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Cris Guterres

Mulheres, o poder também é um lugar para vocês

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

28/10/2020 04h00

A conversa com a minha terapeuta esta semana foi em torno da minha relação com o poder. Sempre me senti seduzida a ocupar e estar em posições de comando e decisão. Fosse no ambiente profissional, num relacionamento amoroso ou com os amigos, a liderança sempre esteve dentro de mim. Isto é intrínseco, não é algo com o qual eu posso lutar, estou falando da minha natureza. Eu sempre, desde criança, me enxergava liberta sendo capaz de decidir por mim e pelos outros. Não é à toa, hoje sou dona da minha empresa e trago em meu currículo experiências de liderança por onde passei.

Me custou caro vencer as artimanhas do patriarcado para, enquanto mulher e negra, conseguir me fixar neste lugar de comando. Por muito tempo, absorvi uma mensagem que nos é passada pelo machismo de que poder e feminilidade são antagônicos.

Pois a feminilidade é algo muito além de um padrão estético ou um conjunto de comportamentos utilizados pela sociedade para definir biologicamente o sexo feminino. A feminilidade é utilizada para enjaular corpos de mulheres e nos limitar na condição do outro do humano. Aquele que é incapaz de pensar a partir de si mesmo.

Bela, recatada e do lar são adjetivos empunhados para definir o que se espera de uma mulher ainda na atualidade. As representações de mulheres no poder são violentas e grosseiras. Haja visto que os três adjetivos iniciais surgiram em 2016 para definir Marcela Temer como um exemplo de feminilidade a ser seguido.

Exatamente num momento em que ela se tornava a primeira-dama do país logo após o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) que foi rechaçada por grande parte imprensa, sempre sob um aspecto machista. A mensagem naquele momento era: Mulheres, o poder não é para vocês, mantenham-se no silêncio do lar!

Um dos estereótipos mais famosos de uma mulher no poder é, sem dúvidas, a personagem do filme "O Diabo Veste Prada". Meryl Streep interpreta Miranda Priestly, uma mulher poderosa e bem-sucedida na indústria da moda.

Retratada como exigente num nível sobre-humano, Miranda age de maneira cruel, pisa em seus subordinados. Sempre arrogante e soberba no alto de seus saltos finíssimos e elegantes, prioriza o trabalho acima de tudo e não tem escrúpulos para chegar onde almeja.

As características da personagem não me parecem nada diferente do comportamento de alguns homens que conheci no mundo corporativo. Aliás, eles, os homens, manifestam esta personalidade e este comportamento é visto como natural do ser homem. Ao passo que Miranda é desumanizada e se torna o diabo em pessoa.

Se Miranda fosse um homem, ele não seria chamado de Diabo. Ele seria apenas um chefe exigente, linha dura ou no máximo ambicioso.

Para que uma mulher alcance e se mantenha no poder é necessário que ela vença inúmeras barreiras que lhe serão impostas ao longo da jornada. É necessário lançar mão de estratégias para que não sejamos subalternizadas. E foi aí que a minha conversa sobre ambição por poder foi parar no divã da terapeuta.

Eu me questionava: em que momento da minha vida profissional deixei de lado a feminilidade? Eu não me comporto como a personagem de Meryl Streep. Em comum temos duas características: colocar o trabalho acima de tudo e todos e buscar a perfeição desesperadamente.

Meryl Streep  - Divulgação - Divulgação
Meryl Streep em O Diabo Veste Prada (2006)
Imagem: Divulgação

Mas assim como Miranda eu me afastei da feminilidade por acreditar que não seria respeitada se me posicionasse de outra maneira. Passados mais de 20 anos de experiência profissional, posso afirmar que se eu tivesse me mantido dócil não teria chegado onde cheguei, mas o preço que estou pagando por não ter me submetido foi o afastamento da minha essência.

Hoje, ciente de como tudo se configura, sinto um leve pesar por saber que provavelmente terei que me manter firme e assertiva para conquistar as demais posições que almejo. Mulheres poderosas ainda representam perigo constante para uma sociedade machista. Mas eu já sei que não preciso temer e nem tentar derrubar uma mulher que veste Prada. Se ela for uma farsa, vai desmantelar-se sozinha

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.