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Negging: sedução que desqualifica mulher. Saiba identificar essa armadilha

A vendedora autônoma Débora Sfalsini criou uma página no Instagram para denunciar relacionamentos tóxicos - Arquivo Pessoal
A vendedora autônoma Débora Sfalsini criou uma página no Instagram para denunciar relacionamentos tóxicos Imagem: Arquivo Pessoal

Christiane Ferreira

Colaboração para Universa

01/09/2019 04h00

"Acho que não te reconheceria sem maquiagem"; "você fala bastante, onde é o botão de OFF?; "acho que você cuspiu em mim (enquanto a mulher fala alguma coisa)"; "você é linda, mas se emagrecesse cinco quilos ficaria mais gostosa". Essas frases, muitas vezes ditas em tom de brincadeira ou que vêm acompanhadas de elogios seguidos de uma crítica, podem esconder uma tática de sedução perigosa: o negging, uma maneira de conquista que desqualifica a mulher, minando a sua autoestima.

"Na prática do negging o homem usa determinadas falas que têm o objetivo de diminuir alguma característica da companheira e valorizar a presença ou opinião dele. É um jogo de palavras para deixá-la confusa. Com um elogio, vem uma pequena negação do que ele exaltou primeiro, sugerindo que ela pudesse ser de outro jeito que mais o agradaria", afirma a psicóloga Vivyan Rodrigues Pereira, especializada em atendimento a mulheres vítimas de relacionamentos abusivos.

A sedução seguida por uma desqualificação é muito sutil. E por isso muitas mulheres demoram a perceber os sinais. A vendedora autônoma Débora Cristina Fernandes Sfalsini, 29 anos, de Minas Gerais, passou pelo problema. Após se libertar de uma relação tóxica, em que o ex-companheiro a proibia de ter contato com amigas e familiares, ela criou há um ano e nove meses o perfil @maselenuncamebateu, no Instagram, que atualmente conta com 174 mil seguidoras.

"Sofri todos os tipos de agressão. Quando falava que queria me separar, minha família dizia 'mas ele é tão bom para você, nunca te bateu'. Vi que esse conceito estava muito romantizado, pois há diversas formas de agressão, inclusive o negging", relata Débora. Em seu perfil, ela tem o apoio de mais quatro amigas administradoras, 16 psicólogas e 26 advogadas, além de 136 voluntárias que fazem vídeos com pequenos relatos de histórias de mulheres que têm medo de falar pelo que estão passando.

O auxílio ocorre via direct ou e-mail e as seguidoras recebem orientações de como denunciar, quais órgãos procurar, quais documentos levar, entre outros.

Como muitas mulheres se veem enredadas numa teia de elogios seguidos de críticas, é difícil perceber em um primeiro momento que algo está errado na relação. "Ela fica confusa e não sabe como agir, pois o companheiro a enalteceu na verdade. Enfim está feito o jogo, ou seja, a mulher começa a achar que ela não é tão boa quanto pensava ser. E por isso muitas vezes modifica suas próprias vontades e atitudes para se adequar às expectativas dele", afirma a psicóloga Vyvian.

A boa notícia é que é possível sair desse tipo de relação. Buscar ajuda na terapia é necessário. Pedir apoio para uma amiga ou familiar, além de procurar orientação jurídica gratuita ajudam.

"Ele dizia que eu falava demais"

A estudante de Direito Nathália Gonçalves, 21 anos, do Rio Grande do Sul, ficou quatro anos em relacionamento abusivo, em que a prática de negging era presente. "Desde o início, ele sempre foi ciumento. Dizia que eu era muito bonita e chamava a atenção. Uma vez fiz uma tatuagem com a minha prima. Estava escrito You Can (você pode, em inglês), ou seja, uma frase empoderada. Quando ele viu deu uma grande gargalhada e disparou 'você pagou para fazer isso?'. Durante muito tempo odiei a minha tattoo."

Nathália passou por sutis humilhações diárias. Como era locutora em uma rádio, sempre foi comunicativa. No entanto, o ex-namorado dizia: "você tem de tomar cuidado para as pessoas não te interpretarem mal, você fala demais". Com o passar do tempo Nathália não conversava mais, com medo de dizer bobagem. Em certo período, permitiu que ele rastreasse seu celular, para que 'pudesse confiar nela'.

"Ele viajava e me monitorava por meio do notebook. Eu só podia ir à casa dos meus pais e na faculdade. Nada diferente. Outras vezes, quando eu chegava em casa, ele olhava meu celular. Se não tivesse 'nada comprometedor', me cumprimentava com um beijo. Uma vez viu uma conversa com uma amiga e disse que eu expunha a nossa relação. Fez minhas malas e me colocou na porta da casa dos meus pais às 3h da manhã", conta a estudante, que morou um ano e meio junto com o ex e chegou a trancar a faculdade por causa da pressão.

A estudante foi alertada pela mãe e amigas, mas também se afastou delas por achar que atrapalhavam seu relacionamento, como o ex a fez acreditar. E no dia seguinte a esse episódio fez as pazes e voltou a morar com o rapaz.

A estudante relata que certa vez em um momento íntimo o ex-namorado a chamou de vagabunda. "Disse que só namorava comigo para ter alguém para comer quando voltava de viagem. Nessa hora comecei a chorar e ele falou: 'tô brincando, você sabe que eu te amo'."

Nathália fala que no verão o rapaz a mordia em locais visíveis, como ombros e pernas, para que ela tivesse vergonha e escondesse as marcas com mais roupas. A terapia, iniciada em outubro de 2018, começou a lhe abrir os olhos.

E a primeira atitude foi tirar o rastreador do seu celular, apesar das insistências do ex-parceiro. Prestes a viajar de férias, ele a largou num posto de gasolina a 20 quilômetros da sua cidade porque ela não fez a sua vontade de permitir o monitoramento.

"Ele viajou de férias e sumiu por dez dias. Terminou comigo para fazer joguinho emocional, depois pediu para voltar e não quis mais. A gente não percebe que fica doente. E eu que me achava tão empoderada."

Atualmente, Nathália ainda tem medo de se envolver em uma relação longa, apesar de já ter conhecido outros rapazes. O processo de recuperação tem altos e baixos, mas ela segue firme no propósito de se reerguer emocionalmente. "Tem dias que está tudo certo. Em outros, parece que falta um pedaço."

Frases comuns na prática de negging

  • Por que você pinta esse cabelo de vermelho? Eu gosto tanto do seu cabelo natural!
  • Você nem parece muito com as fotos que vi de você! Achava que era mais alta!
  • Você não deveria cortar seu cabelo. Gosto assim comprido. Muito mais linda!
  • O que eu mais gostei em você foi sua beleza natural. Não precisa usar esses batons fortes. Pra quê?
  • Você deveria abandonar esse batom vermelho! Eu tenho alergia!
  • Você fica ótima sem maquiagem, bem mais cara de menininha!
  • Seu rosto é tão lindo. Imagina quando ficar mais magra e sarada! Vai ficar top!
  • Você fala com uma voz forte, me mostra onde é o botão para abaixar!

Violência contra a mulher