PUBLICIDADE
Topo

Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Casamento às Cegas e Rio Shore são o mesmo reality show e eu posso provar

Participantes do "Rio Shore" - Divulgação/MTV
Participantes do 'Rio Shore' Imagem: Divulgação/MTV
Conteúdo exclusivo para assinantes
Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

12/10/2021 04h00Atualizada em 12/10/2021 11h09

Missão: sentar meu bumbum no sofá, segurando um pacote de batatinha frita em uma mão e deixar meu cérebro virar uma pasta molenga assistindo os reality shows "Rio Shore" e "Casamento às Cegas".

Obstáculo: Os reality shows "Rio Shore" e "Casamento às Cegas"

Em um primeiro olhar, os programas parecem diametralmente opostos; Rio Shore (MTV) confina jovens - cinco homens e cinco mulheres - em uma casa numa praia paradisíaca de Búzios, com poucas roupas e muito álcool dentro do corpo, com o único objetivo de servir pegação, sexo e barracos. Já em "Casamento às Cegas Brasil" (Netflix) os participantes buscam a sua metade da laranja e o objetivo é se casar com o amor da sua vida em um mês, depois de uma série de encontros onde homens e mulheres são separados e não podem ver a aparência uns dos outros.

Mas a única coisa que diferencia os dois programas é a separação - bem conservadora e estereotipada - entre amor e sexo. Não só porque essa linha é, na maioria das vezes nublada, mas também porque, aos olhos desatentos, pode parecer que um programa de pegação é super moderno e um programa sobre casamento tradicional mega conservador. Essa impressão é desfeita ao assistir pelo menos um episódio de cada um dos programas.

Nos dois shows a escolha sexual e afetiva está atrelada à "boa aparência" - mulheres, em sua maioria brancas, magras, com maquiagem e cabelos impecáveis, e homens sarados com roupas que parecem compradas no atacadão do sapatênis. "Casamento às cegas" tenta esconder isso de forma mais engenhosa, mas se de ambos os lados só tem "gente bonita" fica fácil escolher por afinidade e sem medo o saradão do outro lado.

A pouca representatividade racial é trágica - em um Brasil com uma população de mais de 51% de pessoas não-brancas, assistir os realities dá aquela estranha sensação de Noruega tropical. Se o "amor é cego" e "se der mole é vapo" só para ficar nas duas expressões mais repetidas nos dois realities, o "vapo" só acontece se do outro lado da cabine ou do copo de gim o seu amor não tiver nenhuma deficiência, for heterossexual e uma bundinha bem da sarada.

É claro que para quem está procurando um entretenimento sem compromisso e uma dose cavalar de constrangimento, os dois programas são de uma perfeição sem igual. O humor involuntário da sedução fake é imbatível para deixar qualquer um grudado na telinha. Em "Casamento às Cegas" frequentemente um participante abraça e beija o painel luminoso que o separa de seu amor, e em "Rio Shore" depois de muitas doses de bebida destilada é possível ver uma moça tendo uma crise de ciúmes acusando uma outra de querer "aparecer" como se "aparecer" não fosse exatamente a partícula fundamental de qualquer programa de tv do tipo.

A tristeza fica por conta da sensação amarga que "Rio Shore" e "Casamento às Cegas" fazem parte de uma única timeline representativa do que as mulheres podem esperar do sexo e do amor na nossa socidade - umas fodas meia boca enquanto não é escolhida por um príncipe com harmonização facial e ideias estranhas sobre como uma esposa deve se comportar. Poderiam, veja só, ser o mesmo programa até, um passando depois do outro mostrando o que te espera ali quando os vinte anos vão virando trinta. Talvez seja esse o desgraçado "destino de mulher" do qual tanto falava Clarice Lispector.

Nada disso vai me impedir de ver essas duas pérolas até o fim. É um tipo de vício difícil de explicar, imagino que os usuários de drogas ilícitas devam sentir essa mesma vergonha. Felizmente meus streamings estão pagos e eu não preciso vender a geladeira da minha mãe para continuar consumindo, mas talvez eu precise de uma clínica de reabilitação para relembrar que relações podem ser um pouco mais complexas do que os programas apresentam para nós.

Para saber mais sobre mim você pode passear no meu Instagram e no meu Twitter.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL