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Cientista investiga a prevalência de câncer de mama hereditário no Brasil

Dirce Carraro, finalista da categoria Inovação em Câncer de Mama do Prêmio Inspiradoras 2021 - Júlia Rodrigues
Dirce Carraro, finalista da categoria Inovação em Câncer de Mama do Prêmio Inspiradoras 2021 Imagem: Júlia Rodrigues

Suzana Villaverde

colaboração para Universa

04/10/2021 04h00

Atuar na ciência para buscar melhorias na vida dos pacientes de câncer é o que move Dirce Maria Carraro, chefe do Laboratório de Genômica e Biologia Molecular do Centro Internacional de Pesquisa (CIPE) e responsável pelo Laboratório de Diagnóstico Genômico do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo. Ela é uma das finalistas da categoria Inovação em Câncer de Mama, do Prêmio Inspiradoras 2021.

A cientista foi a primeira a identificar que, no Brasil, há uma alta porcentagem (20% do total de pacientes) de mulheres com mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, associados a um tipo de câncer de mama. Tratam-se de alterações hereditárias (ou germinativas), que normalmente acometem diversas mulheres de uma mesma família.

Ter uma informação como esta significa poder atuar diretamente para reduzir o risco de complicações ou morte pela doença.

Foi o conhecimento de que tinha justamente essas mutações que levou, em 2013, Angelina Jolie à decisão de se submeter a uma cirurgia para remover as mamas. Em um artigo publicado no jornal americano The New York Times, ela contou sobre a escolha, que levou em consideração a morte da própria mãe, aos 56 anos, vítima da doença.

Desvendar novos detalhes dessa relação é fundamental para encontrar mecanismos de detecção precoce e tratamentos cada vez mais eficientes - quem sabe, não tão invasivos como o de Angelina.

Uma nova frente de pesquisa

É o que Dirce vem fazendo ao longo de sua carreira. Seu achado mais recente diz respeito ao perfil genético de um subtipo de câncer de mama menos frequente entre as brasileiras (15% das pacientes): o triplo negativo.

Depois de examinar amostras de tumores de 130 mulheres, ela identificou que um terço delas possui alterações no gene BRCA1, que predispõe também ao câncer de ovário. O levantamento mostrou ainda que neste grupo estão pacientes jovens, com menos de 40 anos.

O trabalho foi publicado em 2018 pela revista científica Breast Cancer Research and Treatment e abre uma nova e promissora frente de pesquisa.

Isso porque o diagnóstico genético não é um mero retrato do DNA de cada pessoa. Saber de que maneira nossas células estão programas pode ajudar em tomadas de decisão importantes quando o assunto é saúde.

Prevenção e tratamento

No caso do câncer, esse tipo de exame pode nortear medidas de prevenção e tratamento. Além disso, tais informações podem servir de base para a criação de políticas públicas específicas para cada grupo de paciente. "Os dados clamam para a necessidade dessas mulheres realizarem o teste genético, podendo salvar vidas", reforça Dirce.

Desde a publicação do estudo, a pesquisadora já deu novos passos. O grupo que ela lidera agora está ampliando as investigações em câncer de mama triplo negativo metastático (condição em que o câncer avança para outros órgãos).

Os dados obtidos a partir da análise de 400 casos mostram que pacientes com tumor triplo negativo que também são portadoras de mutação no gene BRCA2 têm uma frequência maior de apresentar metástases no sistema nervoso central. O estudo ainda não foi publicado.

Passamos um período muito grande só na fase de descobertas, mas cada vez mais vamos ter estratégias farmacêuticas direcionadas para intervir em cada subgrupo específico e ter avanços direcionados, que provocam um maior impacto de tratamento. Por isso é tão importante que esse conhecimento se amplie para se unir com o desenvolvimento das novas tecnologias.
Vladmir Lima, médico oncologista e um dos muitos beneficiados pelas pesquisas coordenadas por Carraro.

Ciência com impacto em políticas públicas

A aplicação de conhecimentos sobre a genética do câncer para a elaboração de políticas públicas já é uma realidade no Brasil. Em 2013, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) passou a obrigar os convênios médicos a arcar com os custos de exames de DNA em casos de algumas doenças em que esse tipo de informação pode ter impacto no tratamento. A movimentação aconteceu no mesmo ano em que o caso da atriz Angelina Jolie trouxe a discussão à tona.

A realidade é outra para quem não tem plano de saúde. Até hoje esses exames não são amplamente realizados pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Eles acontecem apenas para fins específicos de pesquisa.

Projetos de lei tramitam para mudar essa realidade. Alguns têm como objetivo tornar os testes um procedimento padrão, coberto pela rede pública para mulheres com indício de hereditariedade. Há ainda aqueles que pleiteiam o raio-X genético dos tumores (e não apenas das pacientes) para estabelecer tratamentos personificados.

Quando os testes ficarem mais acessíveis, haverá um impacto de custo e benefício na saúde, porque conseguiremos tratar as mulheres com câncer de mama de modo mais certeiro, ao invés de, como acontece de uma maneira geral, usar a mesma medicação para todos os grandes tipos de câncer.
Maira Caleffi, mastologista e fundadora da Federação Brasileira Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA).


Antecipando tendências

Nascida em Piracicaba e filha de comerciantes, Dirce foi uma garota curiosa por saber o que se estudava na então melhor faculdade de sua cidade, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). E foi o que a fez a cursar engenharia agronômica.

Lá, se interessou por pesquisas na área de genética e biologia molecular, um caminho que a levou ao pós-doutorado no Projeto Genoma Xyella, o primeiro do tipo no Brasil. A partir dele, começou suas investigações diretamente ligadas a cânceres.

Do ponto de vista genético, o câncer é muito interessante, de uma complexidade muito grande. Para alguém curiosa como eu, é muito gratificante estar em meio a pesquisas em que um conhecimento leva ao outro. Em ciência nada é automático, você não pode ficar muito tranquila porque cada dúvida te leva ao próximo conhecimento.

Sobre o Prêmio Inspiradoras

O Prêmio Inspiradoras é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. São 21 finalistas, divididas em sete categorias. Além de Inovação em Câncer de Mama, tem também: Informação para vida, Conscientização e Acolhimento, Acesso à Justiça, Equidade e Cidadania, Esporte e Cultura e Representantes Avon, dedicada às representantes da marca que realizam trabalhos de impacto.

Para escolher suas favoritas, basta clicar na votação a seguir. Está difícil se decidir? Não tem problema: você pode votar quantas vezes quiser. Também vale fazer campanha, enviando este e os outros conteúdos da premiação para quem você quiser. Para saber mais detalhes sobre a votação, é só consultar o Regulamento.

No mês que vem, durante dos 21 dias de enfrentamento à violência, uma série de lives com as finalistas de todas as categorias vai debater este e outros temas relacionados ao universo feminino. Dá para acompanhar as novidades no portal Universa e em nossas redes sociais.

A premiação é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. Tem foco em três principais causas: violência contra a mulher, câncer de mama e equidade de gênero.