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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para que serve um ídolo do humor

Paulo Gustavo - Divulgação/TV Globo
Paulo Gustavo Imagem: Divulgação/TV Globo
Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

04/05/2021 22h18

A experiência de riso compartilhado é um dos momentos de comunhão humana mais íntimos que existem. É quando intelecto, coração e alma se comunicam e um impulso elétrico do seu cérebro diz: posso relaxar, estou entregue.

O riso exige uma comunicação de afeto e um pacto profundo de confiança entre o espectador e quem está nos fazendo rir. Não à toa desde a Grécia Antiga os autores do teatro de comédia eram considerados gênios e o humor um dom vindo direto do Olimpo. O público viajava de diversas Cidades-Estado para assistir uma única obra e ter o privilégio de rir conjuntamente, em companhia - e saber que ao seu lado na plateia existia um humano, um outro igual.

Fazer isso ao lado de alguém está cada vez mais difícil - vivemos tempos duros, estamos divididos, tristes, magoados. Rir não parece tarefa fácil no Brasil e a profissão do humorista é um alvo político. Poucos profissionais conseguiram alcançar um lugar de cumplicidade no coração do público e conquistar a confiança necessária para fazer rir. Paulo Gustavo era uma dessas pessoas.

Criador da peça Minha Mãe É Uma Peça, conseguiu fazer fama no teatro, o que já é por si só é um ponto fora da curva - os grandes nomes do humor geralmente bombam na tv aberta. Com sua Dona Hermínia ganhando vida no cinema conquistou o status de fenômeno popular, com números superlativos em tempos difíceis para a indústria audiovisual.

Para os críticos, um humor popular demais, com bordão demais, tradicional demais. Para o público, nada disso importava. Paulo Gustavo ocupou um espaço da comédia família, maliciosa e solta. Dialogava diretamente com um afeto íntimo do País e com isso conseguia ser uma trégua de riso num mundo que não consegue mais se enxergar ou conversar. Vai embora de maneira trágica e melancólica no momento onde mais vai fazer falta. Nem o Brasil e nem Paulo Gustavo mereciam um desfecho assim.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL