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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Leifert e Ícaro: quem pode dar opinião na Indústria do Entretenimento?

Ícaro Silva e Tiago Leifert - Reprodução
Ícaro Silva e Tiago Leifert Imagem: Reprodução
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Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

21/12/2021 17h12Atualizada em 21/12/2021 17h17

Recentemente o ator Ícaro Silva (atualmente no ar em Verdades Secretas 2) fez um post muito honesto e íntimo nas suas redes sociais onde refletia sobre o fato de seu personagem em Malhação, o Rafa, nunca ter tido um par romântico. O post, que viralizou, me chamou a atenção como espectadora e autora. Num mundo onde influencers e celebridades parecem paridos de uma barriga de media training era um refresco ver uma honestidade radical de alguém que revê sua trajetória com carinho, mas também com um olhar crítico para aquilo que viveu. Infelizmente a internet não está mais acostumada com gente que posta por si mesma e não tem 20 administradores para cuidar da conta.

Hoje o mesmo ator usou a palavra trajetória para dizer que não entraria no BBB. Classificou o programa como "entretenimento medíocre" e logo começou a ser massacrado nas redes sociais, como é de praxe. Eu particularmente não usaria as palavras que o Ícaro usou. Não acho o BBB um entretenimento medíocre, eu assisti o programa em suas primeiras edições e comecei a rever em 2020, na pandemia. Não sou daquelas que cravam que o reality é um instantâneo fiel da nossa realidade, pois existe uma curadoria cuidadosa de quem participa; mas tampouco acho que o que se passa ali é irrelevante: debates urgentes se popularizam em grande medida porque aparecem no BBB e isso é super importante. Mas isso não quer dizer que o programa seja neutro, ou isento.

As violências que acontecem ali são punidas ou não de acordo com a avaliação de quem dirige o programa e de acordo com a realidade cultural do tempo. É possível ver Pedro Bial chamando as participantes de "gostosas" na primeira edição e justificando o assédio que elas sofriam de outros participantes. Como mulher, muitas vezes me senti chocada ao assistir participantes homens cometendo diversos tipos de violência contra mulheres sem sequer receber uma advertência; segue o jogo, as pessoas envolvidas que devem se manifestar caso se sintam agredidas; e como isso acabava sendo violento para mim, que assistia. Muitas vezes manifestei essa indignação e incredulidade nas minhas redes sociais. Sendo uma mulher branca, eu só posso imaginar o que é para um jovem negro assistir ao BBB e todos aqueles problemas raciais mal administrados durante diversas edições e como isso pode ser, no mínimo, desconfortável. Acho legítimo que um jovem ator negro manifeste sentimentos ruins a respeito do programa. Não é como se qualquer minoria política estivesse recebendo afagos do reality show ao longo de mais de vinte anos no ar.

As reações ao post do Ícaro seriam mais um caso de "segue o jogo", se não fosse um detalhe: Tiago Leifert, ex apresentador do programa fez um post onde dizia para o ator não deveria aceitar mais trabalhar na emissora que produz e exibe o BBB. Eu também trabalho na Globo e no meu contrato não diz que eu devo amar todos os produtos da casa e nem que a minha subjetividade está suspensa ao assistir um programa da minha empregadora. Imagino que no contrato do Ícaro também não, e por um motivo simples: a liberdade de expressão é um dos pilares da empresa que nós três já trabalhamos e do qual me orgulho bastante. São célebres os casos de autores, atores e diretores que se manifestam publicamente sobre suas posições políticas de forma contundente. São opiniões de diversos espectros ideológicos. E curiosamente ninguém foi convidado a não trabalhar mais por isso.

Existe um claro descompasso entre o post do Ícaro e o post do Tiago em resposta; nenhum empregado é obrigado a amar ou elogiar o que não faz brilhar o olho pensando que talvez não possa mais trabalhar por causa disso. Mesmo porque em qualquer empresa, o que o trabalhador faz é vender a força de trabalho. Nosso salário não é uma caridade e para mulheres e pessoas negras que só há bem pouco tempo conquistaram o privilégio de ter um lugar de destaque no meio audiovisual isso é uma realidade ainda mais clara.

Por mais que o post chamando o BBB de "entretenimento medíocre" possa ser deslocado ou causado desconforto, causa ainda mais deslocamento e desconforto observar em pleno 2021 a discrepância de poder entre pessoas negras e brancas na indústria do entretenimento e quem pode se sentir confortável para dar opinião sem medo de retaliação.

Para saber mais como eu uso meu direito sagrado de opinar: Instagram e Twitter.