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'Me descobri lésbica depois de adulta': mulheres contam suas experiências

Lana Nóbrega

Colaboração para Universa, de Fortaleza

07/05/2022 04h00

O que acontece quando uma mulher trilha sua vida pensando ser heterossexual e, depois de adulta, entende-se lésbica? Universa conversou com cinco que perceberam que o interesse ia para outro lado —e decidiram, desde então, viver a orientação sexual que mais lhe convinha.

Para a psicóloga Luiza de Matos, o fato de haver, ainda, uma norma social para que as pessoas se comportem e sejam heterossexuais faz com que as próprias mulheres tenham dificuldade para admitir seus desejos. "A imposição, na grande maioria dos casos, se apresenta já fortemente na família, que é base de referência e validação existencial. Não é simples sentir algo novo e nomear esse sentimento sem estar em um ambiente que reconheça e legitime diferentes formas de ser", afirma.

Leia os relatos abaixo.

"Criação evangélica dificultou aceitação"

"Só me percebi lésbica depois de adulta porque fui criada em uma igreja evangélica, e isso dificultou eu me encontrar e me aceitar. Foi um processo terrível de descoberta: me apaixonei pela colega de trabalho e ela por mim, foi quando toda minha luta interna começou, além do embate com família e igreja. Resisti por muito tempo, questão de anos mesmo. Hoje estou muito bem, passei por terapia, que me ajudou muito. Sou muito feliz como sou. Tive um relacionamento de dez anos, aprendi e cresci também. Meus pais ainda não aceitam, sou excluída de muitos momentos familiares. Mas encontrei uma igreja evangélica onde sou bem recebida."

Vanessa Souza, 35, professora de Educação Física

"Me envolvi com muitos homens para provar que era hétero"

"Acredito que cresci em um ambiente com muitas expectativas sobre quem eu seria no futuro: uma mulher hétero, casada e com pelo menos dois filhos. Ao me descobrir, passei por um período longo e doloroso de entendimento. Me machuquei muito e machuquei, ainda mais, mulheres incríveis. Um embate entre 'eu quero isso' e 'não fui programada para isso'. Também havia confusão interna e cobranças externas em ter que assumir 'uma causa' e levantar uma bandeira, me denominando logo como lésbica ou bi. Acabei me envolvendo com vários homens (uns legais e outros nem tanto) só para me provar que eu era hétero e que era apenas uma fase. Até eu perceber que não era uma fase, que eu não tinha que provar nada para ninguém e que eu poderia e posso ser o que eu quiser e amar quem eu quiser. Depois que eu internalizei isso e comecei a 'enfrentar' as pessoas, começando pela minha mãe, tudo ficou mais claro. Depois, minha mãe começou a me apoiar e o processo ficou mais leve."

Eduarda Torres, 29, pedagoga

"Nem todas nascem com a certeza sobre seus desejos"

"Anos se passaram e ainda não me assumi completamente. Não inicio as relações contando sobre a minha homossexualidade, mas não a nego mais, o que é uma vitória para mim. Porém, sei que ainda tenho um grande caminho a percorrer. Acredito que ainda há em mim uma parte daquela adolescente que se pensava hétero, que queria casar e ter filhos com um homem. Não vou negar, não foi fácil entender o que estava acontecendo comigo. Se eu for aconselhar alguém que está passando por essa descoberta tardia, diria apenas que se dispa de todos os seus preconceitos, se os tiver. Nem todo mundo nasce com a certeza dos seus desejos, isso pode mudar ao longo dos anos. Diria que escute seu coração e que tenha mais coragem do que eu para assumir o que sente."

Fernanda*, 43, servidora pública

"Fui criada para ser uma 'boa menina'"

"Meu processo de aceitação foi duro, longo e bastante dolorido. Fui criada para ser uma 'boa menina', então era um sofrimento terrível para mim pensar em decepcionar meus pais e fazê-los sofrer, o que eu tinha certeza de que aconteceria. Meu conselho para uma mulher que está se descobrindo lésbica na idade adulta é: cerque-se de todo o apoio que conseguir encontrar. Se você não for capaz de encontrá-lo na família ou nos amigos próximos, procure mais longe. Procure em redes sociais, em coletivos feministas, no grêmio das universidades, em uma boa psicóloga ou psicólogo. Converse com outras mulheres lésbicas, frequente eventos queers, faça novas amizades, construa sua própria família onde o amor, o acolhimento e a aceitação sejam o centro de tudo. Faça terapia —existem muitas psicólogas que atendem a preço social—, busque apoio, não se isole do mundo, fortaleça-se. O caminho de autoaceitação é longo e quase sempre dolorido, mas não há nada que pague o prazer e a alegria indescritíveis de encontrar a coragem para, finalmente, ser quem se é."

Mariana Maioral, 37, farmacêutica-bioquímica

"Cheguei a achar que era assexual"

"Vivi por 30 anos em uma cidade muito pequena, com cerca de 10 mil habitantes, na casa dos meus pais e morando próximo dos parentes. Tanto a família quanto o resto da cidade são bastante conservadores, e sempre ouvi que era errado ser LGBT. Ao longo da vida não me percebia uma pessoa muito interessada em namorar, cheguei a achar que era assexual. Porém, sempre houve uma 'curiosidade' em como seria ficar com uma mulher. Mesmo ainda estando em um contexto bem conservador, conheci uma mulher e, finalmente, entendi que era isso que fazia sentido pra mim. Faz alguns meses que mudei de cidade, mas ainda sofro os reflexos da minha criação. Até hoje sinto medo e vergonha, e não acolhimento. Não me assumi publicamente ainda, por mais que algumas pessoas já saibam. Hoje em dia me entendo melhor, acolho as pessoas sempre que posso por saber na pele o quanto é ruim estar sem apoio. Aconselharia a quem passou ou passa por situações assim que faça terapia e que não se culpe pela forma como foi tratada: você não é errada e nem má. Procure redes de apoio e se permita viver."

Kátia*, 30, psicóloga

*Os nomes foram alterados a pedido das entrevistadas.