Siga o Copo

Siga o Copo

Siga nas redes
Opinião

'Cachaça bebida ruim': lista incentiva burrice etílica, mas tem antídoto

Há um mês, conheci um bar aqui em São Paulo que me deixou de cara logo na carta de autorais: repleto de drinques à base de cachaças. Prata, envelhecida, de jambu...eram 10 criações com um dos destilados que eu aprendi a amar na trajetória do jornalismo etílico.

Fui transportada para agosto de 2020, quando, em plena pandemia e ao lado de Pedro Marques, bolei um especial tremendo aqui no UOL sobre a mais brasileira das bebidas, que saía das sombras do preconceito e ganhava o respeito aqui e no mundo. Era uma ode ao cachaceiro orgulhoso e com esse trabalho fomos até premiados. Coisa linda.

Se estamos cada vez mais atentos aos alambiques e aos mestres cachaceiros, no mundo dos coquetéis a cachaça também cresce e bate no peito. Prova disso são os nossos clássicos reconhecidos: Caipirinha e Rabo de Galo (como orgulhosamente explorei nessa coluna).

Rabo de Galo
Rabo de Galo Imagem: Divulgação

Foi como um enorme soco no estômago e na alma que, há duas semanas, vi espalhar por portais, jornais e redes a lista do Taste Atlas que gongava cachaça, catuaba, cajuína, caju amigo e... tucupi (que nem bebida é, sabemos). 5 mil votantes de sabe-se-lá onde falando estas eram as "piores bebidas brasileiras".

Agora respira - porque a cachaça passa bem

Volto agora para aquele bar de novembro e minha paixão e revolta rendem um belíssimo papo com Hyssa Abrahim Filho, um dos sócios do Varal Bar, em Pinheiros, casa da carta de autorais cachaceiros mais interessantes que provei nos últimos tempos.

"Pena de quem toma tucupi como bebida. Eu ri", comenta sobre a lista. "Sobre a catuaba, aquela da garrafa mesmo, que pena não ser analisada no Carnaval. Na festa", brinca.

Juntaram um tempero, uma espécie de cordial de caju, caju amigo e caipirinha, que os votantes devem ter provado em forma de caipirinha, imagino. Todos doces, provavelmente com preparo inadequado. É uma lista sem pé nem cabeça.

Continua após a publicidade

"Mas é um crime colocar a cachaça.", enfatiza Hyssa, que lembra que cachaça em dose, pedida pelo público mais experiente, é fácil de achar por aí.

Pai D´Égua (cachaça de jambu, maracujá, rapadura, pimenta dedo de moça), do Varal Bar
Pai D´Égua (cachaça de jambu, maracujá, rapadura, pimenta dedo de moça), do Varal Bar Imagem: Divulgação/Lais Acsa

Mas como apresentar o destilado ao público que celebra gim, rum, mas ainda não viu como a cachaça está de mãos dadas com estes outros destilados? Drinques, claro. Mas não basta, segundo Hyssa.

"O primeiro passo é colocar a cachaça pra dentro do bar, mas também é preciso não tirar o gosto da cachaça nos drinques. Deixar com que a base seja a identidade da combinação", conta. E tem dado certo.

Autorais, como Pai D´Égua (cachaça de jambu, maracujá, rapadura, pimenta dedo de moça) e o apaixonante Baleia (cachaça prata, vermute dry, bitter de laranja, tônica), vendem mais que clássicos como Fitzgerald, G&T e outros.

Ao lado das criações de Ricardo Ribeiro e Thiago dos Santos, brilham também as caipirinhas. Elas que também sofreram um bocado esse ano, com a competição de bartenders da Diageo e a inesquecível 'Zacaipirinha' de rum.

Continua após a publicidade

A caipirinha não precisa do World Class, crava Hyssa.

...agora inspira - porque o jornalismo vai muito mal

Devo dizer que a lista me ofendeu em cada célula do corpo. Fiquei PUTA da vida. (E não estou só, como deixou bem claro em seu vídeo Néli Pereira, a pessoa que me apresentou toda a beleza da catuaba. Aliás, tema para mais papo por aqui).

Infelizmente, a repercussão acrítica de grande parte da imprensa gastro-etílica não surpreende.

São poucos os que não seguram a boca em nome de cliques fáceis e "amiguismos". Ainda menos, os que se preocupam com a ferida cultural que gera a divulgação em massa de um ranking sem critério (bom ou ruim é de um simplismo atroz). Preguiça, burrice, incompetência? Deus sabe.

Mas o antídoto, felizmente, está cada vez mais em mesas de bar. Da próxima vez que sentar em um balcão, busque na carta o que só a gente tem e faz muito bem. A cachaça, em dose e em drinques, merece uns goles de sua atenção - muito mais que a listinha que nem sabe o que diz.

Continua após a publicidade

*Trilha sugerida para harmonização com essa coluna: "Falador Passa Mal', Os Originais do Samba.

Quem quiser bater um papinho, sou a @sigaocopo no Instagram.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Deixe seu comentário

Só para assinantes