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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


Alcoolismo é doença, e desafio maior é a intervenção médica precoce

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Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para VivaBem

03/11/2020 04h00

Cerveja e vinho. Estas foram as bebidas mais consumidas nos primeiros meses da pandemia da covid-19 na região denominada Cone Sul, onde está inserido o Brasil. O país já registrara o maior índice de uso de álcool em 2019, e só no período de março a junho de 2020, seus níveis quase alcançaram os percentuais de todo o ano anterior.

A pesquisa, realizada pela OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde), revelou ainda que o chamado beber pesado episódico, ou seja, ingerir 60g de álcool ou mais, também aumentou no mesmo período.

Esses dados são um sinal de alerta para o excesso de ingestão de uma substância química potente, cujos efeitos adversos acometem todo o organismo, incluindo o cérebro, os ossos e o coração, e se caracteriza pela sua ingestão constante, descontrolada e progressiva.

Essa prática lidera a lista de abuso de drogas nos Estados Unidos e, em todo o mundo, mais de 3 milhões de homens e mulheres morrem em decorrência do uso nocivo de bebidas alcoólicas. Estas ainda são a causa de 5% de todas as doenças mundiais. Os dados são da OMS (Organização Mundial da Saúde).

O beber sem medida pode levar a uma enfermidade crônica chamada Transtorno do Uso do Álcool (TUA) —conhecida, no passado, como alcoolismo ou dependência do álcool. O maior desafio desse quadro é que, na maioria das vezes, a intervenção médica nunca é precoce e, em geral, ela só acontece em decorrência de algum problema de saúde, do envolvimento em acidentes ou problemas legais.

Apesar disso, a doença impacta negativamente o status socioeconômico, a saúde mental, as relações interpessoais, a vida profissional e o bem-estar físico. Para boa parte dos que empreendem um tratamento, educação do paciente e da família, ajuda psicológica, frequência a grupos de apoio e medicamentos podem aprimorar a qualidade de vida.

Entenda o que é bebida alcoólica

O álcool etílico é um ingrediente encontrado na cerveja, no vinho, licores e outros tipos de bebidas disponíveis no mercado. Trata-se de um produto da fermentação por leveduras, açúcar e amido. Como ele é considerado tóxico, a OMS adverte que não há volume seguro de consumo, dado o poder de prejudicar o bom funcionamento de cada órgão do seu organismo.

Definido como um depressor do Sistema Nervoso Central (SNC), o álcool é rapidamente absorvido pelo estômago e pelo intestino por meio da corrente sanguínea. A sua metabolização se dá no fígado —que tem capacidade moderada de "processar" grandes quantidades da bebida. Assim, a intensidade dos efeitos no corpo corresponde à quantidade ingerida.

Como sei que estou sendo moderado?

Um copo comum de bebida contém 14g de álcool, o que equivale a uma latinha de cerveja de 350ml ou uma taça com 150ml de vinho. O beber moderado corresponde a 1 porção para mulheres e até 2 para homens ao dia. E não há um tipo de bebida melhor do que a outra. O que importa é a quantidade de álcool consumida.

O que caracteriza o beber de forma exagerada?

A prática pode levar à intoxicação por álcool, o que é o mesmo que ficar embriagado ou bêbado, isto é, trata-se do resultado do consumo excessivo de álcool.

Quem bebe dessa forma geralmente apresenta os seguintes padrões de comportamento:

Beber em binge ou beber pesado episódico - trata-se de um padrão que tem sido cada vez mais comum, especialmente entre os jovens e se caracteriza pelo beber 5 ou mais doses de bebidas alcoólicas (homens) e 4 ou mais doses (mulheres), em uma mesma ocasião e no período de 2 horas;

Beber pesado - no grupo masculino representa a ingestão de 15 doses ou mais por semana; entre as mulheres a quantidade é de 8 porções por semana.

Quais são os danos que o álcool pode me causar?

As consequências nocivas do mau uso da substância podem ocorrer a curto e longo prazos. As situações a seguir descritas consideram indivíduos com tolerância normal à bebida.

Pessoas que, naturalmente, têm maior tolerância, precisarão de doses cada vez maiores para terem o mesmo efeito. Confira:

Efeitos de curto prazo

  • 1 ou 2 unidades de álcool - aumento da frequência cardíaca, dilatação dos vasos sanguíneos e aquela leve sensação de relaxamento, euforia e prazer;
  • 4 a 6 unidades - cérebro e SNC são afetados. A capacidade de julgamento e de tomar decisões fica reduzida, e a pessoa se torna mais imprudente e desinibida. Reflexos e coordenação sofrem alterações;
  • 8 a 10 unidades - a perda de reflexos piora, a fala fica arrastada e a visão é alterada; o fígado perde a capacidade de metabolizar o álcool, aumentando as chances de ressaca;
  • 10 a 12 unidades - todos os sintomas descritos serão ainda mais fortes e haverá sonolência, o que aumenta o risco para acidentes. Níveis tóxicos do álcool levam à desidratação e à ressaca. Com sobrecarga para o sistema digestivo, náuseas e vômitos aparecem;
  • Mais de 12 unidades - letargia profunda, inconsciência, estado de sedação, parada respiratória, intoxicação, coma. Acidentes, lesões, comportamentos antissociais, agressividade, sexo desprotegido, perda de objetos pessoais são outros riscos considerados comuns.

