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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Amor, sexo e o fim: Cenas de um casamento e a brutalidade do romance

Scenes from a Marriage tem casalzão na tela: Oscar Isaac e Jessica Chastain - Instagram/Reprodução
Scenes from a Marriage tem casalzão na tela: Oscar Isaac e Jessica Chastain Imagem: Instagram/Reprodução
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Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

19/10/2021 04h00

Recentemente os streamings receberam uma leva de reboots e remakes de filmes e séries que mexeram com o coração do espectador - infelizmente, nenhum deles tinha acertado em cheio, geralmente jogando o charme do original pelo ralo.

Há, porém, dentro desse universo de refilmagens, uma exceção honrosa, uma pequena pérola em cinco episódios na HBO Max. O remake de "Cenas de um Casamento", dirigido pelo showrunner Hagai Levi (The Affair), consegue manter a profundidade do filme de Ingmar Bergman atualizando os debates sobre amor, sexo, relacionamentos e a dor devastadora de um rompimento.

Na nova versão, protagonizada por Oscar Isaac e Jessica Chastain, o casal perfeito é entrevistado por uma pesquisadora que investiga relações bem sucedidas. A aparência de perfeição do casal se desmonta pouco a pouco quando são confrontados por uma gravidez não planejada. Mira e Jonathan já não conseguem conversar honestamente sobre seus sentimentos; o que não é dito entre eles é mais importante do que aquilo que efetivamente podem dizer. O que parece um rompimento definitivo, se torna uma longa caminhada de volta para si mesmos e uma jornada acidentada e difícil a respeito do amor.

Os episódios de "Cenas de um casamento" começam ou se encerram com imagens do set de filmagem, onde já não sabemos quem é Oscar Isaac/Jonathan ou Jessica Chstain/Mira - a todo tempo somos lembrados que o amor também é uma construção e uma performance, e que ainda assim, a devastação que ele provoca pode ser real.

Em relação ao original, muito se disse que as relações estão invertidas. No filme do Bergman, o personagem masculino é o homem bem sucedido na carreira que trai a esposa feliz; Na série, a mulher bem-sucedida é quem opta por sair do relacionamento, para total surpresa do marido. Mas não posso concordar que isso seja exatamente uma inversão; na adaptação de Hagai Levi os limites entre culpados e inocentes, rejeitadores e rejeitados são linhas nubladas onde Mira e Jonathan brincam de se esconder. Outro acerto também foi colocar o sexo no centro dos conflitos - nada é gratuito, nem a nudez - que constroi intimidade - nem na ação; o sexo é narrativo e nos conta, passo a passo, quem são esses dois personagens colidindo.

Essa inversão também coloca as "cenas" desse "casamento" muito mais próximas da realidade das mulheres. Explico: vivemos em um mundo onde nos casamentos reais, os homens brincam que foram fisgados, algemados e que o momento do sim é um "game over" no jogo da vida. Em contrapartida, o casamento é culturalmente descrito como um objetivo feminino, que deve ser perseguido a qualquer custo. Teoricamente, somos nós as mulheres as donas das algemas.

Tudo isso é muito distante da verdade; pesquisas mostram que os homens casados e com filhos vivem mais, são mais felizes e chegam mais longe na carreira, enquanto mulheres casadas e com filhos são expulsas do mercado de trabalho e são muito mais insatisfeitas sexualmente do que as mulheres que optaram por não se casar; há uma armadilha na ideia de que mulheres desejam estar em uma instituição que tem como tradição vestido branco, buquê, e a morte da libido e de suas ambições;

Para essa versão contemporânea de "Cenas de um casamento" a instituição do matrimônio é claramente desvantajosa para as mulheres e muito mais confortável para os homens; o desconforto de assistir Mira fazendo um homem bom sofrer com a sua "instabilidade" é o desconforto de também admitir que uma mulher pode ter ambições muito mais amplas do que ter um bom homem ao seu lado. Verbalizar o desejo pode ser uma ação completamente devastadora e também a única posição possível para se manter íntegra.

Para os românticos, podem ficar tranquilos. "Cenas de um casamento" não é uma obra cínica, com pretensão de demolir o amor romântico. Mas pode ser um grande elogio ao amor enquanto acontece e dura, e todas as formas que ele pode tomar enquanto existe. Talvez por isso seja bem difícil para o público brasileiro segurar a emoção quando a música "Retrato em branco e preto" - clássico do fundo do poço das separações - começa a tocar em uma cena pra lá de importante.

Cheia de referências e homenagens lindas ao original, seja no figurino, nos objetos de cena ou em citações, é difícil que "Cenas de um casamento" não engula todos os prêmios de minissérie e série auto contida nas premiações do ano que vem. Mas esse ainda é o menor motivo para você assistir. O maior é que a impossibilidade do amor e seus abismos ainda é a melhor maneira de se emocionar na frente da tv.

Para quem não sabe, eu falo muito de amor no Instagram e no Twitter.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL