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'Primeiro Eu Tive Que Morrer': livro hit nas redes traz burnout e recomeço

Primeiro romance da cearense Lorena Portela, 36, lançado de maneira independente, virou sucesso entre público feminino - Divulgação
Primeiro romance da cearense Lorena Portela, 36, lançado de maneira independente, virou sucesso entre público feminino Imagem: Divulgação

Mariana Toledo

Colaboração para Universa

26/07/2021 04h00

"Um inventário da autodescoberta de uma mulher que nem se imaginava perdida." É assim que Lorena Portela, 36, define a história de "Primeiro Eu Tive Que Morrer", seu romance de estreia.

Jornalista nascida no Ceará, ela deixou Fortaleza em 2015 e, após um período em Lisboa, hoje vive em Londres. Foi a mudança para a Inglaterra, inclusive, que deu o pontapé inicial para que Lorena começasse a escrever seu livro.

A obra, publicada de maneira independente, já soma mais de seis mil exemplares vendidos — a título de comparação, no Brasil, normalmente as tiragens de primeiras edições chegam a no máximo dois mil exemplares, aproximadamente.

Só durante a pré-venda, anunciada no Instagram pessoal da autora (@portelori), foram comercializadas mais de 300 cópias. E a lista de fãs da obra já conta com nomes como as apresentadoras Sarah Oliveira e Roberta Martinelli e as atrizes Alice Wegmann e Julia Konrad.

Primeiro Eu Tive que morrer' é o romance de estreia de Lorena Portela - divulgação - divulgação
'Primeiro Eu Tive Que Morrer', romance de estreia de Lorena Portela, foi lançado de maneira independente
Imagem: divulgação

Lorena chegou à bem-sucedida marca não exatamente sozinha, mas com ajuda de outras mulheres. Dona da própria carreira, ela escreveu, cuidou das impressões, se responsabilizou pela distribuição, conversou diretamente com as livrarias, tocou vendas por WhatsApp e fez todo o seu marketing via redes sociais. Já a edição, a revisão, as ilustrações e a capa ficaram por conta de profissionais e artistas mulheres - muitas que já eram amigas da autora —como a influenciadora Carol Burgo, que assina o desenho da capa.

Na contramão de muitos livros independentes, que são lançados primeiro no formato eBook e depois impressos, o eBook de "Primeiro Eu Tive Que Morrer" só chegou na Amazon quatro meses depois do lançamento impresso — e já vendeu mais de mil livros digitais e tem quase 500 avaliações na loja online. Uma parte dos livros — a que é distribuída no Brasil — é impressa em Fortaleza e no Rio de Janeiro, e a outra, distribuída para o resto do mundo, em Londres.

A história da história

Em 2019, Lorena morava em Lisboa, Portugal, e escrevia um livro de contos como hobby. Eram contos de amor ambientados em cidades diferentes - um desses lugares era Jericoacoara, no Ceará, de onde ela guarda boas lembranças. Na trama, a protagonista se envolvia com uma mulher, Glória. "

Fui me apegando muito a esse conto, gostando dele cada vez mais. A história foi crescendo e tomando forma - foi quando decidi transformá-la em um romance", conta. "Nessa época, tudo já estava estruturado na minha cabeça. Só faltava sentar e escrever".

Então, no começo de 2020, ela se mudou para Londres com o marido e, pouco tempo depois, foi decretado o lockdown na região por conta da pandemia de covid-19. Lorena, que havia se inscrito para algumas vagas de trabalho, teve as entrevistas canceladas. Era o sinal que ela precisava. "Adotei o livro como um projeto pessoal, já que teria que ficar em casa mesmo. E, como tinha um certo dinheiro guardado, poderia me dedicar a ele".

O romance conta a história de uma jovem publicitária (cujo nome não é revelado) que, em meio à rotina extremamente estressante do trabalho em uma agência — onde ela entra de manhã e sai tarde da noite, tem uma dieta à base de pizza e café e mal consegue descansar e se divertir —, se vê obrigada a dar uma pausa em nome de sua saúde física e mental.

Com oito semanas de folga pela frente, ela se refugia na vila paradisíaca de Jericoacoara, no Ceará. Nesse novo dia a dia de mergulhos no mar, sol escaldante e tempo livre de sobra, ela se conecta com outras mulheres — de origens, idades e personalidades diferentes — e vive um comovente e misterioso renascimento, em um processo que inclui encarar de frente alguns fantasmas, medos e traumas do seu passado.

"É difícil responder o que no livro é autobiográfico e o que não é. Como é uma história protagonizada por mulheres, não sei dizer ao certo onde eu me misturo nisso tudo. Acho que estou toda misturada na história - como indivíduo, filha, amiga, profissional, ouvinte. Às vezes digo que ele é autobiográfico porque, afinal, é sobre o que vejo e sinto. São coisas que saíram da minha cabeça. É uma história de ficção, sim, mas com alguns traços meus e coisas que vivi de verdade", diz. "Por exemplo: eu também fui publicitária, tive um período muito estressante na publicidade, tenho um elo com Jeri, que é o lugar que mais amo no mundo? A escolha do local foi bem afetiva. Ou seja, há pinceladas de mim ali. É uma autoficção, como diz a escritora Tati Bernardi."

As mulheres da história são descritas ao leitor com mais características relacionadas à personalidade, estilo e trejeitos do que traços físicos. "Foi uma escolha proposital. Sem as características físicas detalhadas, fica mais fácil das pessoas se identificarem, enxergarem gente que elas conhecem ali".

A autora revela que a construção das personagens veio da observação de mulheres e dá mais detalhes a respeito das inspirações por trás da criação de cada uma: "A Sabrina existe na vida real, tem esse nome, é exatamente como descrevo no livro. Então foi fácil. Já a Guida é uma personagem que tem um pouco de cada mulher da minha família - a doçura da minha mãe, a sabedoria não muito ligada aos estudos, e sim à observação, da minha vó e das minhas tias. A Glória tem muitas características de amigas minhas. Ou seja, fui misturando. A gente recebe muita informação ao longo da vida, de pessoas com quem cruzamos. Trouxe tudo isso para a história".

Projeto independente

Lorena garante que não tinha muitas pretensões com o livro. "Era um projeto meu, algo que eu gostava de fazer. Publicar um livro era um sonho. Mas no passado, antes do boom das redes sociais, eu ajudei uma amiga a publicar um livro. Era um livro maravilhoso, de poesias. Ela é supertalentosa. Mas foi muita ralação vender o livro! Muita mesmo. Por isso, no meu subconsciente, eu imaginava que o processo de publicar de forma independente seria um perrengue", diz.

Nas contas da autora, ela imprimiria cerca de 200, 250 livros: "Ficava com dó. Pensava 'poxa, eu gosto tanto dessa história e ela vai ficar encalhada. Minha mãe, meus irmãos, amigos e conhecidos vão comprar e só, vai acabar aí'. Mas, mesmo assim, queria entregar o melhor trabalho possível".

Lorena foi atrás de mulheres parceiras para entrar nessa jornada ao lado dela. E muitas delas tiveram com o "Primeiro eu tive que morrer" suas "primeiras vezes": foi o primeiro livro de Lorena, a primeira capa de livro de Carolina Burgo, a primeira edição profissional da revisora Raquel Lima e a primeira diagramação literária de Camilla Leite — todas suas amigas. "A gente não tinha grandes pretensões. Acreditávamos no potencial do projeto, claro, mas dentro de um universo micro. Não imaginávamos que ele fosse chegar em certos lugares com a facilidade que chegou", afirma a autora.

Ao vender 300 cópias logo na pré-venda, ela sentiu "que viriam coisas legais pela frente. Então, comecei a pensar nos próximos passos. Como enviar o livro para influenciadoras e postar trechos no meu Instagram, por exemplo. Mas foram coisas do processo - fui entendendo e fazendo. Não é que desde o começo eu já tinha tudo planejado. Não sou do mercado editorial, não sabia como essas coisas funcionavam. Fui aprendendo".

Para ela, a experiência passada na área da publicidade ajudou: "Sabia que postar teaser era uma coisa que aguçava a curiosidade das pessoas. E que, para chamar a atenção, eu precisava de uma capa bonita e de um título forte também. Isso faz as pessoas repostarem".

Sonhos para o futuro

"Primeiro Eu Tive Que Morrer" não completou ainda seu primeiro ano de vida. Por isso, Lorena acredita que ainda tem muita coisa para acontecer com ele — principalmente, a história chegar para mais pessoas. Ela cogita produzir uma versão traduzida para o inglês, por exemplo. "Uma continuação eu não enxergo. Acho que a história já está bem redondinha".

Mas ela já tem uma nova narrativa em vista, na qual já está trabalhando. "Está muito no comecinho ainda, então tudo pode acontecer. Mas é uma história que eu gosto muito. Estou animada para sentar e escrever de verdade. Por enquanto, estou fazendo pesquisas. É uma personagem muito diferente de mim, demanda bastante estudo", adianta.

Para além desse próximo livro, Lorena também tem vontade de escrever histórias de mulheres empreendedoras. "É um assunto que me interessa muito. Talvez pela minha mãe, que sempre fez de um tudo na vida — bolo, comida, trabalhou com roupa. Ao redor dela também tinha uma comunidade muito grande de mulheres microempreendedoras. Mulheres movimentam coisas demais. Não só economicamente, mas socialmente, na família. E em qualquer lugar do mundo, não só no Brasil. Tem muita coisa bonita por trás do que as mulheres fazem. São histórias que gostaria de contar um dia".

Nessa carreira — ainda nova — de escritora, Lorena se inspira em diferentes mulheres da literatura, como Rachel de Queiroz, de quem ela é grande fã por conta especialmente dos regionalismos presentes em sua escrita; Lygia Fagundes Telles, pelo talento com o drama e o mistério; e Elena Ferrante, que ela considera "uma grande inspiração para todas as mulheres".

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