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Renato Maurício Prado

Covid fez o Flamengo redescobrir a base. E sair muito mais forte

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

01/10/2020 08h36

A goleada sobre o Independiente Del Valle lavou a alma da torcida e garantiu a vaga antecipada para a próxima fase da Libertadores - provavelmente em primeiro lugar do seu grupo. Mas a melhor notícia para os rubro-negros nem foi essa, mas a constatação de que seu elenco é muito mais forte do que se pensava. Forçado, pelo assustador surto de Covid-19, a recorrer aos garotos do Ninho, o Flamengo descobriu, encantado, que tem alguns meninos melhores até do que muitos dos seus reservas e, por que não dizer, certos titulares.

Por exemplo: os jovens zagueiros de área, colocados no fogo contra o Palmeiras e o Del Valle, jogaram bem mais que Léo Pereira e Gustavo Henrique, que até agora não conseguiram convencer. Natan, que atuou nas duas partidas, com incrível serenidade e eficiência, se tornou sério candidato a ser o companheiro de Rodrigo Caio na zaga titular. E Noga e Otávio mostraram que, se preciso, também estão em condições de cumprir a missão. Quem diria: tanto procuraram um substituto para Pablo Mari no mercado e havia ótimas soluções em casa, embora, aparentemente, ninguém soubesse.

O goleiro Neneca é outra grata revelação. Que acompanha o dia a dia do Flamengo sempre soube que ele era especial. Mas, mistério dos mistérios, era o quarto da posição: atrás de Diego Alves, o titular, César e Gabriel Batista. Veio a Covid, e aí está: ele é, no mínimo, o segundo em termos técnicos. E, quando aprimorar as saídas do gol, nos cruzamentos altos sobre a área, e a reposição de bola, com os pés, poderá disputar até a posição de titular. Não fosse ele, o Flamengo teria sido derrotado pelo Palmeiras e poderia ter saído perdendo do Del Valle - até o primeiro gol, de Lincoln, já tinha feito três defesas difíceis. E fez várias outras durante o jogo inteiro.

O jovem Ramon é mais um caso do tipo: firme na defesa e insinuante no apoio, mostrou muito mais talento que Renê, o reserva imediato de Filipe Luís. Difícil imaginar que não se torne o substituto natural do ex-jogador da seleção brasileira. Uma excelente opção para os momentos em que o titular precisará ser poupado pelo rigor de um calendário alucinado.

Fato é que a garotada jogou como gente grande, mas houve ainda outra excelente notícia para os rubro-negros: os "adultos" que escaparam da infecção pelo coronavírus mostraram que estão novamente em forma. E quando jogadores como Thiago Maia, Gérson e Arrascaeta estão cem por cento, o time rubro-negro alcança "outro patamar", com costuma dizer Bruno Henrique.

Tanto contra o Palmeiras quanto diante do Del Valle, eles ditaram o ritmo e comandaram o meio-campo. Difícil imaginar outro trio tão talentoso no futebol sul-americano. Junte-se a eles Pedro, um artilheiro cada vez mais eficiente, e se chega a um time bem difícil de ser batido. Ainda mais quando jogadores como Gabigol e Bruno Henrique se juntam a eles, jogando bem, como aconteceu no Maracanã. E ainda falta Éverton Ribeiro.

Para fechar o punhado de boas notícias no rubro-negro carioca, o substituto de Domènec Torrent (acometido pela Covid), o também espanhol Jordi Guerrero mostrou que, no mínimo, tem estrela. Soube comandar o time em jogos que se antecipavam dos mais difíceis e foi aprovado com louvor.

Sob seu comando, o Flamengo pode até ter começado guardando posições, no famoso esquema consagrado por Pep Guardiola, mas logo soube se adaptar às condições de cada partida e deu aos seus principais jogadores a liberdade necessária para que desenvolvessem o melhor futebol.

Assim, se viu Gerson voltar a exibir a eficiência defensiva e ofensiva dos tempos de Jorge Jesus, Arrascaeta desfilar seu talento por todos os quadrantes do gramado e Thiago Maia provar por A + B que William Arão a partir de agora deve esquentar o banco.

Pedro, por sua vez, comprovou que um centroavante, por mais típico que seja, não precisa estar sempre enfiado entre os zagueiros, na área adversária. Muito pelo contrário, soube fazer o pivô e até cair pelos lados, buscando tabelas e jogadas que abriam espaço para os que vinham de trás. E sempre que a bola sobrou à feição para ele, acabou na rede.

É inegável que, por causa do insano calendário a que o Flamengo será submetido, disputando inúmeras competições ao mesmo tempo, haverá a necessidade de um rodízio constante, para evitar contusões causadas por desgaste físico excessivo. A base do time titular, entretanto, enfim foi revelada e tem inúmeras opções para alternativas táticas e técnicas, que podem ser obrigatórias, por causa de contusões, como a de Gabigol - a única má notícia na noite de ontem (30), no Maracanã.

O Mais Querido, porém, parece ter conseguido retomar, com a chegada da garotada e a recuperação da forma de seus principais craques, a condição de favorito em todas as competições em que está envolvido. Basta Dome não insistir no futebol de totó e, principalmente, a diretoria arrogante, egocêntrica e negacionista não atrapalhar. Não fosse Marcos Braz, o rubro-negro poderia estar amargando agora um W.O. (contra o Palmeiras) e talvez até um rebaixamento por atitudes irresponsáveis. O Flamengo do Ninho do Urubu é infinitamente melhor que o dos gabinetes da Gávea.

A turma que usa chuteiras voltou a empolgar. Já a outra...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado