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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ritos de Passagem e Despedidas

Time de estrelas dos anos 90 protagoniza a série Yellowjackets - Divulgação
Time de estrelas dos anos 90 protagoniza a série Yellowjackets
Imagem: Divulgação
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Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

06/01/2022 11h01Atualizada em 06/01/2022 11h08

Escondidinha no streaming "puxadinho" Paramount + está uma série pouco falada mas que merece a nossa atenção: Yellowjackets.

Com episódios divididos em dois tempos, esse original Showtime conta a história de um grupo de futebol feminino do Ensino Médio que nos anos 90 ganha o campeonato Estadual e com isso se classifica para a final nacional. O vôo que leva as meninas para a competição cai em uma floresta e elas ficam dezenove meses desaparecidas. Nos tempos atuais, as protagonistas, agora adultas, interpretadas por Christina Ricci, Melanie Linksey, Tawny Cypress e Juliette Lewis precisam lidar com os traumas daquele período e os segredos que escondem.

Na mesma tradição de mistério adolescente como Pretty Little Liars, Yellowjackets tem uma trilha sonora encantadora, e avança no mistério e no horror daquelas que a precederam. Os ritos de passagem adolescentes são assustadores mesmo quando acontecem no lugar comum escola-casa, e se amplificam e agravam quando a metáfora da floresta e do isolamento entram em jogo. O desejo, seu lugar no grupo, o aborto, a saúde mental, a religiosidade são sempre questões de sobrevivência afinal, e os ritos de passagem são radicais.

A adolescência é um período mortal - acidentes e suicídios e diversos tipos de morte rondam aqueles que estão no entre lugar: nem crianças supostamente protegidas pelo cuidado adulto, nem adultos plenamente capazes de identificar o perigo. Chegar na vida adulta é sobreviver, e para isso devemos tomar decisões feias. Em Yellowjackets apenas a memória daqueles que se foram continuam (a princípio) intocadas, protegidas.

Com um episódio por semana, a série irá ter o episódio final da primeira temporada nas próximas semanas, e provavelmente alguns mistérios e reviravoltas serão resolvidos, e no melhor estilo norte americano de dramaturgia seriada podem forçar a barra para novos plots surgirem; não sou grande entusiasta desse tipo de recurso, mas também aprendi como autora e espectadora que é possível honrar a ficção durante o período de tempo em que ela faz sentido para você. Não existem regras: abandonem aquilo que passou do prazo de validade: livros, séries, saiam da sala de cinema e vão falar mal daquilo que viu e não gostou. A vida é curta demais para se comprometer com entretenimento ruim. No momento, Yellowjackets entretém, assusta e diverte, com ritos de passagem assustadores e sanguinolentos no coração de uma floresta sombria.

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Ter uma coluna de entretenimento durante o ano de 2021 também foi um maravilhoso rito de passagem - passar para o outro lado do balcão daquela que assiste, analisa, comenta e não ser somente aquela que constrói e produz aquilo que os outros assistem. Em 2022 deixo esse espaço no Splash Uol que me recebeu tão bem durante esse período e começo a colocar no mundo os projetos que desenvolvi em 2020 e 2021. Para continuar sabendo o que eu acho a respeito de cultura pop, basta me seguir no Instagram e no Twitter. Até o futuro!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL