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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil não deve discutir qual PrEP usar, mas como ampliar o seu acesso

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

10/09/2021 04h00

Uma discussão que anda bastante aquecida nos Estados Unidos, começou a acontecer no Brasil. Será que devemos nos preocupar em mudar os medicamentos que estamos usando na Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP)?

A PrEP clássica, em uso desde o início da década passada, é feita com a associação dos antirretrovirais Tenofovir Disoproxil Fumarato e Entricitabina, cuja sigla é TDF+FTC, coformulados em um único comprimido. Quando tomada com boa adesão, seja no esquema diário ou sob demanda, é capaz de reduzir a níveis insignificantes os riscos de infecção por HIV por via sexual.

Apesar da preocupação da população com a ocorrência de efeitos colaterais, uma vez que pessoas saudáveis estariam expostas ao uso contínuo de medicamentos antirretrovirais, a PrEP com TDF+FTC é bastante segura. Em menos de 1% dos seus usuários, sobretudo aqueles com mais idade e com comorbidades, o seu uso pode causar alterações renais e ósseas que são reversíveis com a interrupção das drogas. Assim, é recomendado que todo usuário de PrEP realize exames periódicos para rastrear tais alterações.

No final de 2019, os Estados Unidos aprovaram para a PrEP o uso também da combinação Tenofovir Alafenamida e Entricitabina (TAF+FTC), depois da divulgação dos resultados do estudo Discover. Esse estudo, realizado com 5.857 participantes, demonstrou que TDF+FTC e TAF+FTC funcionam de forma semelhante na prevenção do HIV quando tomados com boa adesão, mas têm perfis de efeitos colaterais completamente diferentes.

De forma oposta ao seu antecessor, o TAF+FTC melhorou a função renal e os ossos dos seus usuários, mas, por outro lado, provocou neles ganho de peso e piora do perfil de colesterol e triglicérides.

Desde a aprovação do uso do TAF+FTC, nos Estados Unidos o debate nas redes sociais sobre qual esquema de PrEP usar tem se tornado maior a cada dia que passa e, como esperado, era questão de tempo para ele aparecer também aqui no Brasil.

É consenso que a pauta da Prevenção Combinada do HIV deve ocupar mais espaço na vida das pessoas e que ninguém deseja ter os efeitos colaterais de uma medicação, ainda que eles sejam raros. Mas, na minha opinião, a discussão TDF versus TAF oculta elementos importantes que deveriam ser os prioritários.

Tanto nos EUA quanto no Brasil, a patente é garantida apenas para a combinação TAF+FTC, o que permite a fabricação de versões genéricas do TDF+FTC. Nem sempre genérico é sinônimo de acessível, mas sem dúvidas quanto maior for o preço da medicação, menor será o acesso à PrEP.

Definitivamente, a ampliação do acesso à PrEP em todo o território nacional é a questão principal que devemos ter no Brasil agora. Vivemos no caso da PrEP a dura realidade que se repete em diferentes aspectos do SUS (Sistema Único de Saúde), que determina ilhas de acesso privilegiado à saúde. Onde se tem acesso facilitado à PrEP, como em São Paulo, já vemos uma epidemia de HIV se encaminhando para um controle.

É claro que a disponibilidade de diferentes esquemas de PrEP, com perfis específicos de efeitos colaterais, será muito útil no manejo dos raros casos especiais, mas a grande maior parte da população vulnerabilizada ao HIV do Brasil precisa mesmo é de acesso a métodos de prevenção que se encaixem na sua vida, sejam eles camisinha, PrEP ou PEP.

Não importa qual droga ou fabricante, os melhores métodos de prevenção para cada indivíduo são aqueles que ele escolhe e consegue usar com boa adesão, e que lhe causam o mínimo de efeitos colaterais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL