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Paulo Chaccur

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sabia que a falta de autoestima pode afetar a saúde do seu coração?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

29/08/2021 04h00

Pense e responda: quando você se olha no espelho, o que você sente? O seu reflexo desperta emoções positivas ou traz à tona cobranças, infelicidade e sentimentos depreciativos? Entender e trabalhar em prol da sua autoestima pode fazer muita diferença para a saúde do seu coração.

É preciso estar atento especialmente quando o quadro é de baixa ou falta de autoestima. Aqui me refiro àqueles indivíduos que apresentam ausência de confiança sobre quem são e sobre sua aparência e se sentem frequentemente incompetentes, não amados ou até inadequados, com medo constante de cometer erros ou desapontar quem está a sua volta.

Para este grupo, o pensamento negativo é predominante, tal qual a sensação de não valer nada, de não ser suficientemente bom, bonito, inteligente, agradável, merecedor, entre tantos outros pontos. A autoestima está então diretamente ligada a autoaceitação e a autovalorização.

Porém, para seguir no tema, é importante deixar claro que não devemos caracterizar a falta de autoestima como uma doença, mas, sim, um fator de risco para a saúde e ponto em comum em vários transtornos mentais, a exemplo da depressão, ansiedade, estresse crônico e anorexia.

Ter problemas de autoestima afeta de forma negativa praticamente todas as esferas da nossa vida, incluindo relações pessoais e profissionais, além de questões de saúde física, uma vez que também provoca respostas fisiológicas no organismo.

Essa falta de amor-próprio é ainda, geralmente, seguida por uma autossabotagem, o que, em grande parte dos casos, resulta em hábitos pouco saudáveis, como descuidar da alimentação e da prática de exercícios, fumar, abusar de remédios, do álcool ou usar drogas ilícitas. Tudo isso vira um estopim para dores e doenças crônicas, eventos cardiovasculares, doenças relacionadas ao peso e vícios.

Como a autoestima interfere na saúde do coração?

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Descuidar da alimentação, deixar de lado os exercícios físicos, manter hábitos prejudiciais e não dar a devida atenção para a saúde mental podem ser atitudes determinantes para elevar as chances do surgimento de doenças cardiovasculares ou a piora de problemas cardíacos já existentes. E isso por uma série de fatores, como a obesidade.

Muitas vezes, o indivíduo que apresenta baixa autoestima busca nos alimentos uma compensação, algo que dê, mesmo que de forma ilusória, a sensação de prazer. E assim passa a somar elementos que, juntos, agravam o quadro. O excesso de peso e a obesidade podem causar mudanças na estrutura e no tamanho do coração, além de comprometer o seu funcionamento.

A gordura acumulada contém células que produzem substâncias inflamatórias que se alojam com facilidade na parede das artérias, formando placas de gordura capazes de provocar seu entupimento. Quando as placas dificultam ou bloqueiam a passagem do sangue, é possível uma evolução para um infarto ou AVC (acidente vascular cerebral).

Pessoas obesas ou com sobrepeso também têm mais chances de desenvolver problemas metabólicos, como diabetes, hipertensão e colesterol alto, considerados aspectos significativos para as doenças do coração.

Hábitos prejudiciais

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Imagem: porpeller/Getty Images/iStockphoto

Uma série de pesquisas ainda revela a ligação entre a falta de autoestima com o alcoolismo, o tabagismo e o uso de drogas, hábitos que interferem diretamente na saúde cardiovascular. Em muitos casos, usados como fuga ou válvula de escape de problemas, pela incapacidade para se defrontar com os desafios do cotidiano e lidar com este tipo de sentimento.

O que precisamos ter em mente aqui são os riscos. Fumantes têm 70% mais probabilidade de sofrer um infarto em comparação àqueles que não fumam. O cigarro promove o depósito de colesterol na parede das artérias, além de sua oxidação, o que favorece a formação de coágulos sanguíneos que dificultam a circulação e podem provocar um derrame cerebral.

Já o álcool, especialmente em grande quantidade e consumido de forma regular, causa enfraquecimento das células musculares cardíacas, levando a miocardiopatia alcoólica. Também pode estimular o fechamento das artérias, desencadear arritmias, aumentar os perigos de hipertensão arterial, obesidade e a possibilidade de uma insuficiência cardíaca, infarto ou AVC.

Sentimentos e emoções negativas

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A saúde mental e a saúde do coração estão intimamente ligadas. Infelizmente, as emoções e os sentimentos negativos não são apenas desagradáveis, são também prejudiciais ao organismo. Quadros de baixa ou falta de autoestima, se constantes, são causadores ou gatilhos para depressão, tristeza profunda, excesso de negatividade, estresse crônico e crises de ansiedade. Questões que se não tratadas podem trazer consequências cardíacas.

Para se ter ideia da gravidade, doenças cardiovasculares são mais comuns em pessoas que vivem com depressão, em comparação com a população em geral. Uma depressão é hoje considerada um fator de risco tão sério para a doença arterial coronária quanto o tabagismo, níveis altos de colesterol e pressão arterial elevada. O transtorno é capaz de afetar a recuperação de pessoas com doenças coronarianas e aumentar o risco de novos eventos cardíacos.

Os sentimentos e emoções negativas relacionadas à autoestima baixa estimulam a produção e liberação de substâncias inflamatórias na circulação que comprometem a integridade dos vasos sanguíneos. São hormônios associados ao estresse, como o cortisol e a adrenalina, que estimulam a vasoconstrição (redução do calibre dos vasos). Com o tempo, as artérias têm seu potencial de adaptação reduzido, o que gera aumento da pressão e elevação dos batimentos cardíacos. O coração acaba então sendo obrigado a trabalhar mais.

Sentimentos negativos provocam também alterações no sono, acarretando problemas mais sérios, principalmente quando já existe uma tendência à doença cardiovascular de base. Além disso, na tentativa de se defender, o corpo ativa de forma exacerbada o sistema imunológico, derrubando a imunidade e, em contrapartida, aumentado a probabilidade de infecções. Logo, quadros depressivos, de ansiedade e tristeza profunda podem motivar crises hipertensivas, arritmias ou até infartos do miocárdio.

Você no controle da sua autoestima

ego; autoestima - iStock - iStock
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A construção e a manutenção da autoestima é um processo complexo, que ocorre ao longo de uma vida. De modo geral, está ligada às crenças que aprendemos ou adquirimos desde a infância e que podem abalar nossa percepção de valor, competência e adequação.

Quando ao longo dos anos o indivíduo passa a ter oscilações na autoestima, além das consequências já ditas aqui, há ainda quem apresente um perfil somatizador, isso quer dizer, acaba expressando por meio de sintomas corporais estas angústias e sofrimentos em forma de dor ou doença.

O positivo é que problemas com a autoestima podem e devem ser tratados. É possível modificar, reconstruir e ressignificar percepções, trabalhar nossa autoaceitação e autoconfiança. E isso não é só com adultos. A autoestima flutuante também atinge adolescentes e jovens, por exemplo, entre aqueles que sofrem de transtornos de imagem —com consequências como anorexia e bulimia. Portanto, é preciso estar atento sempre.

Aprender a lidar com a autoestima é importante em qualquer fase da vida.

Uma autoestima elevada não gera só a sensação de bem-estar como traz benefícios físicos e melhora a nossa saúde. Pensar positivamente sobre nós oferece uma proteção efetiva aos sistemas cardiovascular e imunológico. Ou seja, gostar de você e se aceitar como você é, além de fazer bem, protege o coração.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL