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Violência contra a mulher

Colegas de aluna que teve nude pedido por professor em aula relatam ameaças

Faculdade de Direito de Franca abriu procedimento interno e afastou professor por 60 dias - Dirceu Garcia/Divulgação
Faculdade de Direito de Franca abriu procedimento interno e afastou professor por 60 dias Imagem: Dirceu Garcia/Divulgação

Felipe de Souza

Colaboração para Universa, em Campinas (SP)

02/10/2020 14h25Atualizada em 02/10/2020 18h39

Alunos da Faculdade de Direito de Franca, cidade a 399 km de São Paulo, relatam terem sido ameaçados pelo professor de direito penal que pediu para que uma aluna supostamente nua mostrasse a imagem na câmera durante uma aula online no começo da semana. O docente nega as ameaças e diz que o pedido para a aluna foi "brincadeira".

Universa conversou com dois estudantes, que preferiram não se identificar por medo de represálias. Um deles estava em uma aula dada no dia seguinte, em que o professor William Tristão, 34, falou sobre o caso.

"No dia seguinte, quando todos da classe já estavam preocupados e indignados, o professor chamou uma aula para falar sobre o que aconteceu. Disse que ia tirar as notas adicionadas que deu a quem acertou as questões no dia anterior, e comentou que nada passava de uma brincadeira", contou.

O aluno, porém, diz ter se sentido desconfortável com o diálogo, que não presenciou. "Mesmo sendo uma suposta brincadeira, acho que aquele não era o lugar para aquilo", completou.

Uma outra estudante, que também acompanhou a "aula explicação", se sentiu ameaçada. "O tom que ele disse sobre a retirada da nota me pareceu muito exaltado. Ele disse que não ia aceitar ofensas de alunos, e que quem compartilhasse qualquer conteúdo sobre isso 'levaria processo na cabeça'", afirmou.

Ambos disseram que essas intervenções aconteceram "invadindo" a aula de uma outra professora.

As "ofensas de alunos", segundo o professor, seriam por causa de uma nota divulgada pelo Diretório Acadêmico 28 de Março. Em uma primeira nota, após a aula de segunda-feira (28), o texto acusava Tristão de assédio sexual e moral, por "ter oferecido nota a mais para a aluna ficar nua".

Ontem, cerca de 20 alunos participaram de um protesto na frente da FDF, pedindo a expulsão do professor. "Quando o que acontece é abafado, torna-se normalizado, não punível. A partir do momento que é levado a debate, quando as pessoas se chocam e cobram justiça, tudo muda", argumenta Beatriz Mortari, aluna do terceiro ano, que participou do ato.

'Pedi para falar'

Em conversa com a reportagem, o docente, de 34 anos, garantiu que não "invadiu" a aula da colega, e que tudo tinha sido combinado para que ele pudesse dar a versão dele. "Conversei com minha companheira de trabalho, e perguntei se poderia tirar 10 minutos para que eu pudesse dar minha versão aos alunos. Ela concordou, e assim eu o fiz", explicou.

Tristão confirma ter falado sobre processos por calúnia e difamação, e que pretende levar à Justiça publicações do tipo. Porém, nega ter ameaçado os alunos.

"Tirei os pontos que foram dados na aula de reforço para não parecer que estava privilegiando alguém, e também para que a aluna parasse de ser incomodada pelos colegas. Não houve nenhuma intenção de amedrontar os alunos", completa.

Sobre o caso, o professor disse a Universa no começo da semana que tinha "liberdade" com a aluna, já que convive com a família dela há anos. "Nossos pais já trabalharam juntos. Isso fez com que tenhamos uma intimidade, respeitosa como sempre. Trabalho com liberdade nas minhas aulas, sem ser aquele 'direito rígido', e por isso algumas brincadeiras acontecem", explicou.

O que acontece agora?

A Faculdade de Direito de Franca publicou um comunicado na tarde de hoje em que anunciou a decisão de afastar William Tristão de forma "precária" por até 60 dias -- aumentando, portanto, o prazo da comissão interna.

"O prazo é conforme limite normativo, para que os fatos sejam devidamente apurados e todas as partes ouvidas", informou.

O Diretório Acadêmico informou, horas antes da decisão da faculdade, que "apenas cumpriu o dever que é cabido à entidade", e que não compartilhou o vídeo em respeito às partes envolvidas.

"Quanto aos infundados ataques sofridos, se necessário, serão tomadas as devidas medidas judiciais cabíveis", finaliza o texto assinado pelos representantes Julia Duarte e Raul Lemos Maia. "A gravata não pode ser capaz de nos silenciar, ela não é superior a nossa voz. Queremos justiça", finaliza Beatriz Mortari.

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