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Luciana Bugni

Humilhação de Mari Ferrer: entendeu por que a gente tem medo de denunciar?

Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

04/11/2020 04h00Atualizada em 29/12/2020 14h45

Eu estava na cozinha contando uma história triste da minha adolescência há vários anos. Meu amigo virou para mim e disse: você sabe que foi estuprada, né? Eu neguei. "Mas eu fui até lá". "Eu corri o risco." "Eu mudei de ideia do meio do caminho". "Não dava para recuar".

Ele escutou calmamente eu reproduzir os absurdos machistas que ouvi a vida toda. Levantou e me deu um abraço. E repetiu que eu tinha, sim, sido estuprada. Curioso que, anos atrás, fosse bem um homem a me explicar isso.

No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Muitas das mulheres que você conhece já foram vítimas do crime. Mas a maioria delas nunca falou sobre isso em público. Nunca teve coragem de confessar a agressão, mesmo que ela tenha ocorrido há décadas.

Essa história voltou à minha cabeça na manhã dessa terça-feira quando os vídeos da audiência da influenciadora Mari Ferrer foram publicados pelo The Intercept. Ela é das mulheres que teve força para denunciar. O homem que a estuprou, André de Camargo Aranha, foi declarado inocente. O advogado, Cláudio Gastão da Rosa Filho, humilhou a vítima, citando como "ginecológicas" fotografias profissionais feitas por Mariana em sua carreira de modelo e diz que não gostaria de ter "uma filha daquele nível". Mari pede intervenção do juiz Rudson Marcos, da 3ª Vara Criminal de Florianópolis, chorando. O advogado a ofende mais. Nenhum outro homem presente faz nada.

Os rapazes de meu círculo se perguntavam hoje como nenhum dos presentes na situação reclamou ou impediu que Mari fosse humilhada. Como alguém usa expressões como as que vemos nesse vídeo impunemente?

Mas a situação não surpreende as mulheres. Não é incomum um círculo de caras dizendo absurdos sobre as meninas. Meninos de boa família também podem ser estupradores. O comum é que elas sintam, sim, vergonha de suas próprias atitudes como se de fato tivessem culpa. Críticas às roupas, comentários maliciosos sobre desempenho sexual, propagação de rótulos como "tem cara de que gosta" só aumentam a naturalização do que se viu na audiência de Mari. E todo homem tem um amigo que faz comentários desse tipo (se não tem, é ele quem faz).

"Por que vocês não denunciam?", eu costumo escutar quando contamos essas histórias. A resposta está na humilhação pública que sofreu Mari Ferrer. No vídeo em que ela, com seu vestido branco curto, sai do lugar reservado onde foi agredida por André na casa chique de Florianópolis, tentando se equilibrar no salto ao descer a escada. Humilhada, tentando manter a classe. Arrasada, destruída. Mas tentando pensar em um jeito de ninguém perceber.

Semanas atrás, quando comentei a condenação por estupro de Robinho na Itália, aqui nesse blog, homens visitaram minhas redes sociais para sugerir que a vítima da violência coletiva em Milão mereceu. Que ela deveria aprender a se portar na balada. A beber menos e se dar o respeito. A gravação da audiência de Mari reproduz o comportamento. Sem novidades.

A segunda violência, essa vivida pela influencer durante o processo que buscava condenar seu agressor, é dolorida demais. É por isso que muitas mulheres ficam na primeira e amargam episódios de estupro em silêncio por décadas, com vergonha e medo do julgamento.

Falo por mim: ao começar esse texto pensei se deveria abordar o tema que me expõe. Mas juntas podemos ter mais força para encarar a segunda violência do julgamento que virá.

Hoje, já sabemos que a culpa não é nossa, diferentemente da adolescente que fui. Resta saber como fazer para provar isso para todo mundo.

Esse texto é para Mari Ferrer, uma corajosa. E para todas nós.

Pode discordar de mim no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL