIV, por exemplo, até o ano de 2014, o Ministério da Saúde não exigia que fossem notificados os casos de infecção por HIV, apenas os de Aids, os únicos na época para quem prescrevíamos o tratamento antirretroviral. Depois que passamos a recomendar esse tratamento para todos os pacientes, independente do estágio da doença ou da sua situação clínico/laboratorial, a notificação de todas as pessoas vivendo com HIV se tornou obrigatória em todo o Brasil. Por mais que a notificação seja ainda hoje algo complicado e trabalhoso, essa mudança foi fundamental para a melhor compreensão da dinâmica da epidemia no país. Antes de 2014, apenas São Paulo já registrava os casos de infecção por HIV não-Aids.

Para a sífilis, os casos de infecção congênita, aqueles em que a transmissão ocorre da gestante para o bebê, foram os primeiros a ser de notificação compulsória, em 1986. Os casos de sífilis de transmissão sexual só começaram a ser contados 24 anos depois, em 2010. Já o número de infecções por gonorreia e clamídia é completamente desconhecido no Brasil, pois até hoje os casos não são notificados para a vigilância epidemiológica.

Independente da infecção em questão, só é possível organizar uma resposta populacional de controle que de fato seja efetiva se tivermos disponíveis os dados de vigilância epidemiológica condizentes com a realidade. E para isso, precisamos ter toda a sequência funcionando: a testagem disponível à população, os profissionais/serviços de saúde realizando as notificações corretamente e em tempo hábil, e os sistemas de informação da vigilância epidemiológica computando em suas bases de dados as informações notificadas.

No entanto, quando vejo a maneira com que o Brasil tem lidado com epidemias de doenças transmissíveis nas últimas décadas, é fácil perceber que poderíamos melhorar (e muito) em todas essas etapas, sobretudo em relação aos obstáculos existentes para a testagem e a burocracia para a notificação dos casos.

Voltando para a covid-19, sugiro então que comecemos com aquilo que está ao nosso alcance. Mesmo que já tenha certeza do seu diagnóstico, não desista de buscar pelo teste, ele é fundamental. E certifique-se de que o seu caso foi ou será notificado, caso seja confirmado. Dessa forma, você já estará ajudando muito.

Por aqui, estou isolado, com todos os meus contatos recentes orientados a se testarem, apresentando apenas sintomas leves e com a confiança de que as 3 doses de vacina que tomei serão capazes de reduzir as chances de uma forma mais grave da covid-19 ocorrer.

E na cabeça, a esperança de que um dia entenderemos a importância da vigilância epidemiológica no controle das epidemias de doenças transmissíveis existentes e que ainda estão por vir.