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'Lésbicas ficam até 20 anos sem ir ao ginecologista por medo', diz médica

demaerre/Getty Images/iStockphoto
Imagem: demaerre/Getty Images/iStockphoto

Rafaela Polo

De Universa, São Paulo

07/07/2022 04h00

"A primeira vez que fui sozinha ao ginecologista eu tinha uns 20 anos. Minha ex-parceira tinha me contado que estava com HPV e fui pedir exames. Foi muito constrangedor". Foi assim que a arquiteta Laura de Souza, 33, narrou sua primeira experiência como uma mulher homossexual com a ginecologista. Ela, que vem de uma família conservadora e evangélica, pouco ouvia falar sobre a saúde da mulher em casa. E no consultório também não foi acolhida.

São experiências como essas que fazem com que as mulheres lésbicas, bissexuais e homens trans fiquem com receio de procurar a assistência médica adequada. "A principal queixa dessas mulheres é o medo. A maioria fica sem ir em uma ginecologista 15, 20 anos", diz Patrícia Carvalho, ginecologista e obstetra que atende no Núcleo de Medicina Afetiva, em São Paulo, voltado para o acolhimento da população LGBTQIA+.

"A diferença do atendimento tem que estar na estratégia de acolhimento", diz a ginecologista Mariana Vizza, fundadora da Casa Irene, centro de cuidado ginecológico com autonomia e respeito, em São Paulo. "O que eu preciso saber é como é a vida sexual de cada um, independente de sua sexualidade. O médico precisa ser neutro, não importa o tipo de penetração", completa. Segundo ela, seja isso feito com um pênis, mão, língua, vibrador, o exame de papanicolau sempre será necessário.

Para Carla Cristina Marques, especialista em medicina de família e médica no ambulatório de saúde da mulher do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde de São Paulo, é sempre importante fazer questionamentos a paciente sem que haja julgamentos frente às suas escolhas. "Para poder proporcionar um cuidado integral à saúde da pessoa, avaliar questões de saúde mental relacionadas à lesbofobia e orientar adequadamente quanto à necessidade de exames", diz.

Um estudo feito pelo Women's Health Issues Jornal comparou as chances de irmãs, uma lésbica e outra heterossexual de ter câncer no seio. Foram entrevistadas mulheres de mais de 40 anos no estado da Califórnia e concluiu que mulheres bissexuais e lésbicas têm mais chances de desenvolver diversos tipos de cânceres, entre eles nos seios e o ovário, provavelmente por irem menos ao médico. Outro estudo recente da Sociedade Americana de Câncer concluiu o mesmo. "Isso provavelmente está relacionado às barreiras que enfrentam para acessar os serviços de saúde", explica Carla.

Sexualidade ainda é um tabu

Laura deixou de ir aos médicos porque chegou a ouvir em um consultório que ela tinha que "dar uma chance para os meninos", já que, na época, nunca tinha experimentado relações sexuais com homens.

"Lembro de ter contato com a médica que era por causa da minha parceira que tinha a procurado e ela fez um discurso sobre como eu precisava ter filhos, como se minha sexualidade fosse me distanciar da maternidade. E que eu precisava dar uma chance para os meninos", disse Laura. Na hora de pedir ajuda sobre como se proteger, ela afirma que a médica disse qualquer coisa, como se o que ela fizesse nem fosse relação sexual.

Isso fez com que Laura se afastasse dos consultórios por muitos anos. "Fiquei muito tempo sem ir por ser constrangedor. As perguntas iniciais eram sempre do mesmo jeito, presumindo que eu era heterossexual", conta. A essa altura, Laura já tinha tido relação com alguns homens, mas se relacionava majoritariamente com mulheres.

"Até que encontrei um coletivo feminista e tive a primeira consulta na minha vida com alguém que não me desqualificou. Pelo contrário, foi acolhedora como outros médicos nunca foram", conta. Não à toa, ainda há muitas mulheres com vergonha de se abrir para suas relações, mesmo dentro do consultório médico.

"Ainda falta capacitação para profissionais de saúde abordarem adequadamente questões de sexualidade. Escuto muitos relatos sobre indicação de pílula anticoncepcional sem que se questione quais relações aquela pessoa tem, por exemplo", diz Carla. Ela é uma das médicas que atende no coletivo onde Laura se sentiu acolhida.

"A OMS recomenda que todas as consultas de rotina tenham perguntas sobre a vida sexual. E na faculdade já somos instruídos a perguntar sobre práticas sexuais antes de questionar sobre contracepção. Assim, a pergunta fica aberta e dá espaço para a mulher responder", diz Mariana.

Mesa de exames e doenças

Assim como Laura relatou em sua história no começo dessa reportagem, mulheres lésbicas e bissexuais também podem ter ISTs. Por isso, é importante a realização de exames no consultório médico. Eles não estão relacionados ao tipo de penetração, e sim, a doenças mais comum de serem desenvolvidas em mulheres. "Não tem diferença na questão do exame físico", diz Patrícia.

O cuidado só muda, mas ainda com exame, é caso a mulher nunca tenha tido nenhum tipo de penetração - não só aquela que envolve um pênis. "Tanto a mão quanto brinquedos sexuais compartilhados durante o sexo pode levar o vírus para dentro do organismo, por isso é necessário fazer sempre o Papanicolau", diz Mariana.

Carla afirma que a transmissão de HPV, clamídia, trichomonas, sífilis, gonorreia, herpes e HIV pode acontecer do contato com os fluidos, como sangue menstrual e secreção vaginal, e acessórios e também da própria mucosa vaginal ou anal quando em contato com boca, mãos e vagina da parceria. Isso sem contar que não há métodos de prevenção a doenças tão eficazes apenas para mulheres como há em uma relação heterossexual.

"A orientação é fazer exames de ISTS regularmente, usar preservativo em acessórios e trocar quando outra pessoa for utilizar. É bom também manter unhas curtas, evitar contato com sangue menstrual", diz Carla. Ela também indica a vacinação para hepatite B e HPV. "Um cuidado é não estigmatizar a relação lésbica, pois faltam estudos adequados sobre esses métodos, e colocar ainda mais barreiras para que se tenha prazer", concluí.