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Rafael Reis

REPORTAGEM

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A história do técnico que usou os signos para definir convocação da Copa

Raymond Domenech dirigiu a França em duas edições da Copa do Mundo - Getty Images
Raymond Domenech dirigiu a França em duas edições da Copa do Mundo Imagem: Getty Images

06/10/2022 04h20

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Era uma vez um treinador de futebol que resolveu ir além dos conhecimentos tradicionais para melhorar a performance do seu time. Apaixonado pelas mais diferentes ciências, ele se transformou em um entusiasta da astrologia e resolveu montar seu elenco de jogadores baseado nos signos do zodíaco. Só que essa decisão gerou grande polêmica.

Essa provavelmente não foi a primeira vez na história da humanidade em que o horóscopo foi utilizado como forma de recrutamento de algum profissional. Mas nenhuma gerou tanta repercussão assim. Afinal, estamos falando de uma convocação (ou melhor, duas) para a Copa do Mundo.

É justamente para relembrar casos como esse, que não parecem caber na magnitude, na importância e no nível imaginado de profissionalismo do principal torneio de futebol do planeta, que o "Blog do Rafael Reis" publica desde a semana passada a seção "A Copa que até parece de mentira".

Sempre às quintas-feiras, contamos histórias quase inacreditáveis que fazem parte da trajetória de mais de 90 anos da competição organizada pela Fifa, como essa do técnico que recorreu à astrologia para definir os jogadores que levaria aos Mundiais da Alemanha-2006 e África do Sul-2010.

Na soma das duas edições de Copa em que esteve à frente dos "Blues", Raymond Domenech convocou 41 atletas diferentes para a competição. Apenas um deles, o lateral direito Anthony Réveillère, fazia aniversário entre os dias 23 de outubro e 21 de novembro.

O que parecia apenas ser uma mera coincidência acabou se transformando em denúncia, quando o meio-campista Robert Pirès, destaque do Arsenal e do Villarreal na primeira década deste século, foi a público para dizer que não estava na seleção porque era do signo de escorpião.

Segundo o jogador, Domenech tinha uma regra de evitar ao máximo a convocação de escorpianos por acreditar que eles eram pessoas traiçoeiras e que tinham o poder de contaminar o grupo onde estavam inseridos.

Ainda de acordo com Pirès, o treinador da França acreditava que, caso fosse muito necessário, até era possível recorrer a um jogador de escorpião, mas apenas se ele fosse o único no elenco. Colocar dois atletas desse signo juntos simplesmente não era uma possibilidade considerada.

A questão é que três dos melhores jogadores de futebol da história têm (ou tinham) sol em escorpião. Pelé é de 23 de outubro. Diego Maradona, de 30 do mesmo mês. E Mané Garrincha, nasceu no dia 28. Será que Domenech teria coragem de deixá-los de fora de uma Copa?

Na época da polêmica, o treinador chegou a admitir que utilizava sim a astrologia como ferramenta futebolística e até disse que se sentia mais seguro quando tinha um jogador de leão na defesa. No entanto, ele sempre negou que os signos interferiam nas suas convocações ou escalações.

"A astrologia tem um lado científico, mas assim que eu a mencionei, as pessoas começaram a pensar que eu usava um chapéu de feiticeiro na cabeça e encarava bolas de cristal. A astrologia tem o valor de desvendar a personalidade das pessoas, não prever o futuro ou algo assim", afirmou Domenech, em entrevista ao jornal britânico "The Guardian", seis anos atrás.

Só que análises feitas por astrólogos durante o Mundial de 2006, a pedido de jornais europeus, mostraram que o time titular da França tinha um balanço de signos considerado ideal, o que não poderia ser uma coincidência, mas algo provocado por seu treinador.

Com Domenech, os Bleus foram vice-campeões da Copa da Alemanha (aquela que terminou com a cabeçada de Zinédine Zidane no italiano Marco Materazzi na decisão). Quatro anos mais tarde, o treinador enfrentou um motim de jogadores durante a competição e foi eliminado ainda na primeira fase, como lanterna de um grupo que tinha Uruguai, México e a anfitriã África do Sul.

A Copa do Mundo do Qatar-2022 será a primeira disputada no Oriente Médio e contará com a participação de sete das oito seleções que já levantaram a taça. Pela segunda edição consecutiva, a tetracampeã Itália não conseguiu a classificação e será baixa.

O torneio será disputado fora do seu período habitual por causa do calor que faz no país-sede no meio do ano, o auge do verão no Hemisfério Norte. Por isso, começará em 20 de novembro e tem a final marcada para 18 de dezembro.

Essa será a última edição da competição da Fifa com o formato que vem sendo utilizado desde a França-1998. A partir do Mundial seguinte, organizada por Estados Unidos, Canadá e México, serão 48 participantes na disputa pelo título.