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Aline Bei, autora de "O peso do pássaro morto": "Dor da mulher é maior"

A escritora Aline Bei, autora da obra "O peso do pássaro morto" - Lorena Dini
A escritora Aline Bei, autora da obra "O peso do pássaro morto" Imagem: Lorena Dini

Júlia Flores

De Universa

16/02/2021 04h00

"Minha mãe insistia. Dizia que o amor era um vento, logo passa e começa outro com tanta naturalidade que você nem percebe", escreve Aline Bei em um trecho de "O peso do pássaro morto". O livro, uma obra de prosa-poesia com 165 páginas, foi lançado em 2017 e, além da fama, já ganhou importantes premiações nacionais, entre eles o Prêmio Literatura São Paulo de 2018.

Não é raro de se encontrar fotos, frases ou excertos do "Pássaro" (como a própria autora o chama) nas redes sociais. Seria Aline a nossa Rupi Kaur, escritora americana sucesso de compartilhamento entre os jovens no Instagram? Com uma voz doce, um tom tranquilo e uma narrativa inquietante, Bei atende Universa logo após uma ida aos Correios, onde acabara de despachar algumas unidades de seu "filho".

"Antes eu ia todo dia, agora vou menos", comenta. É ela a responsável pela distribuição do livro que, de boca a boca, de post em post, foi ganhando uma legião de fãs. O exemplar foi lançado por uma editora independente, demorou a chegar às livrarias, e seu sucesso se deve, majoritariamente, à dedicação de Aline.

A autora conta que mesmo depois da popularização da obra, não deixou de vender os próprios livros, todos com dedicatórias feitas à mão. "É assim que me sustento. Sou só escritora", brinca. Aos 33 anos e prestes a lançar seu segundo romance, Aline Bei entendeu como usar as redes sociais a favor da literatura, se transformou em uma "ativista da leitura" e é hoje uma das autoras mais instagramáveis do Brasil. Em conversa com Universa, ela conta mais sobre a carreira, seu processo criativo e como transforma dor em likes.

UNIVERSA - Já faz 4 anos que você lançou o "Peso do pássaro morto" e até hoje é você quem comercializa a obra, mesmo depois de ele ganhar prêmios e se popularizar na internet. Por quê?

ALINE: Sim, eu sigo vendendo e divulgando meu livro nas redes sociais. Eu acredito nessa ponte de formar leitor, porque na livraria as obras estão todos ali, juntas, e acho difícil para um livro contemporâneo ter uma vida mais longa se o autor não trabalhar pesado em cima dele; se eu não tivesse feito o trabalho que fiz e continuo fazendo, tenho certeza que o "Pássaro" não teria sido lido como foi. Gosto muito de formar essas pontes. Ter diálogo com o público. Além disso, a gente sabe que o Brasil tem poucas livrarias, e elas ficam concentradas na região de São Paulo, Rio de Janeiro e na região sul. E eu gosto de vender para o Brasil todo. Outra questão mais prática é que, vendendo assim, eu consigo dinheiro para me manter, se eu for esperar direitos autorais, eles demoram muito pra chegar e eu sou só escritora (risos). Às vezes preciso lembrar que sou só uma pessoa, mas de alguma forma sou responsável por ver o meu livro pingando por aí - e eu acho isso muito bonito.

Nenhum prêmio te permitiu viver só de escever?

Ganhar o Prêmio Toca fez com que eu pudesse publicar o livro sem custos para mim, então não foi um prêmio financeiro. Com o Prêmio São Paulo ganhei R$ 100 mil. Na final, competi só com autores homens. Eu guardei esse dinheiro, porque sou artista e não recebo um salário mensal. Acabei usando como se fosse uma bolsa de estudo, uma reserva que eu tinha para continuar escrevendo, assim consegui terminar meu segundo livro, que vai sair esse ano também. Então o dinheiro me ajudou a me manter focada no trabalho. Consegui ficar em um período de imersão, que é o que escrever um romance necessita.

Como você se descobriu escritora?

