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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vai doer demais escutar o seu bye bye

Marília Mendonça no último show da carreira, em Sorocaba (SP), no dia 1 de novembro de 2021 - André Cardoso/Divulgação
Marília Mendonça no último show da carreira, em Sorocaba (SP), no dia 1 de novembro de 2021 Imagem: André Cardoso/Divulgação
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Renata Corrêa Renata Correa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Renata Correa

Colunista do UOL

09/11/2021 04h00

Foram vinte minutos entre o tweet onde eu dizia que me sentia aliviada por saber que Marília Mendonça estava bem, e a incredulidade da informação real da sua morte. Vinte minutos onde eu acreditei num milagre, mesmo vendo o estado do avião, onde eu deixei minha intuição de lado pois a alternativa me parecia absurda demais, dura demais, impossível.

Foi num lance de acaso que eu comprei a passagem para Goiânia. Faltava pouco tempo para as gravações da minha série terminarem e eu ainda não tinha ido ao set por conta de outros compromissos profissionais; um dos atores, amigo de longa data atazanou o meu juízo para me convencer a comprar a passagem, dando o excelente argumento de que eu iria me arrepender se não conseguisse estar presente em ao menos uma diária. E sem pensar muito, comprei a passagem. Desembarquei na Capital do Sertanejo exatamente meia-noite do dia cinco de novembro.

Pode soar estranho que uma carioca goste tanto de música sertaneja. Mas uma das minhas lembranças infantis mais antigas é de performar "Entre Tapas e Beijos" de Leandro e Leonardo para minha família - que sempre foi muito mais do samba e da MPB. E essa escolha me acompanhou durante a vida: ainda acho "Não aprendi dizer adeus" a música de término mais bonita já escrita; Nuvem de Lágrimas a mais dolorida. Uma roda de convidados emocionados cantou "Evidências" na pista de dança do meu casamento. E desde 2016, Marília Mendonça era a artista que não saía dos meus ouvidos. No meu último amigo oculto do trabalho ganhei uma réplica da icônica caneca que ela usava nas lives onde dizia "Existe uma chance disso ser cerveja" e do outro lado uma arte do DVD Todos os cantos com "Ciumeira" no topo.

É difícil para mim me considerar fã de alguém; geralmente eu gosto do trabalho, admiro, mas me conecto pouco com a pessoa pública, talvez por trabalhar muito tempo na indústria do entretenimento e saber que artista é só gente. Marília foi uma exceção - era tão tão gente que se tornou extraordinária. Ouvi um amigo cantando Infiel num karaokê, e imediatamente me conectei com tudo que estava ali. A voz grave, a letra com imagens fortes, a música. Eu só queria saber quem era aquela garota, de onde ela tinha vindo, o que mais ela tinha feito. E mais: queria conversar, ser amiga, ouvir o que ela pensava. Acompanhar o nascimento do seu bebê, a amizade com as gêmeas Maiara e Maraísa, a relação com a mãe. Assim como eu, acredito que muitas mulheres no Brasil hoje entendem esse sentimento.

Estar em Goiânia naquele momento foi, num primeiro momento, um baque. Mas eu sabia que o coração do Brasil estava batendo ali. Pude me apoiar em quem, assim como eu, sentia esse amor de fã, o amor inabalável, apaixonado, feliz, de admirar alguém sem querer nada em troca. Passei uma noite ouvindo suas músicas, cantando, chorando. Vi uma cidade parar. Vi os carros de vidros abertos tocando Marília no último volume. Era o lugar que eu queria estar para me despedir dela.

Sei que esse é um relato em primeira pessoa sobre uma experiência particular; que talvez, não traga nada de novo numa análise, ou numa perspectiva política, feminista, artística. Tudo foi dito por pessoas muito melhores que eu: ela mudou o jogo, ela bancou ser quem era e com isso se tornou gigante. Maior que a vida.

Em 2018 eu falei no podcast Primas que achava que Marília era o nosso próximo Roberto Carlos - que um dia seria dela o especial de natal que todas as famílias viriam no dia 25 de dezembro, tanta a quantidade de hits. Errei, não por saber que essa expectativa não seria cumprida após o acidente trágico, mas por que é impossível compara-la com qualquer outro artista; como disse uma amiga, Marília nem gente era, era um cometa, que passou maravilhando, fulgurante, riscando o céu. Sorte de quem viu.

Hoje, passados quatro dias do acidente, consegui parar de chorar toda vez que lembrava daquele vácuo de vinte minutos entre a sensação de alívio e a realidade triste que se impôs. Pude finalmente escrever sobre o que ela representava para mim, como admiradora incondicional do seu trabalho e da conexão que ela estabelecia com a experiência de ser mulher no mundo. Que seu legado de amor e música continue inspirando mulheres e homens que não tem medo de sentir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL