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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulheres brancas são racistas e por que dizer isso me custou 300 seguidoras

A geógrafa e influenciadora Mariana Almeida - Arquivo pessoal
A geógrafa e influenciadora Mariana Almeida Imagem: Arquivo pessoal
Mariana Almeida

Mariana Almeida

Geógrafa e pesquisadora sobre os Estudos sobre a Mulher, Gênero, Sexualidade e Relações Raciais. Criadora de Conteúdo através do perfil @falacomamari no Instagram. Estuda e trabalha há 8 anos com temáticas acerca das relações de poder que envolvem as questões de gênero, sexualidade e relações raciais - através de palestras, mesas, oficinas e grupos de estudos.

Colaboração para Universa

14/04/2021 04h00

Vou te contar uma história, mas começarei pelo final: perdi mais de 300 seguidoras no meu Instagram ao afirmar que mulheres brancas são racistas.

Minha história começou no último dia 31 de março, quando publiquei um vídeo chamado "Lugar de Fala e umas verdades". Sempre posto nas minhas redes sociais conteúdos relacionados a questões raciais. O objetivo deste, em especial, era tratar de maneira didática e acessível o conceito de "lugar de fala" e propor a quem me assistisse uma reflexão.

Durante o vídeo afirmo que todos nós temos uma posição no mundo, ou seja, partimos de algum lugar. Eu, Mariana, 27 anos, sou uma mulher cis, negra e periférica. Fui a primeira pessoa da minha família a ingressar em uma universidade. Mas e você? Qual o seu lugar? Talvez você que me lê nesse momento seja uma mulher, cis e branca. Ou talvez uma mulher, trans e negra. As possibilidades são múltiplas! Somos atravessadas por diferentes eixos como raça, identidade de gênero, classe, sexualidade, corporeidade. Mas uma coisa é certa: o local de onde você parte vai envolver todas as suas experiências e vivências. Entender a nossa posição no mundo é fundamental para nos posicionarmos diante dele.

Afirmar que todos nós temos uma posição no mundo é afirmar que todos nós temos lugar de fala. Precisamos deixar de lado a ideia de que o lugar de fala é uma habilitação que nos permite ou não opinar sobre algo

Significa dizer que, mesmo não pertencendo ao grupo protagonista de uma causa ou luta, você possui lugar de fala nela. Ainda que o seu espaço nesse debate não seja o de estar à frente das pautas, você deve refletir sobre sua postura e sua posição social, entendendo a sua responsabilidade diante de preconceitos, violências e sistemas de opressão. Como, por exemplo, no racismo.

Mas como a afirmação de que toda mulher branca é racista entra nessa história? Sou feminista e dentro desta luta defendo a necessidade e a urgência de trabalharmos com recortes. Nós, mulheres, não somos algo singular, somos plurais. Não podemos contar a história ou propor mudanças na sociedade, ignorando que nossas experiências são diferentes. Essa foi a provocação feita por mim à mulher branca.

O debate sobre gênero não pode acontecer alheio ao debate sobre raça. Se a mulher negra existe, só é possível falar sobre 'mulher' falando sobre raça. Do contrário estaremos ignorando a existência de mulheres negras. É importante sinalizar que sofrer a opressão de gênero não impede a mulher branca de ser racista

O racismo é estrutural, ou seja, estrutura toda a nossa sociedade. Logo, brancos(as) são beneficiados dentro dessa lógica e possuem privilégios. Todos os brancos recebem essa "vantagem social", sendo assim, compreender que são parte desse sistema é o primeiro passo para construir uma postura combativa a ele.

Indicar uma opressão significa, entre outras coisas, convidar a parte que se beneficia - ao receber vantagens sociais - para o debate. Nós, de modo geral, devemos aprender a ouvir. A fala é potente, mas a escuta é uma ferramenta poderosa para a transformação. É na escuta que você, branca, conhece um pouco da minha experiência enquanto mulher negra. A escuta permite entender que mulheres brancas e negras experimentaram o mundo de maneiras diferentes ao longo da história.

Perder mais de 300 seguidoras ao alertar a mulher branca sobre a sua responsabilidade por compor uma estrutura que oprime as mulheres negras indica que ainda temos um longo caminho pela frente. Fui atacada, xingada e acusada de estar fragmentando o movimento feminista porque sinalizei a importância de ser vista e reconhecida. É preocupante que isso tenha acontecido.

Não querer ser racista é diferente de não ser. Afirmar que toda mulher branca é racista é antes de tudo um alerta, um chamado: reconheçam-se como parte dessa estrutura, para poder se posicionar diante dela de maneira combativa

Por fim, fica aqui mais uma provocação: se a afirmação de que mulheres brancas são racistas não tivesse partido de uma mulher negra e sim de uma criadora de conteúdo branca, como seriam as respostas ao vídeo? Ela seria atacada ou o conteúdo viralizaria?