Efeitos de longo prazo

  • Doenças cardiovasculares (AVC, hipertensão arterial)
  • Doenças do fígado (aumento da gordura local --esteatose--, por exemplo)
  • Pancreatite
  • Câncer (de boca, fígado, pescoço e cabeça, mama, intestino)
  • Depressão
  • Demência
  • Infertilidade
  • Disfunções sexuais (impotência, ejaculação precoce)

Exceder-se nas bebidas significa que sou alcoolista?

Há alguns anos, a APA (sigla em inglês para Associação Americana de Psiquiatria) publicou a 5ª Edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conhecido como DSM-5.

A partir de então, o abuso e a dependência do álcool —também conhecidos como alcoolismo— foram classificados em uma única categoria denominada Transtornos do Uso do Álcool. Quando graves, eles são considerados uma doença crônica.

Assim, a depender dos padrões de comportamento de cada pessoa, elas podem ou não se encaixar nos critérios para um diagnóstico de transtorno do uso do álcool.

Por que uma pessoa se torna alcoolista?

Até o momento não se sabe exatamente porque alguns indivíduos desenvolvem esses transtornos, mas já são conhecidos alguns fatores relacionados. Confira:

  • Influências ambientais
  • Ambiente familiar
  • Interação social
  • Genética
  • Níveis de funcionamento cognitivo
  • Presença de alguns transtornos de personalidade (distúrbios de desinibição, impulsividade, depressão e de socialização)

Algumas teorias apontam para outras possíveis explicações. Confira:

  • Efeitos positivo ou negativo de regulação - o indivíduo bebe para se sentir mais alegre ou para lidar com a depressão, a ansiedade, seu próprio sentido de valor;
  • Vulnerabilidade farmacológica - variações de respostas aos efeitos do uso do álcool a depender das formas individuais como cada organismo metaboliza o álcool;
  • Tendência a desvio de conduta - propensão individual estabelecida na infância, em geral devido a dificuldades de socialização.

Como identificar os sintomas

Pessoas que fazem uso nocivo do álcool geralmente começam a ter dificuldades em seus relacionamentos, no ambiente escolar, na vida social e também observam alterações na sua forma de pensar e sentir.

Veja a seguir alguns dos sinais e sintomas dos TAU:

  • Dificuldade de limitar o consumo de bebidas alcoólicas
  • Continuidade da prática, apesar dos prejuízos na vida pessoal ou profissional
  • Necessidade de beber cada vez mais para ter o mesmo efeito
  • Desejo intenso de beber que impede de fazer outras coisas

Quando é hora de procurar ajuda?

A maioria das pessoas que não conseguem limitar o consumo do álcool esconde ou nega a situação.
"A grande armadilha do beber são os chamados mecanismos de defesa psicológicos. Esses pacientes têm dificuldade de reconhecer que estão ultrapassando os limites, e até culpam alguém pelo fato de estarem bebendo", fala o psiquiatra Dagoberto Hungria Requião, professor da Escola de Medicina da PUC-PR e membro do Conselho Consultivo da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas).

Requião conta que tal situação contribui para que a busca por ajuda só aconteça em estágios avançados dos distúrbios do uso do álcool, ou quando algum problema de saúde se manifesta em decorrência do abuso ou da dependência. "Pode até ser após um acidente ou problemas legais", diz.

A sugestão dos especialistas é que você procure um médico de sua confiança, caso identifique algumas das seguintes circunstâncias:

  • Preocupação de amigos e familiares sobre a forma como você bebe;
  • Sentimento de desconforto diante das críticas deles;
  • Culpa por beber;
  • Dificuldade de parar de beber (apesar de pensar em fazê-lo);
  • Necessidade de beber já na primeira hora do dia para superar a ressaca da noite anterior.

Saiba o que esperar da consulta

O médico vai ouvir sua queixa, levantar seu histórico de saúde e fazer o exame físico. O profissional também buscará informações sobre possíveis ocorrências que se relacionam ao abuso ou dependência do álcool.

Alguns exemplos são problemas de sono ou visuais, quedas, desmaios, além de sinais de crises de abstinência como tremores, confusão mental e problemas emocionais. Dados sobre as relações no trabalho, na família ou com parceiros também serão objeto de indagação.

Exames complementares serão solicitados para que o profissional possa avaliar a presença de algum tipo de complicação do abuso da substância ou comorbidades. Eles incluem o hemograma completo e exames gerais do fígado, como o TGO, o TGP e o GAMA-GT, entre outros que o médico entender necessários.

Como é feito o tratamento?

A estratégia terapêutica dependerá da gravidade do problema. Caso a dependência esteja definida, o objetivo do tratamento será a abstinência. Mas pode ocorrer de a meta ser apenas a redução do consumo da bebida e, nessa circunstância, a intervenção será mais breve.

As abordagens médicas incluem estratégias não farmacológicas e farmacológicas. As primeiras, consistem na educação do paciente e da família, psicoterapia e frequência a grupos de mútua ajuda como os AA (Alcoólicos Anônimos) —inclusive para os familiares—; já as segundas, fazem uso de medicamentos específicos, como o naltrexone, que ajudam a controlar a vontade de beber e previnem recaídas. A explicação é de Arthur Guerra, psiquiatra e professor titular de psiquiatria da FMABC e presidente do CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool).

"Se tiver dependência, é essencial acessar a motivação para parar de beber. Além disso, é preciso tratar as enfermidades físicas e psíquicas (comorbidades), bem como sintomas de ansiedade, sempre presentes nessas situações", acrescenta o especialista.

Entenda porque o suporte psicológico é essencial

A literatura médica sobre os TUA ressalta a importância do trabalho de equipes multidisciplinares, o que inclui a atuação de psicólogos para o devido suporte psicológico.

Algumas técnicas têm-se mostrado bastante úteis, como a entrevista motivacional (terapia breve que ajuda a se preparar para a mudança comportamental), a terapia cognitivo comportamental, além de programas como o AA.

"A terapia cognitivo comportamental possui técnicas facilitadoras que ajudam as pessoas a se motivarem, identificarem situações desencadeantes do beber e aprenderem formas de lidar com as situações de risco", esclarece o psicólogo Marcos Roberto Garcia, coordenador do curso de psicologia da PUC-PR (campus Londrina).

Todas essas práticas ainda são úteis no desenvolvimento de uma rede de apoio na própria comunidade, o que potencializa o sucesso do tratamento.

O que esperar do tratamento?

Os TAU são considerados doenças crônicas. Isso significa que o acompanhamento delas deve ser feito por toda a vida.

O resultado do tratamento dependerá de vários fatores, como o entendimento, por parte do paciente, de que ele pode melhorar seu estado geral de saúde. Antes, porém, ele deve aceitar o problema, convencer-se de que a abstinência é o único caminho e compreender que todo o processo requer tempo.

Uso do álcool por grávidas e lactantes

Como não existe um nível seguro de álcool que possa ser consumido por gestantes, é contraindicada. Os prejuízos para o feto se relacionam a doenças como a SAF (Síndrome Alcoólica Fetal) —que levam a deformações faciais—, e problemas no SNC, além de distúrbios de fala, atenção e problemas cognitivos.

Uma advertência dos especialistas é que mulheres em idade reprodutiva devem evitar o beber em binge para reduzir a chance de uma gravidez indesejada, além da possível exposição do feto ao álcool.

Como as bebidas alcoólicas podem passar pelo leite materno, mesmo quantidades moderadas podem ser prejudiciais ao bebê, afetando não só sua segurança, como o desenvolvimento, crescimento e até padrões de sono.

Uso do álcool por menores

Apesar da proibição legal de venda de bebidas alcoólicas para menores de idade, há evidências de que até adolescentes de 12 anos têm acesso a elas. Contudo, os estudos científicos revelam que tal quadro aumenta o risco para acidentes, além das chances de dependência alcoólica no futuro, especialmente quando comparado aos dos jovens que começaram a beber aos 21 anos —idade em que o consumo é liberado nos EUA.

Somam-se a isso outros prejuízos como queda do aproveitamento escolar, comportamentos sexuais de risco, além de suicídio e homicídio. Os dados são do CDC (Centers for Disease Control and Prevention).

Onde procurar ajuda

Toda a rede do SUS (Sistema Único de Saúde), por meio dos CAPSs (Centros de Atenção Psicossocial) e das UBSs (Unidades Básicas de Saúde), oferece atendimento para enfermidades relacionadas à saúde mental e, em cidades com mais de 70 mil habitantes, existem áreas especializada em Álcool e Drogas (CAPS AD).

Em São Paulo, por exemplo, a prefeitura esclarece que a política de atendimento é promover o acesso aos serviços de suas unidades, por isso não é necessário agendamento prévio nem encaminhamento.

O grupo de apoio AA tem promovido encontros on-line. Para participar, basta entrar na seção Sala de Reuniões do site: https://www.aaonline.com.br/.

Fontes: Arthur Guerra, psiquiatra e professor titular de psiquiatria da FMABC e presidente do CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool); Dagoberto Hungria Requião, psiquiatra e professor da Escola de Medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), membro do Conselho Consultivo da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas) e membro da Academia Paranaense de Medicina; Marcos Roberto Garcia, doutor em psicologia e coordenador do curso de psicologia da PUC-PR (campus Londrina). Revisão técnica: Arthur Guerra.

Referências: Ministério da Saúde; CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool); CDC (Centers for Disease Control and Prevention); Nehring SM, Freeman AM. Alcohol Use Disorder. [Atualizado em 2020 Aug 10]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2020 Jan-. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK436003/.

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