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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Silenciosa, hepatite pode evoluir para um câncer; veja como evitar doença

Hepatite é toda infecção ou inflamação no fígado, que pode ser provocada por vírus, obesidade, consumo de álcool - iStock
Hepatite é toda infecção ou inflamação no fígado, que pode ser provocada por vírus, obesidade, consumo de álcool Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para o UOL VivaBem

16/07/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Hepatite é o termo genérico que define uma infecção ou inflamação no fígado
  • O tipo da doença mais comum no Brasil é o C, seguido pelo B e o A
  • Vírus que provocam hepatites podem ser transmitidos por relação sexual sem proteção, sangue, alimentos e água contaminados
  • A doença também pode ser causada por excesso de gordura no fígado, devido à obesidade, consumo de álcool, dieta ruim
  • O problema geralmente é silencioso, mas a pessoa pode ter sintomas como febre, cansaço e dor abdominal
  • A melhor forma de prevenção é se vacinar, além de higienizar bem alimentos e fazer sexo com proteção

Se você pensa que educação custa caro, imagine a ignorância. Esta frase, geralmente utilizada para justificar o benefício do alto investimento em escolaridade, aplica-se muito bem à saúde. No caso da hepatite, não conhecer a presença da doença faz que se percam anos de um possível tratamento e permite que a doença avance e se espalhe.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2018, os casos de hepatite no Brasil mais que dobraram em homens com idade de 20 a 39 anos, grupo mais exposto à enfermidade. No ano anterior, foram registrados 40.198 novos eventos.

Para todas essas pessoas, superar a falta de informação, a própria vulnerabilidade, o estigma e a discriminação pode ter um custo ainda maior. A boa notícia é que o SUS (Sistema Único de Saúde) oferece tratamento para todos os tipos de hepatite, independentemente do grau da doença.

O que é a hepatite?

Hepatite é o termo genérico que define uma infecção ou inflamação no fígado. Esse órgão é conhecido como o filtro do organismo. É ele o encarregado de processar alimentos, filtrar o sangue e combater infecções. O uso pesado de álcool, drogas, alguns tipos de medicamentos e até determinadas doenças podem afetá-lo.

Outra situação capaz de atrapalhar o funcionamento do fígado é a infecção por vírus. Nesses casos, as hepatites são classificados pelas letras do alfabeto: A, B, C, D e E. Em nosso país, 70% das mortes por hepatites virais decorreram dos tipos mais comuns entre nós: a C, seguida pela B e a A.

De forma menos comum, o fígado pode também ser acometido por hepatites consequentes a doenças autoimunes ou por depósito excessivo de metais como o ferro (hemocromatose) ou cobre (doença de Wilson), problemas associados a alterações genéticas.

Como acontecem as infecções virais

- Hepatites A e E São transmissíveis por meio do consumo de água e alimentos contaminados. Os médicos podem se referir a esse tipo de contaminação como transmissão oral-fecal.

- Hepatite B É considerada uma IST (Infecção Sexualmente Transmissível, antes denominada DST). Logo, a infecção se dá, principalmente, por relações sexuais sem proteção. Contudo, pode haver contágio por via sanguínea --nesse caso, decorrerá, por exemplo, do compartilhamento de seringas, agulhas, lâminas de barbear, alicates de unha e outros objetos cortantes ou que furem.

- Hepatite C Seu contágio é percutâneo, ou seja, sangue contaminando outro sangue. Estamos falando de todo utensílio que perfura a pele (alicates, instrumentos cirúrgicos, seringas, agulhas etc.). E até por relações sexuais sem proteção o vírus se espalha, basta que haja alguma lesão na mucosa local.

- Hepatite D ou Delta Requer sempre a companhia do vírus B para se multiplicar. Ele é mais comum na região amazônica ocidental. A transmissão se dá por via sanguínea e por relações sexuais sem proteção.

- Hepatite E Mais rara no Brasil. Como na hepatite A, a transmissão se dá na forma oral-fecal. Cuidados como consumir somente água tratada, bom cozimento dos alimentos, especialmente carne suína (o vírus pode afetar rebanhos suínos), ajudam na prevenção.

Atenção: nas hepatites B, C e D, a transmissão dos vírus pode se dar por meio da chamada transmissão vertical, isto é, ocorre durante a gravidez ou no parto.

Obesidade também causa hepatite

Para além desses vírus, a hepatite também pode ter como causa o acúmulo de gordura no fígado (esteatose hepática). Atualmente, em razão do aumento da obesidade e hábitos ruins da vida moderna, esse quadro é comum.

O acúmulo de gordura no órgão inicia um processo inflamatório local e crônico, que leva o indivíduo a evoluir para a esteato-hepatite não alcoólica, que pode progredir para cirrose em 10, 20 ou 30 anos, adverte o médico Mário Guimarães Pessoa do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Quais são os possíveis sintomas

As enfermidades hepáticas têm a característica de serem silenciosas --ou seja, demoram para apresentar sintomas porque o órgão não possui nervos em seu interior. Assim, a maioria das pessoas não terá sinal algum da doença.

Entretanto, pode acontecer que, em uma infecção aguda, aquela que aparece de repente e dura apenas algumas semanas (de duas a seis semanas), ou até mesmo nas crônicas, quando a infecção já ocorreu há mais de seis meses, os seguintes sintomas se manifestem.

  • Febre
  • Cansaço
  • Perda do apetite (rejeitando carne vermelha, inclusive)
  • Náuseas
  • Vômito
  • Dor abdominal
  • Urina escura (colúria)
  • Fezes claras
  • Dor articular
  • Pele e olhos amarelos (Icterícia)
  • Tontura
  • Mal-estar
  • Rejeição ao cigarro, quando a pessoa é fumante

Quem precisa ficar atento

As infecções agudas mais comuns, isto é, as hepatites B e C, podem tornar-se crônicas e ter como consequência doenças como a cirrose e câncer de fígado.

Já as hepatites crônicas podem levar anos ou até décadas para evoluírem. Contudo, essa deterioração contínua do fígado poderá resultar em cirrose, insuficiência hepática e câncer. Importante saber que, mesmo sem a doença ativa (sem sintomas), um portador de hepatite C ou B pode transmiti-la a outras pessoas.

Grupos determinados são mais suscetíveis à infecção viral. Isso porque estão mais expostas aos fatores de risco que você vê a seguir:

Hepatite B

  • Homens que fazem sexo com outros homens;
  • Pessoas que usam drogas injetáveis;
  • Pessoas com HIV;
  • Convívio ou relação com pessoas que tenham Hepatite B;
  • Pacientes submetidos à terapia imunossupressora;
  • Pessoas no estágio final de doença renal (incluídas as que fazem hemodiálise);
  • Indivíduos com hepatite C;
  • Pacientes com alta taxa no exame ALT ou TGP (que revela eventual lesão no fígado);
  • Mulheres grávidas;
  • Filhos de mulheres infectadas pelo vírus B.

Hepatite C

  • Usuário (ou ex) de drogas injetáveis, incluindo quem fez uso uma única vez muitos anos atrás;
  • Todos os nascidos entre 1945 e 1965;
  • Pessoas que receberam fatores de coagulação sanguínea antes de 1987;
  • Recebedores de transfusão sanguínea ou transplante de órgãos antes de 1992. A partir desse ano, os doadores passaram a ser testados para investigar a presença do vírus da hepatite C;
  • Quem fez cirurgia cardíaca até 1995;
  • Pacientes que fazem hemodiálise há anos
  • Indivíduos que se expuseram ao vírus, como enfermeiros, socorristas, ou manipularam recipientes com sangue ou órgão de doador infectados com Hepatite C;
  • Pessoas com HIV;
  • Crianças nascidas de mães com Hepatite C.

Como é feito o diagnóstico da hepatite

Seja na hepatite aguda, seja na crônica, o médico deve conversar com o paciente para investigar alguma pista de um possível contágio. Na hepatite aguda, em cerca de 30% dos pacientes os sintomas podem estar presentes. Neste caso, serão solicitados exames específicos para cada vírus (A, B ou C).

A ideia é descartar uma eventual hepatite decorrente do uso de medicamentos. Além disso, são investigadas as funções do fígado por meio de exames que mostram a presença de inflamação, explica Adriana Zuollo, médica do Serviço de Transplantes de Fígado da Santa Casa de São Paulo. Com esses dados em mãos, define-se o diagnóstico.

Já na hepatite crônica, geralmente o paciente é assintomático e só descobre que tem a doença ao fazer um exame que avalie eventual lesão ou função hepática. O médico, então, avaliará a história da pessoa para identificar o uso excessivo de álcool, a presença de síndrome metabólica e/ou gordura no fígado, além de pedir o teste para pesquisar os vírus B ou C.

Como é o tratamento da hepatite

Hepatites agudas, virais e induzidas por toxidade geralmente são autolimitadas, ou seja, elas se resolvem de forma espontânea e desde que seja suspensa a droga ou medicamento suspeito. Mas há casos graves que evoluem rapidamente, chamadas pelos médicos de hepatites fulminantes. Nessas situações, o tratamento é a indicação de transplante.

Nas hipóteses de hepatites crônicas (B e C), o tratamento é realizado com o uso de medicamentos antivirais específicos. Se a causa for o consumo de álcool, haverá restrição completa de sua ingestão. Os especialistas lembram que desde que o tratamento (disponível na rede pública) seja adequado e acompanhado por um médico, é possível evitar que a hepatite crônica progrida para as formas mais graves.

Caroline Ehlke Gonzaga, professora da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), diz que o que mais preocupa os médicos atualmente é a hepatite relacionada à síndrome metabólica (esteato-hepatite não alcoólica), que tem uma ligação direta com a obesidade, o sedentarismo e a hipertensão arterial.

Essa doença também evolui de forma silenciosa e é a causa de cirrose que mais cresce no mundo. Investir em uma vida saudável, atividade física, controle adequado da pressão e da glicemia são fundamentais para evitar essa causa de hepatite crônica.

Suplementos devem ser evitados

Caso você seja adepto de tratamentos baseados na medicina complementar e integrativa e esteja considerando usar Silimarina do Cardo Mariano ou Prata Coloidal para combater os efeitos da hepatite C, saiba que, até o momento, não existe comprovação científica de que esses suplementos sejam eficazes e seguros para esse fim.

A Silimarina, apesar de ser considerada protetora do fígado, deve ter dose individualizada e jamais ser usada nos casos de hepatite. A Prata Coloidal também é tida como de alto risco e deve ser evitada.

Fale sempre com seu médico ao decidir usar algum suplemento ou fitoterápico para evitar efeitos como a interação medicamentosa, que ocorre quando uma substância altera o efeito da terapia indicada.

"O tratamento inadequado pode aumentar o risco de danos permanentes ao fígado. Fazer um acompanhamento nutricional com restrição de gorduras e escolhas de vegetais mais adequados como couve, brócolis e similares pode ser até mais protetor do que o uso de suplementos", fala Vanderli Marchiori, nutricionista com especialização em fitoterapia integrativa e membro da Câmara Técnica do CRN3 (Conselho Regional de Nutrição).

Mas dá para prevenir?

A resposta é sim. Fazer exames periódicos para a detecção do problema e eventual tratamento, medidas de higiene e precauções durante a prática sexual são essenciais. Mas a melhor forma de se evitar as hepatites é vacinar-se.

Embora, até o momento, não exista uma vacina para a hepatite C, as hepatites A, B e D podem ser prevenidas por meio de vacinas.

No Brasil, a vacina contra o vírus B, há muitos anos, já é oferecida nos postos de saúde para adultos e crianças, sem limite de idade. Ela também protege do vírus D. A partir de 1989, ela entrou no calendário do recém-nascido e, portanto, os nascidos a partir desta data já estão protegidos. Quanto aos adultos, menos de 50% deles foram vacinados. Daí a importância da imunização.

Em 2014, a vacina da hepatite A também entrou no calendário nacional gratuito para crianças com idade entre 1 a 5 anos (dose única), que têm uma alta produção de anticorpos, protegendo perto de 90%, diz Melissa Palmieri, da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações). Segundo ela, quem puder fazer a segunda dose, como no esquema sugerido pela SBIm, a proteção contra a hepatite A pode perdurar pelo resto da vida.

A melhoria das condições sanitárias no país e o tratamento de esgotos que contaminavam praias reduziram os surtos de hepatite aguda durante o verão. Apesar disso, em 2018 ocorreram dois grandes surtos em São Paulo e Rio de Janeiro. Essa é a razão por que os jovens devem se vacinar.

Saiba se você precisa ser vacinado ou fazer um teste para as hepatites virais

A infecção mais comum no Brasil é a hepatite C, para a qual ainda não existe vacina. Mas, segundo dados do Ministério da Saúde, o número de pessoas com hepatites virais tem aumentado rapidamente.

Como a doença pode se manter silenciosa por muitos anos, isto é, não apresenta sintomas, responda o teste a seguir e avalie seu potencial de risco. Lembre-se: este teste não substitui o devido atendimento médico.

Você já teve diagnóstico de problemas de coagulação?
Se sim, fale com seu médico sobre a necessidade de vacinar-se contra a hepatite A.

Você já teve diagnóstico de alguma doença crônica do fígado?
Se sim, fale com seu médico sobre a necessidade de vacinar-se contra as hepatites A e B.

Você ou alguém da sua família nasceu na Amazônia?
Se sim, fale com seu médico sobre a possibilidade de fazer um teste para hepatite B. O Amazonas tem altos índices de infecção.

Você vive atualmente com alguma pessoa que teve diagnóstico de Hepatite B?
Se sim, fale com seu médico sobre a necessidade de vacinação contra a hepatite B.

Você teve algum diagnóstico recente de alguma IST (Infecção Sexualmente Transmissível)?
Se sim, fale com seu médico sobre a necessidade de vacinação contra a hepatite B.

Você teve diagnóstico de diabetes?
Se sim, fale com seu médico sobre a necessidade de vacinação contra a hepatite B.

Você teve diagnóstico de HIV/AIDS?
Se sim, fale com seu médico sobre a necessidade de vacinação contra hepatite B; peça também um teste para hepatites B e C.

Você é homem e tem encontros sexuais com outros homens?
Se sim, fale com seu médico sobre a necessidade de vacinação contra hepatites A e B; e peça um teste para hepatites B e C.

Você usa drogas injetáveis?
Se sim, fale com seu médico sobre a necessidade de vacinação contra hepatites A e B; e peça um teste para hepatites B e C.

Você nasceu entre 1945-1965?
Se sim, peça a seu médico um teste sanguíneo para hepatite C.

Você recebeu alguma transfusão ou fez algum transplante antes de julho de 1992?
Se sim, peça a seu médico um teste sanguíneo para hepatite C.

Recebeu algum fator de coagulação antes de 1987?
Se sim, peça a seu médico um teste sanguíneo para hepatite C.

Já usou drogas injetáveis, pelo menos uma vez?
Se sim, peça a seu médico um teste sanguíneo para hepatite C.

Você pretende viajar para o exterior nos próximos meses?
Se sim, fale com seu médico para que ele avalie a necessidade de vacinação prévia.

Fontes: Mario Guimarães Pessoa, médico assistente-doutor da Divisão de Gastroenterologia e Hepatologia do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), membro da diretoria da SBH (Sociedade Brasileira de Hepatologia) e Secretário Geral da ALEH (Associação Latino-americana de Hepatologia); Adriana Zuollo, gastroenterologista que atua na área de hepatologia e médica primeira-assistente do Serviço de Transplantes de Fígado da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo; Caroline Ehlke Gonzaga, médica gastroenterologista, professora da Faculdade de Medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); Melissa Palmieri, diretora da SBim (Sociedade Brasileira de Imunizações), Regional São Paulo; Vanderli Marchiori, nutricionista com especialização em Nutrição Clínica, Funcional e Fitoterapia Integrativa, membro da câmara técnica do CRN3 (Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região SP-MS); com informações do Ministério da Saúde; CDC (Centers dor Disease Control and Prevention); National Center for Complementary and Integrative Health. O teste foi adaptado conforme dados do Hepatitis Risk Assessment Tool, do CDC Revisão técnica: Mario Guimarães Pessoa. Referências: Meryem Jefferies, Bisma Rauff, Harunor Rashid, Thao Lam, and Shafquat Rafiq. Update on global epidemiology of viral hepatitis and preventive strategies. World J Clin Cases. 2018 Nov 6; 6(13): 589-599.

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