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Rafael Reis

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O caso do técnico que escalou o filho de 12 anos e perdeu emprego por isso

Júlio César Baldivieso colocou seu filho Mauricio, então com 12 anos, para jogar profissionalmente - Reprodução
Júlio César Baldivieso colocou seu filho Mauricio, então com 12 anos, para jogar profissionalmente Imagem: Reprodução
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

17/10/2021 04h00

Jogadores precoces não são algo tão raro assim no futebol. Pelé ganhou a Copa do Mundo quando tinha 17 anos, mesma idade em que Kylian Mbappé começou a brilhar na Liga dos Campeões da Europa. Gabigol estreou pelo principal adulto do Santos aos 16. E Sergio Agüero mal havia feito 15 quando disputou sua primeira partida como profissional.

Mas, em termos de juventude, ninguém na história da modalidade foi capaz de bater o feito do boliviano Mauricio Baldivieso. Em 2009, quando era um garoto boliviano de 12 anos recém-ingresso na adolescência, ele atuou pela primeira vez no futebol dos adultos.

E sua escalação precoce acabou tirando o emprego do seu técnico... e pai.

Isso mesmo, o jogador mais jovem de todos os tempos a disputar uma partida profissional de futebol era simplesmente o filho do treinador, que não apenas resolveu colocá-lo para jogar em uma idade das mais incomuns, como lhe deu a camisa 10 do Club Aurora.

Três dias antes de Mauricio completar 13 anos, seu pai, o ex-jogador Júlio César Baldivieso, que disputou a Copa do Mundo-1994 e é um dos nomes mais importantes da história do futebol da Bolívia, resolveu presenteá-lo com a ida para o banco de reservas do confronto contra o La Paz, válido pela primeira divisão nacional.

O garoto já treinava eventualmente com os adultos desde que tinha dez anos. No entanto, ninguém no clube acreditava que o treinador teria a audácia de utilizá-lo tão cedo, especialmente em um jogo que valia três pontos.

Mas, mesmo perdendo por 1 a 0 e diante da incredulidade de torcedores, jornalistas e até mesmo dos outros jogadores, Júlio César mandou seu filho a campo aos 36 minutos do segundo tempo da partida contra o La Paz.

O resultado foi catastrófico. O Aurora não conseguiu buscar o empate e saiu de campo derrotado. Pior: Mauricio levou uma forte porrada no tornozelo (possivelmente motivada pelo adversário ter se sentido menosprezado com sua escalação) e terminou a partida chorando.

Apesar dos elogios de Baldivieso pai ao comportamento e à atuação do filho, o uso do adolescente de um jogo profissional pegou muito mal. A imprensa acusou o treinador de estar tentando favorecendo um familiar e também de ter colocado a saúde do garoto em risco.

A diretoria do Aurora também não gostou nem um pouco do comportamento do treinador e proibiu que Mauricio voltasse a ser escalado naquela edição do Campeonato Boliviano. Julio César se revoltou com a decisão dos seus superiores e pediu demissão do cargo.

Ele retornou ao clube dois anos mais tarde e novamente colocou o filho para jogar. Mas aí, como o rebento já era um adolescente de 15 anos, a polêmica foi bem menor.

Em 2012, aos 16, Mauricio se tornou o jogador mais jovem de todos os tempos a marcar um gol na Copa Sul-Americana (balançou as redes contra o Cerro Largo, do Uruguai). Só que, no fim da temporada, foi embora do Aurora junto com o pai.

Eles voltaram a trabalhar juntos no Nacional de Potosí (2013) e no Universitario (2015). Em 2016, pelo Jorge Wilstermann, o recordista conquistou com o Jorge Wilstermann o único título da sua carreira, de campeão boliviano.

Mas, no ano seguinte, Mauricio disputou sua última temporada como profissional. Desde o fim do seu contrato com o San José, na virada de 2017 para 2018, o hoje homem de 25 anos não arranja um clube para jogar.

Já seu pai continua trabalhando normalmente como treinador. Nos últimos anos, ele dirigiu as seleções da Bolívia e da Palestina, passou pelo futebol venezuelano e teve uma nova passagem pelo Aurora. Seu último emprego foi no comando do Palmaflor, novato da elite do seu país-natal, entre janeiro e março deste ano.