Nem gás, nem lenha: restaurante no Chile prepara a comida com calor do sol

Cozinha sem gás, energia elétrica ou lenha. É assim a rotina do restaurante 'Delicias del Sol', localizado em Villaseca, na região do Vale do Elqui, no Chile. Desde 1999, o lugar utiliza a energia solar para cozinhar a comida que serve.

Na entrada do estabelecimento, o cliente já pode as ver dezenas de caixas com tampas de vidros que servem como forno para assar pão e outros alimentos. Há também uma espécie de antena parabólica que funciona como fogão.

Todos os dias, o preparo do almoço começa às 9h e, dependendo da época do ano, o prato pode levar mais ou menos tempo para ficar pronto. Um frango, por exemplo, leva, em média, três horas para ser cozido. Geralmente, no verão, os processos de cocção são mais rápidos, já que dentro das panelas a temperatura pode chegar a 180 graus, e do lado de fora, 35.

Além do jeito único de cozinhar ao ar livre, o restaurante também utiliza ingredientes que são todos plantados, colhidos e produzidos no local, que conta com horta orgânica e receitas próprias. A característica da casa é servir uma comida caseira com produtos da região, que incluem carne de cabrito e queijo de cabra.

Como tudo começou?

Parabólicas refletem os raios solares para o fundo das panelas, levando a uma temperatura de até 180 graus
Parabólicas refletem os raios solares para o fundo das panelas, levando a uma temperatura de até 180 graus Imagem: Priscila Carvalho

A ideia da cozinha solar veio no âmbito de um projeto social idealizado por pesquisadores do Instituto de Nutrição e Tecnologia Alimentar da Universidade do Chile. No início dos anos 1990, os especialistas viram que a região do Vale do Elqui podia ser melhor aproveitada e a oferta de uma fonte de energia gratuita poderia ser importante aliada no combate à pobreza do local.

O Elqui tem clima árido e quase não chove por lá ao longo do ano, condições que são bastante favoráveis para essa forma de cozinhar utilizando somente o calor do sol.

Naquela época, muitas famílias viviam da agricultura e a região era muito pobre. O projeto também considerou o aspecto da sustentabilidade, já que muitos precisavam cortar árvores para obter lenha para cozinhar.

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A princípio, foram testados fogões solares parabólicos dentro da casa dos moradores. "Quando começamos a usar a cozinha, vimos que não precisávamos de tanta lenha. Era só mudar o hábito, cozinhar com sol e começar mais cedo", diz Julia Flores Carvajal, presidente da Associação Gremial Artesanas Solares e moradora da região.

Ela conta que a ação veio também como desenvolvimento social, já que muitas mulheres que eram mães solo viviam somente da agricultura e quase não tinham fonte de renda.

Esse projeto ajudou muito com o machismo, pois começou a misturar a família, incluir o marido, os filhos. Todos trabalhando em conjunto.
Julia Carvajal, sócia do restaurante solar

Aos poucos, as vizinhas e moradoras perceberam que era possível viver utilizando esse novo jeito de cozinhar e começaram a implantar no dia a dia. "Começamos fazendo um centro de degustação e, na cozinha, fizemos uma tortilha na parabólica. Depois, as mulheres começaram a fazer empanadas para vender para fora", conta Julia.

Foi então que uma das líderes da comunidade deu a ideia para que elas começassem a vender comida e expandir as vendas para um local fixo. A partir daí, elas resolveram abrir um restaurante.

A ideia da cozinha solar veio de um projeto social voltado para o combate à pobreza da região
A ideia da cozinha solar veio de um projeto social voltado para o combate à pobreza da região Imagem: Priscila Carvalho
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Primeiro 'restaurante solar' no Chile

Em 1999, a associação de moradores investiu para abrir o 'Delícias Del Sol' que, na época, tinha capacidade para atender 24 pessoas. O estabelecimento foi o primeiro no Chile a ter uma cozinha totalmente solar. Depois dele, outros parecidos também foram abertos na região e no norte chileno.

