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Cris Guterres

Kamala mostra que não precisamos de políticas apoiadas no ódio para vencer

A vice-presidente eleita Kamala Harris discursa após Joe Biden ser declarado o presidente dos EUA - Tasos Katopodis/Getty Images
A vice-presidente eleita Kamala Harris discursa após Joe Biden ser declarado o presidente dos EUA Imagem: Tasos Katopodis/Getty Images
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

09/11/2020 15h01

"We did it, Joe". Esta foi a frase que Kamala Harris disse ao telefone, sorrindo e emocionada, para o parceiro de chapa Joe Biden no momento em que a dobradinha Biden-Harris foi declarada vencedora das eleições presidenciais nos Estados Unidos. "Nós conseguimos." Sim, conseguiram. Pela primeira vez uma mulher negra e filha de imigrantes foi eleita vice-presidente do país. Biden também ultrapassou uma barreira, muito menos árdua do que a de Harris, ainda mais para um homem branco que tudo pode e tudo vê: a idade. Biden, aos 77 anos ao assumir, será o homem mais velho a ocupar o cargo mais importante do mundo.

Este ano de 2020 tem sido notável para as mulheres na política, principalmente em continentes americanos. Recentemente assistimos a vitórias femininas na Bolívia e no Chile. Durante as eleições nos EUA, outras mulheres conquistaram feitos inéditos. Sarah McBridè será a primeira senadora estadual transgênero do país e Cori Bush, a primeira ativista do movimento Black Lives Matter a atuar no Congresso dos EUA. Sem esquecermos que os países comandados por mulheres foram os que conseguiram obter melhores resultados no combate e contenção do coranavírus.

São as mulheres conseguindo mostrar seu poder transformador. A vitória de Harris transcende as fronteiras dos Estados Unidos. No Brasil, foram inúmeros os posts que inundaram as redes sociais em comemoração ao triunfo desta mulher negra asiática. Representatividade é a palavra que não para de ecoar cada vez que a imagem dela aparece nas redes ou na TV.

A ascensão de uma mulher negra representa um poder imenso de movimentação da pirâmide social que pressiona com força intensa todas estas mulheres para a base. A citação que, a meu ver, melhor cabe neste momento é a célere frase pronunciada pela filósofa e ativista histórica pelos direitos civis e libertação dos negros estadunidenses, Angela Davis. Em visita ao Brasil, durante um encontro na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Davis foi certeira: "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela".

Um cargo como o de Harris tem visibilidade mundial. Em todo o planeta, haverá meninas, principalmente negras, que passarão a vislumbrar a possibilidade de desenvolvimento profissional a partir da imagem de Harris.

Uma pesquisa feita pela Mattel, empresa que produz a boneca mais famosa do mundo, a Barbie, apontou que as meninas deixam de sonhar com cargos de liderança em torno dos 5 ou 6 anos de idade. É neste momento que elas começam a perceber que as possibilidades existentes para elas são muito diferentes das que são oferecidas para os meninos e matam dentro de si o sonho de se tornarem presidentes, líderes de grandes empresas ou astronautas. Aos 6 anos de idade, por falta de representatividade, a menina recebe a mensagem de que o mundo não deseja que ela seja o que quiser ser.

Em seu primeiro discurso como vice-presidente eleita, Harris dirigiu uma fala especial para as crianças: "Sonhem com ambição, liderem com convicção e se vejam onde os outros podem não ver, simplesmente porque eles nunca viram antes".

Harris é formada em direito pela Howard University, avaliada entre as melhores universidades historicamente negras dos Estados Unidos. Traçou uma longa jornada de profissional até se tornar senadora pela Califórnia. É vista por parte dos jovens ativistas como uma figura política de "duas caras". Segundo eles, tem posicionamentos duvidosos e por vezes omissivos em torno da manutenção do encarceramento em massa e na investigação de crimes cometidos por policiais que matam em imensa maioria pessoas negras.

Mesmo com esta visão controversa que parte da população negro-ativista tem de Harris, escolhe-la como vice proporcionaria um avanço grande para Biden.

Estamos num ano em que a imagem de um policial branco assassinando, por sufocamento, um homem negro circulou o planeta e reverberou ditando mudanças na estrutura racial de alguns países, inclusive no Brasil. Sua escolha não foi à toa e certamente pesou o fato de que ela traria a Biden os votos de uma grande parcela da população que é negra e imigrante completamente insatisfeita com uma política falaciosa e agressiva.

A dupla Biden-Harris manifesta o desejo de deixar pra trás um governo supremacista que através de falas autoritárias e violentas pulverizou a mentira e a intolerância. Mesmo que a vitória tenha sido apertada e que os mais de 70 milhões de voto que Trump recebeu demonstrem que sua política tipicamente trompista e tudo o que ele representa ainda estão com força.

Esta conquista pode dizer muito a nós brasileiros. Quem sabe a nossa sociedade possa compreender que não precisamos manter no poder líderes violentos que constroem suas políticas de governo apoiadas no ódio e numa ideologia política autoritária. Já poderemos avaliar se estamos chegando a este entendimento no próximo domingo, quando o país irá às urnas para escolher seus representantes municipais.

Quando vi em minhas redes sociais o primeiro post com uma foto de Harris vestida com uma jaqueta com as cores do arco-íris em luta pelo movimento LGBTQI+ me lembrei e senti o poder do slogan da campanha do ex-presidente Barack Obama que dizia "Yes, we can".

Sim, nós podemos.