Cris Guterres

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Opinião

Ataques a Ludmilla, Jojo e Patricia Ramos mostram como internet mói negras

Patrícia Ramos, Jojo Todynho e Ludmilla. Nos últimos dias, estas três mulheres vieram a público denunciar ataques racistas em suas redes sociais. Em pleno mês da Consciência Negra, estas denúncias escancararam o quanto a internet é uma máquina de moer mulheres negras.

Segundo uma pesquisa da Faculdade Baiana de Direito, do portal jurídico Jusbrasil e do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), as mulheres concentram 60% dos casos de racismo e de injúria racial em redes sociais julgados no Brasil nos últimos 12 anos.

Os ataques direcionados às mulheres negras na internet são uma face sombria do mundo digital, revelando uma interseção cruel de racismo e sexismo. Embora a internet tenha sido um espaço de conexão e oportunidade, também se tornou um terreno fértil para o ódio e a intolerância.

Em 2019 eu fui vítima de um ataque cruel e impiedoso, uma imagem minha questionando a intersecção entre o racismo e misoginia foi utilizada para me atacar virtualmente. Foram mais de 50 mil compartilhamentos no Facebook e milhares, eu disse milhares, de comentários racistas, discursos de ódio, intimidação e desqualificação das minhas conquistas e opinião.

Foi um soco na minha autoestima. Por mais forte que eu pudesse ser, a carga única de discriminação online mesclando o preconceito racial e de gênero me levou a um sofrimento imenso.

Comentários racistas, imagens degradantes e ameaças são desferidos com a intenção de nos silenciar, humilhar e marginalizar. Isso não apenas afeta o nosso bem-estar emocional, mas também nos limita a liberdade de expressão e participação no mundo digital.

A falta de medidas eficazes por parte das plataformas online para combater esse tipo de comportamento é preocupante. A moderação inadequada e a impunidade dos agressores perpetuam esse ciclo de violência, criando um ambiente hostil que ameaça a segurança e a integridade das mulheres negras na internet.

No entanto, apesar dos desafios, muitas mulheres têm se unido para enfrentar esses ataques. Movimentos de empoderamento digital, campanhas de conscientização e advocacia têm surgido, visando não só denunciar os ataques, mas também promover a inclusão e a igualdade no ciberespaço. Os dados da pesquisa que apresentei no início do texto também são informações valiosas e ponto de partida na formulação de políticas públicas voltadas a criação de um ciberespaço mais seguro para as mulheres negras e consequentemente a toda a população.

É crucial que haja uma ação coletiva, envolvendo governos, empresas de tecnologia e a sociedade como um todo, para combater e prevenir essas formas de violência online. Nós temos políticas rigorosas de combate ao discurso de ódio e ao assédio nas redes, a grande questão é que a maneira como o racismo se estrutura na sociedade brasileira impede que elas sejam aplicadas garantindo um ambiente digital seguro e inclusivo para todas as mulheres, independentemente de sua raça.

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A luta contra os ataques na internet direcionados às mulheres negras é parte integrante de um movimento mais amplo em busca de justiça, equidade e respeito. É essencial reconhecer e valorizar as contribuições das mulheres negras em todos os espaços, sejam eles no offline ou no espaço digital, onde nossa voz e nossa presença são igualmente fundamentais.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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