Julia Carvajal, que foi uma das idealizadoras e hoje é uma das sócias do restaurante, conta que a primeira parte do estabelecimento a ser erguida foi a cozinha. "Depois fomos arrumando os banheiros, compramos outras coisas, e passando o trabalho também para outras gerações."

Hoje, o espaço já aumentou de tamanho e tem capacidade para acomodar até 150 pessoas, número de clientes que passam pelo local diariamente, principalmente durante a alta temporada do verão.

O restaurante conta, ao todo, com 25 sócios. Julia, que se reveza entre as panelas e tarefas administrativas, diz que se alguém quiser adquirir uma parte da empresa e ampliar a sociedade é preciso que seja morador do local.

Não pode ser alguém de fora com dinheiro. A ideia é que isso permaneça com origem e identidade.
Julia Carvajal, sócia do restaurante solar

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Como funciona a cozinha

Pode parecer confuso, mas não é. O calor do sol se encarrega de fazer todo o trabalho de cozinhar ou fritar os alimentos. As antenas parabólicas funcionam como fogões que refletem raios solares e incidem direto no fundo da panela. Quem cozinha, ainda pode controlar se quer o calor um pouco mais para cima ou para baixo do utensílio.

Julia Carvajal diz que as cozinhas solares deram oportunidade de renda para mulheres do local
Julia Carvajal diz que as cozinhas solares deram oportunidade de renda para mulheres do local Imagem: Priscila Carvalho

Para assar alimentos como pães, por exemplo, são usadas caixas solares com tampas de vidro, que funcionam como estufas. Dessa forma, é possível produzir essas comidas de maneira rápida e ainda preservando o seu sabor. No verão, geralmente, são feitas até três fornadas de pães todos os dias, no inverno o número diminui para uma.

A vantagem da comida servida no restaurante 'Delicias del Sol', segundo Julia, é que ela é toda preparada com produção local, que é orgânica e sem conservantes químicos. Além disso, a cocção pelo sol, segundo ela, garante mais sabor aos preparos.

A cocção é lenta e isso mantém mais a cor e o sabor dos alimentos.
Julia Carvajal, sócia do restaurante solar

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Para o preparo de carnes que demoram um pouco mais para ficarem cozidas, como a do cabrito, o processo pode demorar até cinco horas e, por isso, o trabalho começa um pouco mais cedo. Em dias nublados ou chuvosos (o que é bem raro na região), eles recorrem ao gás ou voltam a cozinhar com lenha.

No momento da entrevista, Julia até preparou uma empanada chilena de carne para mostrar como o processo é rápido. Em menos de 15 minutos foi possível saborear o prato feito ali na hora.

A dona ressalta ainda que o diferencial do restaurante é poder fazer tudo com a luz solar, incluindo a geração de energia para todo o estabelecimento, seus eletrodomésticos e ventiladores.

Local pouco conhecido por brasileiros

A cocção no fogão solar é lenta e isso mantém mais a cor e o sabor dos alimentos, segundo cozinheira
A cocção no fogão solar é lenta e isso mantém mais a cor e o sabor dos alimentos, segundo cozinheira Imagem: Priscila Carvalho

Embora seja um ponto turístico nesta região chilena, os donos do local dizem que o restaurante, e até a própria cidade, é mais explorada por turistas do próprio país.

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No verão, principalmente entre os meses de dezembro e março, é muito comum receber um maior número de viajantes nacionais do que estrangeiros.

O Vale do Elqui é uma região muito seca e, diferentemente do deserto do Atacama que já é muito conhecido, o turismo de viajantes estrangeiros está chegando aos poucos.

Chegar até o local não é tão difícil e é preciso somente um voo até a cidade de La Serena - com duração de uma hora saindo da capital Santiago - e, depois, um trajeto de carro de aproximadamente uma hora e dez minutos.

Além da gastronomia solar, o visitante pode ainda aproveitar para conhecer vinícolas, fábricas de pisco, spas, praticar esportes de aventura e ainda observar as estrelas e os planetas em um passeio de astroturismo.

*A repórter viajou a convite de Corporación de Turismo de Vicuña, Corfo y Sernatur

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