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Quesia Freitas: "Não adianta ficar casada só pra dizer que tem uma família"

A cantora e empresária Quesia Freitas - Instagram
A cantora e empresária Quesia Freitas Imagem: Instagram

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

27/11/2020 14h20

"Eu continuo acreditando que ter um marido para formar uma família é o maior presente que Deus pode dar. Mas agora eu sei que é preciso avaliar. Não adianta manter uma situação dessas [de violência] e continuar casada só para dizer que tem uma família", afirma a empresária e cantora gospel Quesia Freitas, em entrevista a Universa, quase uma semana depois de ser agredida em público, em um shopping do Rio de Janeiro.

A briga teria começado por conta de um achocolatado: o casal foi tomar um café e o estabelecimento não tinha a marca da preferência de Bruno, o então marido, e só terminou quando os dois foram levados à delegacia e a cantora prestou queixa. Apesar de o episódio da última sexta-feira (21) ter se tornado público, ele não foi o primeiro: Quesia já havia registrado ao menos outros quatro boletins de ocorrência contra o ex-companheiro, que está foragido e de quem ela agora tenta uma separação litigiosa.

A Universa, ela relata como passou a primeira semana após o ocorrido: noites sem dormir, apoio do pastor, tentativa de se isolar em um retiro e contato com outras vítimas de violência, com quem divide um conselho: procurem ajuda.

UNIVERSA: Como você tem passado os últimos dias desde que prestou queixa?

Quesia Freiras: Foram dias bem cansativos, minha cabeça não está aguentando mais, mas eu estou surpresa com o apoio de mulheres e também de homens. A gente fala muito das mulheres, e é claro que a gente tem que ser defendida, mas é preciso mudar esses homens, para que não haja mais vítimas.

Em uma semana, não posso dizer que estou 100%, mas na minha pequena força vejo que posso ajudar outras pessoas. Recebi muitos relatos, alguns pedindo socorro. Uma mulher hoje mesmo me mandou uma foto mostrando o olho inchado e dizendo "pensei em você, não posso denunciar, tenho medo". A gente vai ter que se organizar para ajudar essas mulheres.

Eu me preocupo porque sei que, enquanto eu tive essa visibilidade, outras que não têm. Precisamos abrir os olhos para meninas que não têm um irmão cantor, por exemplo [Quesia é irmã de Juninho Black, que divulgou o vídeo das agressões nas redes sociais].

Hoje foi a primeira vez que eu consegui dormir por 5 horas. Até ontem, não tinha conseguido ter mais do que três horas seguidas de sono. Dá um misto de ansiedade, apreensão pelo que está por vir. Hoje eu volto a trabalhar, estou saindo para atender clientes. Tenho que retomar a vida normal. Vou mergulhar no trabalho, se não a vida para.

Você contou que já havia sofrido outras agressões até mais graves do as que foram filmadas no sábado. Acredita que ver de fora, assistindo aos vídeos, te ajudou a entender pelo que estava passando?

Sem dúvidas. Eu estava com dificuldade de entender a realidade. É uma coisa muito louca, só quem passa entende. Quem olha de fora pode pensar que eu não tomei a atitude certa porque eu não quis, mas [um relacionamento abusivo] é uma prisão psicológica. Parece que você se coloca dentro de uma cela e, mesmo sabendo que tem saída, que a porta está aberta, você não sai. É um terror.

Tudo começou porque uma moça que filmou tudo teve a coragem de divulgar o vídeo. Ela poderia não ter divulgado por medo. Se não fosse por ela, teria sido mais uma agressão. Mas, quando eu vi o vídeo, comecei a me perguntar por que eu estava passando por aquilo.

De certa forma, as pessoas que filmaram e divulgaram me mostraram que a porta estava aberta, disseram: "Vem, não tem lobo mau aqui fora".

As pessoas mandam mensagem perguntando por que eu não tomei essa atitude antes, fazem críticas nesse sentido, e eu não vejo mal, agora eu entendo que realmente poderia ter feito diferente. Mas não fico pensando nisso o tempo todo, se não entro em depressão.

Quesia Freitas foi agredida em público pelo marido - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook

Quesia Freitas - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

E, uma semana depois, como você está digerindo tudo o que aconteceu? Consegue fazer um balanço do que mudou na sua vida?

Tentei ir para um retiro para ver se eu colocava a cabeça no lugar, recolocava minhas energias, mas voltei antes do tempo [Quesia passou 4 dias no local, em Belo Horizonte]. O telefone não parou, muitas vezes era a polícia me ligando, fazendo o trabalho dela, e eu tinha que responder.

Por incrível que pareça, aquilo que era para me derrubar está servindo como uma escada. Vejo florescer um jardim que estava seco. Terminar esse relacionamento doeu, não adianta mentir, ainda dói. Mas é preciso fazer uma escolha e eu escolhi o amor próprio.

Cantar tem me feito bem e passar tempo com meus filhos também, quero curtir com eles, recuperar o que nos foi tirado [segundo depoimento de Juninho Black nas redes sociais, Quesia perdeu a guarda do mais novo, de 7 anos, por conta do comportamento agressivo de seu ex-companheiro].

Você esteve com seus filhos esta semana?

Sim. O pai do mais novo me mandou mensagem chamando para vê-lo e está me ajudando desde que me separei. Ele não tem a intenção de impedir que eu veja o menino. Eu perdi a guarda do meu filho não por ser irresponsável, por ser uma mãe ruim, mas porque a Justiça entendeu que era melhor para a proteção dele, por conta do meu ex-companheiro. E eu não critico, hoje vejo que a Justiça agiu com integridade. Como mãe, doeu, claro, mas hoje eu penso: "E se eles tivessem me dado meu filho? O que poderia ter acontecido? Que traumas essa criança teria adquirido?".

Sei que muita gente vai falar que eu estava errada e que tinha que ter largado meu ex-companheiro para ficar com meu filho. Mas eu estava fazendo isso. Eu tentava me separar e ele não deixava, eu estava presa. Só percebi agora.

No começo da entrevista, você disse que é preciso mudar os homens para que não haja mais mulheres vítimas. Você acredita que seu ex-companheiro pode mudar?

Eu acho o caso dele bem complicado. Pode ter solução se ele quiser. Existe Deus e existem profissionais que podem alcançar esse êxito, mas eu não posso fazer mais nada por ele. E mesmo se ele mudar, eu não quero mais.

Eu continuo acreditando que ter um marido ou uma esposa para formar uma família é o maior presente que Deus pode dar. Mas agora eu sei que é preciso avaliar. Não adianta manter uma situação dessas [de violência] e continuar casada só para dizer que tem uma família.

Depois que prestou queixa e decidiu se separar, você encontrou conforto ou algum tipo de ajuda dentro da igreja?

Demais. Mesmo antes de tudo o que aconteceu, o pastor da minha igreja, pastor Robert, jamais me aconselhou a não me separar. Houve uma pequena confusão nesse sentido e as pessoas estão criticando ele. Na realidade, ele me aconselhou justamente [a fazer] o contrário, me disse: "Priorize sua vida, saia desse relacionamento".

Realmente existem alguns líderes religiosos que são adeptos dessa ideia, mas vou te falar: está ficando cada vez mais raro, graças a Deus. O pastor Robert e a esposa dele estão sendo uma bênção, eles me aconselham a ficar resguardada, cuidar de mim e, principalmente, a não retomar o relacionamento. E isso me ajuda a ver que estou no caminho certo, fico ainda mais convicta da minha decisão.

E agora, quais são os próximos passos na sua vida? O que espera para o futuro?

Vou fazer o que sempre quis fazer: cantar e continuar administrando minhas empresas [Quesia comanda um negócio que aplica megahair, com clientes em São Paulo e no Rio de Janeiro]. Sempre gostei de ter meu negócio, quero conciliar com a carreira artística. E talvez mudar o visual. A autoestima está meio assim né, mas nada que a gente não resolva, não se transforme.

Agora estou preocupada com o interior, mas daqui a uns dias quero voltar a me olhar no espelho, me achar bonita, de bem com a vida. Não quero ficar só chorando não.

Que conselho você daria para uma mulher que está passando por um relacionamento como o que você viveu?

Que busque uma estabilidade financeira se não tiver, se proteja e o tão rápido quanto possível procure ajuda policial e da família.

Muitas mulheres escondem a violência, como eu escondi. Tem que buscar ajuda, é um momento em que a mulher precisa confiar e pedir ajuda para alguém fora de casa. Quando a gente está passando por isso, acha que consegue se virar, dar um jeito, mas não consegue. Não dá para medir a força de uma mulher com a de um homem. A gente pode ser agredida de novo, e de novo, até vir a óbito.