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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A história dos assédios na prevenção do HIV

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

13/08/2021 04h00

Desde que há exatos 40 anos percebemos que havia uma nova doença, a infecção por HIV, se espalhando de forma epidêmica pelo planeta, trabalhamos para promover a prevenção dessa infecção.

Prevenção do HIV, por definição, são todos os métodos, práticas, tecnologias e ações de saúde pública que têm como objetivo manter livres desse vírus as pessoas que ainda não se infectaram.

No início da década de 1980, quando ainda se sabia muito pouco sobre o HIV, os epidemiologistas aprenderam rapidamente que as relações sexuais eram uma via de transmissão desse vírus. Como não havia na época métodos variados de prevenção, restou aos órgãos oficiais de saúde pública "proibir" o sexo.

Deixo a palavra entre aspas por pensar, retrospectivamente, que isso é algo absurdo. No entanto, foi exatamente o que se tentou fazer. Colocando medo na cabeça das pessoas em relação ao sexo, culpa na vida daqueles que se infectavam com HIV e até mesmo fechando os estabelecimentos aonde sabidamente seus frequentadores iam para transar, como as saunas.

Ao se perceber que o impacto dessas ações na disseminação do HIV era bastante limitado, em um movimento liderado pelos grupos mais impactados pela epidemia, passou-se a incorporar à prevenção a ferramenta que tinha na época o maior potencial de controlar o crescimento exponencial dos casos: a camisinha.

Nos Estados Unidos, por exemplo, foi amplamente veiculada uma campanha de prevenção chamada A-B-C (Abstinence - Be faithful - Condom). Traduzido do inglês significa: abstinência sexual, fidelidade e camisinha. Em outras palavras, o que a campanha recomendava era: não transe, se for transar que o faça sempre com a mesma pessoa, e se isso não for possível use camisinha.

O período da campanha A-B-C, foi o que a epidemia de HIV nos Estados Unidos cresceu com sua maior velocidade.

Regido por esses conceitos, por décadas o discurso sobre prevenção na sociedade colocou o sexo como algo perigoso, e até errado se fosse praticado sem camisinha. Sobretudo se você fosse um homem gay ou bissexual.

Mesmo sabendo que não havia disponíveis métodos variados de prevenção e que os casos e mortes por HIV/Aids não paravam de crescer, infelizmente o caminho escolhido para lidar com a epidemia foi o do assédio à vida sexual das pessoas. Das vítimas da epidemia.

O tempo passou e a ciência desenvolveu novos e potentes métodos de prevenção. Hoje, além da camisinha, sabemos que uma pessoa que vive com HIV sob tratamento adequado não tem risco de transmissão do seu vírus por via sexual.

Temos também a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) na forma de comprimidos, anéis vaginais e injetável intramuscular de longa duração. E se nada disso for usado, ainda temos a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), que pode ser usada de forma emergencial depois de uma relação sexual com risco de infecção.

Pela primeira vez na história da pandemia de HIV, estamos vendo as taxas de incidência de HIV caírem de forma rápida nos lugares em que todas essas estratégias estão sendo utilizadas.

Isso tudo seria ótimo se não tivéssemos ainda vivendo a cultura do assédio à vida sexual alheia. Infelizmente pessoas que têm relações sexuais sem preservativo ainda sofrem agressões verbais, ainda que utilizem algum outro método de prevenção. Da mesma forma, está se tornado cada vez mais frequente o assédio reverso, que recai sobre indivíduos que preferem usar a camisinha na sua prevenção e não estão em PrEP.

Os melhores métodos de prevenção para cada pessoa são aqueles que ela entende como funcionam, que ela escolhe utilizar e que, portanto, é capaz de usar de forma correta e constante.

Na prevenção do HIV precisamos encerrar logo a era do assédio e iniciar a da autonomia de cada pessoa no gerenciamento da sua saúde sexual.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL