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Rafael Reis

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que não indicação de goleiro do Chelsea à Bola de Ouro virou polêmica?

Edouard Mendy foi essencial no título de Liga dos Campeões conquistado pelo Chelsea - Clive Mason/Getty Images
Edouard Mendy foi essencial no título de Liga dos Campeões conquistado pelo Chelsea Imagem: Clive Mason/Getty Images
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

18/10/2021 04h00

"Eu não entendi. É inadmissível, inaceitável. Uma pena", disse o atacante Sadio Mané, uma das estrelas do Liverpool. "Acho que a gente precisa trabalhar o dobro que certas pessoas para sermos bem avaliados", adicionou o zagueiro Kalidou Koulibaly, destaque do Napoli, líder do Campeonato Italiano.

As declarações acima, dadas pelas duas maiores estrelas do futebol do Senegal e replicadas a rodo nas redes sociais nos últimos dias, mostram o tamanho da polêmica gerada pela ausência do goleiro Édouard Mendy na lista dos 30 indicados à Bola de Ouro deste ano.

Apesar de ter sido uma figura central na conquista do título da Liga dos Campeões da Europa pelo Chelsea (sofreu apenas três gols durante a campanha e devolveu a solidez defensiva a um time que raramente não era vazado até sua contratação), o senegalês foi ignorado da corrida pelo prêmio de melhor jogador do mundo.

Para muita gente, inclusive para seus companheiros de seleção senegalesa citados no começo da reportagem, a ausência do arqueiro de 29 anos dos candidatos ao prêmio só tem uma explicação possível: o racismo.

A lista de indicados à Bola de Ouro é montada pelos jornalistas que trabalham na revista "France Football", cujo corpo editorial é majoritariamente composto por homens brancos.

Trata-se de um colégio eleitoral com bem menos diversidade que o do "The Best", prêmio de melhor do mundo entregue pela Fifa, no qual pelo menos três pessoas de cada país filiado à entidade votam.

É verdade que, apesar da ausência de Mendy, há outros negros na briga pelo troféu, como os franceses N'Golo Kanté (Chelsea) e Kylian Mbappé (Paris Saint-Germain), o inglês Raheem Sterling (Manchester City) e Romelu Lukaku (Chelsea).

Mas o caso do camisa 16 do atual vencedor da Champions tem uma diferença brutal em relação aos outros: ele é um goleiro negro.

Ao contrário do que acontece com jogadores de linha, não é muito comum ver arqueiros negros atuando nos clubes da prateleira de cima do futebol europeu. O Chelsea tem Mendy, o Milan conta com o francês Mike Maignan, o Manchester City deixa no banco de reservas o norte-americano Zack Steffen... e a lista não vai muito além disso.

Tradicionalmente, a posição é dominada por brancos europeus, justamente o perfil mais comum entre os jornalistas que escolheram os indicados ao prêmio. O único jogador da posição que está entre os 30 atletas na briga pelo troféu desta temporada, o italiano Gianluigi Donnarumma (Paris Saint-Germain), eleito o craque da Eurocopa, também obedece a esse padrão.

"Não podemos esquecer que são os jornalistas que votam, os jornalistas de cada país, então acho que alguns países favorecem seus jogadores", completou Koulibaly.

A Bola de Ouro foi criada na década de 1950 pela "France Football" e passou 40 anos elegendo o melhor jogador europeu da temporada. Em 1995, ela passou a aceitar também atletas de outros cantos do mundo, mas desde que atuassem no Velho Continente. Apenas em 2007, ela realmente se tornou uma premiação de melhor do planeta.

O último vencedor da eleição foi o argentino Lionel Messi, que levou em 2019 seu sexto troféu para casa. No ano passado, a distribuição foi cancelada por conta do impacto da pandemia da covid-19 no cenário do futebol, com adiamento e alterações no regulamento de competições.

O campeão da Bola de Ouro-2021 será revelado no dia 29 de novembro, em cerimônia que será realizada no Théâtre du Chatelet, em Paris, cidade onde fica localizada a organizadora do prêmio.

Indicados - Bola de Ouro 2021

Bruno Fernandes (POR, Manchester United)
César Azplicueta (ESP, Chelsea)
Cristiano Ronaldo (POR, Manchester United)
Erling Haaland (NOR, Borussia Dortmund)
Gerard Moreno (ESP, Villarreal)
Gianluigi Donnarumma (ITA, Paris Saint-Germain)
Giorgio Chiellini (ITA, Juventus)
Harry Kane (ING, Tottenham)
Karim Benzema (FRA, Real Madrid)
Kevin de Bruyne (BEL, Manchester City)
Kylian Mbappé (FRA, Paris Saint-Germain)
Jorginho (ITA, Chelsea)
Lautaro Martínez (ARG, Inter de Milão)
Leonardo Bonucci (ITA, Juventus)
Lionel Messi (ARG, Paris Saint-Germain)
Luka Modric (CRO, Real Madrid)
Luis Suárez (URU, Atlético de Madri)
Mason Mount (ING, Chelsea)
Mohamed Salah (EGI, Liverpool)
N'Golo Kanté (FRA, Chelsea)
Neymar (BRA, Paris Saint-Germain)
Nicolò Barella (ITA, Inter de Milão)
Pedri (ESP, Barcelona)
Phil Foden (ING, Manchester City)
Raheem Sterling (ING, Manchester City)
Riyad Mahrez (ALG, Manchester City)
Robert Lewandowski (POL, Bayern de Munique)
Romelu Lukaku (BEL, Chelsea)
Rúben Dias (POR, Manchester City)
Simon Kjaer (DIN, Milan)

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado no texto, Romelu Lukaku é atacante do Chelsea, e não do Manchester United. O erro foi corrigido.