Sou formada em Teatro na Escola Célia Helena, mas a profissão começou a pesar no bolso e decidi fazer uma segunda graduação, em Literatura. Foi durante uma oficina de escrita, anos depois, que me contaram que estava na hora de eu publicar meu livro; talvez por mim eu teria demorado mais, porque sempre fui leitora e imaginava que para você publicar um livro você teria que estar com uma linguagem totalmente amadurecida. Eu escrevia textos curtos desde a época da faculdade, e comecei a tentar juntar tudo em uma obra de contos. De qualquer forma, olhar para textos antigos me mostrou quais eram as minhas obsessões, eu nunca tinha reparado que os temas que eu gostava de escrever eram recorrentes, de alguma forma.

E qual é a sua principal obsessão?

A perda era um tema que estava em muitos textos meus. Quando eu comecei a pensar em escrever um romance, eu decidi encontrar um tema sobre o qual eu poderia falar apaixonadamente, de um jeito natural. Então decidi escrever sobre perdas e assim que o Pássaro nasceu.

O Pássaro é sobre perdas? Para mim era sobre a dor de ser mulher.

O livro é aberto. Quando decidir escrever sobre o verbo perder, logo decidi que esse verbo seria ocupado pelo corpo de uma mulher. As perdas são muito do universo feminino. É claro que todo ser humano sofre, mas vivendo em um mundo extremamente machista, a gente sabe que nossas dores acabam sendo maiores. Eu gosto muito de escrever sobre o ser mulher no mundo. Então esse verbo está nesse exercício do feminino. De qualquer forma, eu também gosto de olhar para esse acolhimento que nós, mulheres, estamos exercendo com a gente mesmo. Esse feminismo que está chegando mais cedo para as mulheres.

Os "vilões" do Pássaro são homens, certo?


Não acho que meus personagens homens são malvados. É que no caso do Pássaro, muitos deles estão a serviço dessa narrativa sobre perdas. Um deles, inclusive, acho que sofre pelo que a protagonista não diz, não faz. Como é um livro em primeira pessoa, focado em uma mulher com uma vivência de muita dor, ele quase não tem espaço para o próprio sofrimento. Eles são vítimas da masculinidade tóxica que os atravessa. Não gosto de colocar meus caracteres como pessoas rasas, boazinhas ou más, somos mais complexos do que isso.

O feminismo te inspira?

Ser mulher é um dos meus assuntos, então eu gosto muito de ouvir as outras mulheres, gosto muito de observá-las no mundo. O feminismo está muito conectado a isso. Recentemente surgiram vários clubes de leitura focados em autoras mulheres, redescobrimos muitas escritoras do passado. Eu acho lindo esse movimento de várias pessoas se juntando para trazer a mulher pra pauta e pro protagonismo que ela merece.

E quem são os autores que te inspiram?

Quando escrevo, gosto de deixar livros do meu lado, porque, de repente, se eu perco a concentração, ou quero entender o ritmo da cena, eu leio alguma coisa de outro autor e consigo captar. Gosto muito de autoras mulheres, da Clarice Lispector, da Hilda Hilst. Eu estou lendo agora uma escritora americana que estou amando, que chama Lucia Berlin.

Você acha que, na contramão das redes sociais, estamos lendo mais?

Acho que os brasileiros estão lendo cada vez mais. Somos um país de poucos leitores ainda, mas eu gosto de atuar no ativismo da literatura. De vender minhas obras. Eu já vendi exemplares para pessoas que falaram que aquele era o primeiro livro que lia. Ler literatura é importante para despertar empatia, despertar sensibilidade. É muito lindo o quanto a literatura pode ajudar a gente a ser mais sensível, entrar no mundo do outro, ter mais empatia, eu acho que é isso que o mundo precisa.

Dá para notar que você é bem ativa no Instagram e quebra um pouco o estereótipo do que imaginamos por uma escritora - suas fotos são bem moderninhas, aliás. Você se importa com padrões?

Uso muito as redes sociais, principalmente o Instagram. É uma rede que entendeu bem o nosso tempo de hoje. Tem muito leitor em potencial naquela rede. A gente tem que ser quem a gente é. Não deixei de ser quem eu sou porque publiquei um romance. Eu escrevo desde os meus 20 anos e sempre fui eu mesma. Venho do teatro, que é uma profissão da comunicação externalizada, gosto muito de conversar com o outro, de estar em grupo. O importante é não ter regras para ser.O importante é não ter regras para ser.

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