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Racismo e fé: mulheres negras relatam preconceito dentro de igrejas

Sarah Arruda tem 18 anos e frequenta igrejas evangélicas desde a infância - Arquivo Pessoal
Sarah Arruda tem 18 anos e frequenta igrejas evangélicas desde a infância Imagem: Arquivo Pessoal

Júlia Flores

De Universa

23/06/2021 04h00

No começo de junho, um músico de 22 anos registrou um boletim de ocorrência denunciando racismo em uma Igreja Adventista que fica localizada em Goiânia, capital de Goiás. Pedro Henrique Santos alega ter sido impedido de se apresentar no local por um pastor que não considerou o seu cabelo adequado para o ambiente.

O músico tem cabelo black power e não é o único nem o primeiro a ouvir de colegas religiosos que o próprio visual estava inadequado para a igreja por causa dos fios afro. A seguir você lê o depoimento de Sarah, Ellen e Brenda, três mulheres que passaram por situações parecidas com a de Pedro. Vale lembra que injúria racial é crime previsto no Código Penal que prevê pena de reclusão de 1 a 3 anos por crimes desse tipo. Leia mais a seguir:

"Ouvi que meu cabelo era extravagante"

"Alguns fiéis ficam presos a doutrinas antigas e acham que o nosso cabelo é polêmico", comenta Sarah - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
"Alguns fiéis ficam presos a doutrinas antigas e acham que o nosso cabelo é polêmico", comenta Sarah
Imagem: Arquivo Pessoal

"Sou evangélica desde criança e frequentei vários tipos de igreja. Tenho cabelo crespo cacheado. Ele é bem volumoso e sempre chamou atenção. Um dia, quando eu tinha 15 anos, fui para o culto com ele molhado. Do nada uma fiel com quem eu nunca tinha conversado chegou em mim e falou: 'Nossa, que bom que você veio com o cabelo molhado hoje. Não gosto dele daquele outro jeito, porque é muito extravagante. Você devia usar assim sempre'. Foi uma situação muito constrangedora. Não consegui mais voltar àquele lugar. A gente sabe que isso é um tipo de racismo, porque o cabelo crespo é uma forma de resistência.

Antigamente eu fazia parte de um grupo de amigos evangélicos que era formado, na maioria, por brancos. As meninas brancas eram convidadas para eventos, eram consideradas lindas, eram paqueradas, e eu não. Um dia chegaram para mim e falaram que e era 'até bonitinha, mas a minha colega branca que era bonita de verdade'

Certa vez fui em uma igreja que tinha uma menina de cabelo crespo bem volumoso e outra branca de cabelo ondulado. Me falaram: 'Olha, Sarah, essa menina (a branca) sim tem um cabelo bonito de verdade, mas a outra está com aquele penteado para chamar atenção'.

A igreja que frequento atualmente abre bastante o debate sobre o assunto. Trabalho com adolescentes na minha congregação, então sempre trago o tema para debate.

Recebo muitas críticas por ser ativa politicamente. Falam que eu não sou crente de verdade por me envolver em pautas sociais, por não concordar com violências cotidianas. Eu também me considero feminista, mas hoje em dia tenho muitas críticas ao movimento, por não abraçar o recorte racial.

Sou filha de um pai e uma mãe negra, então desde pequena eu cresci ouvindo sobre o assunto, e aprendi a me amar como eu sou. Sabemos, porém, que a sociedade é racista e muita gente acha que dentro de uma igreja não acontece racismo, mas acontece sim. No momento em que vivi isso na pele, fiquei chocada. Pensei comigo mesma: 'mas essa pessoa não deveria pregar o amor de Cristo e tratar as pessoas com amor, só que ela prefere me magoar e falar sobre o meu cabelo?'.

Esses episódios afetaram a minha autoestima. Apesar de eu sempre responder o racismo que sofro, nesses momentos eu senti uma insegurança e vi problemas em mim que eu não achava que tinha. É difícil ouvir comentários maldosos de pessoas que deviam dar acolhimento.

Em crenças de matriz africana existe muito mais representatividade. Acho bem interessante, é triste ver que nas igrejas cristãs isso não acontece. Se uma pessoa não se vê ali, como é que ela vai se sentir bem? Além disso, não acho que fé e racismo combinam. Algumas pessoas que se denominam cristãs pegam trechos da Bíblia e modificam o que está ali para expor opiniões próprias. Com a desculpa moralista de não ser assim na época dela, etc. Esses fiéis ficam presos a doutrinas antigas e acham que o nosso cabelo é polêmico." Sarah Arruda, 18, técnica em fotografia, de Jandira (SP). Ela preferiu não revelar em qual igreja sofreu racismo

"Você tem que prender o seu cabelo para ficar bonitinho"

Após ouvir comentários racistas sobre seu black power, Ellen decidiu mudar de religião - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Após ouvir comentários racistas sobre seu black power, Ellen decidiu mudar de religião
Imagem: Arquivo pessoal

"Fiz catequese aos 12 anos e recebia muitos comentários sobre o meu cabelo. 'Por que você não o prende? Não vai em um salão fazer um procedimento para alisar e abaixar a raiz?'.

Sou de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Fazia catequese na Cidade Alta. Por curiosidade, eu visitei duas igrejas evangélicas, lá pelos 14 anos - uma foi a Assembleia de Deus e a outra, Universal. Na primeira vez que fui à igreja evangélica com uma colega, ela me perguntou: 'você vai prender seu cabelo, né? Tem que ir com ele bonitinho'. Eu respondi pra ela que ia com o cabelo do jeito que quisesse, porque era aquilo que Deus tinha me dado. Ela começou a rir e continuou: 'Mas na igreja você tem que ir arrumada'.

Lembro que todas as fiéis desse local, tanto criança quanto senhoras mais velhas, estavam com o cabelo preso e alisado. Não gostei do meio, não me senti bem. Esses comentários impactaram bastante a minha autoestima, porque eu já tinha ouvido esse tipo de fala antes, fora da igreja.

Uma colega me relatou que também sofreu episódios de racismo na igreja evangélica que frequentava. Chegou a ser chamada de suja por outros fiéis. Ela disse que o sonho dela era ter os cachos definidos como o meu

Consegui aceitar meu cabelo natural aos 18 anos, já fora do ambiente religioso. Vejo que demorei muito tempo para me aceitar. Durante esse tempo, fiquei fazendo permanente e chapinha. Pelos comentários que recebia dentro e fora da igreja. Penso que devia me sentir acolhida e bem recebida nesses lugares. Por sorte, por mais que as pessoas falassem que eu não era bonita, minha mãe e meu pai sempre cuidaram da minha autoestima.

Hoje em dia sou praticante de candomblé. Por lá, nunca fizeram nenhuma referência ou comentário maldoso sobre o meu cabelo. Até porque é uma religião de matriz africana. Você ter um cabelo crespo é normal

Tanto na Igreja Evangélica quanto na Católica você vê a representação de Santos e de Deus embranquiçados, com cabelos lisos. Você nunca vê um ser divino que te represente, que abrace quem você é. Na prática, você repara que as instituições religiosas cristãs são discriminatórias. Acredito em Deus, em Jesus, mas de um jeito diferente." Ellen Telácio, 20, socorrista, de Duque de Caxias (RJ)

"Nem todo cristão acolhe"

"Sofri com alguns episódios racistas na igreja. Em 2017, quando eu me mudei para Curitiba, participei de núcleos congregacionais de igrejas neopentecostais e não fui tão bem recebida, ninguém falava comigo. Tentei me enturmar, socializar, e não tinha essa liberdade, foi bem difícil.

Certa vez, quando eu estava chegando na casa em que ia acontecer uma célula de oração, encontrei um colega no caminho. Ele não me cumprimentou e deixou a porta fechar na minha cara. Eu identifiquei que ele só fez isso por eu ter uma cor de pele diferente. Outra vez, a filha de um líder religioso se escondeu atrás da mãe, não queria me dar um 'oi' por medo.

Depois de um tempo, entrei em um grupo no Facebook de memes evangélicos. Reparei que as imagens de mulheres bonitas usadas nas figurinhas seguiam sempre um padrão branco. Quis criar um meme com meninas negras e nesse post recebemos vários comentários criticando o nosso cabelo.

A professora de música Brenda Anjos ouviu comentários ofensivos sobre seu cabelo em igrejas neopentecostais que frequentou  - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A professora de música Brenda Anjos ouviu comentários ofensivos sobre seu cabelo em igrejas neopentecostais que frequentou
Imagem: Arquivo Pessoal

Foi quando decidimos criar um grupo só de mulheres negras cristãs, o Cacheadas SAC, um grupo em que falávamos sobre preconceitos que sofríamos na igreja e também compartilhando dicas de como cuidar dos fios.

Por mais que esse tipo de comentários e olhares tenham acontecido dentro da igreja, eu nunca deixei de frequentar o culto por causa disso. Eu sei em quem eu acredito e tenho uma opinião formada sobre mim, sobre minha aparência. Sempre entendi que não deveria deixar o preconceito me atingir. No começo da minha adolescência eu pensei em mudar de cabelo por causa desses comentários, mas eu desisti, porque aprendi a aceitar, cuidar e amar meus fios."

A Igreja é um ambiente de acolhimento sim, mas nem todo cristão acolhe. Muitas pessoas não vivem o que pregam. Elas falam sobre julgamento e elas julgam." Brenda Anjos, 22, professora de música. Santos (SP). Ela preferiu não revelar em qual igreja sofreu racismo

O que fazer se sofrer um episódio de racismo?

Na opinião da advogada e presidenta da comissão de Igualdade Racial da OAB-PE Manoela Alves, é importante ressaltar que os atos de racismo que essas mulheres - e Pedro — sofreram é estrutural, e podem acontecer em qualquer ambiente.

Ela explica que uma pessoa pode, sim, ser presa por cometer injúrias utilizando elementos de raças e que esse é um crime previsto no Código Penal: "Temos o artigo 140, parágrafo 3, que prevê pena de reclusão de 1 a 3 anos por crimes de injúria racial. Ou seja, uma pessoa pode ser presa, sim, por fazer comentários ofensivos sobre o cabelo de outra. Qualquer fala que tenha teor discriminatório é passível de penalização".

Nenhuma das personagens da matéria registrou queixa pelas ofensas recebidas. Para elas, resistir ao racismo é não sucumbir às críticas e manter o black em dia. Para quem discordar, a socorrista Ellen Telácio tem um recado: "O Jesus que eu conheço não despreza, ele não falaria mal do meu cabelo pra mim".

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