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Pelé e Santos paralisaram uma guerra na África: verdade ou lenda?

Pelé, em 1969, ano do jogo do Santos que teria parado uma guerra na África - Schirner/ullstein bild via Getty Images
Pelé, em 1969, ano do jogo do Santos que teria parado uma guerra na África Imagem: Schirner/ullstein bild via Getty Images
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

07/05/2020 04h00

Pelé não é apenas o melhor jogador de futebol de todos os tempos, como também um dos atletas mais importantes que o esporte já viu. E a prova dessa relevância toda é que ele até conseguiu interromper uma guerra.

Na década de 1960, durante uma das inúmeras excursões que o Santos fazia pelo mundo, houve cessar-fogo de um conflito na África para recepcionar o Rei do Futebol e permitir que a população local pudesse ir aos estádios acompanhar sua arte.

Bem, você provavelmente já ouviu essa história. Afinal, ela circula há décadas de boca em boca entre os torcedores brasileiros, já apareceu em livros e é contada até mesmo no site oficial do clube alvinegro.

Mas será que essa história é realmente verídica? Ou essa é apenas mais uma das várias lendas urbanas que tanto sucesso fazem no mundo do futebol, como o autismo de Lionel Messi e a transexualidade de Marco Verratti?

Bem, primeiro vamos à versão oficial. De acordo com o Santos, o conflito paralisado por Pelé e cia. foi a Guerra do Biafra, também conhecida como Guerra Civil da Nigéria, que durou de 1967 a 1970 e provocou a morte de mais de 2 milhões de pessoas, entre militares e população civil.

Em 1969, o Santos estava visitando o continente africano quando foi contratado de última hora para jogar na Cidade de Benin contra a seleção do Meio Oeste nigeriano. Ciente do conflito que estava assolando o país, a diretoria alvinegra teria pedido garantias de segurança do governo antes de aceitar o convite.

A solução encontrada pelo tenente coronel Samuel Ogbemudia, governador da região, foi decretar feriado no dia da partida e também um cessar-fogo para que a delegação santista não fosse atingida pela onda de violência.

A matéria publicada pelo site do Santos diz ainda que "Gylmar e Coutinho confirmaram que o jogo transcorreu em clima de paz, mas tão logo o avião zarpou foi possível ouvir os tiros que denunciavam o recomeço das hostilidades."

Mas há quem conteste a veracidade dessa história. O pós-doutor em antropologia José Paulo Florenzano, professor e coordenador do curso de Ciências Sociais da PUC-SP, é a principal voz crítica a essa versão.

O pesquisador vem estudando o tema há anos e publicou no ano passado uma série de artigos em que expõe a sua visão sobre a passagem do Santos pela Nigéria e sua relação com a Guerra do Biafra.

Segundo as publicações de Florenzano, Pelé e seus companheiros não pararam conflito nenhum, até porque isso não era necessário. Quando o Santos esteve na Cidade do Benin, as tropas rebeldes já estavam sendo sufocadas pelo exército nigeriano e não havia mais nenhuma disputa territorial naquela região.

Ou seja, as frentes de batalha da Guerra do Biafra estavam bastante distantes do local que recebeu o Rei do Futebol. Ou seja, simplesmente não havia um conflito ocorrendo nos arredores da cidade.

O pesquisador vai além nessa tese e defende que Pelé não apenas não interrompeu uma guerra, como ainda foi usado como peça publicitária do governo nigeriano no confronto contra as forças rebeldes.

"A partida, patrocinada pela Nigeria Football Association (NFA), consoante a nossa hipótese interpretativa, atendia acima de tudo à propaganda de guerra desenvolvida pelo governo militar do general Yakubu Gowon, empenhado em transmitir à opinião pública nacional e internacional a mensagem segundo a qual a situação se achava sob inteiro controle das autoridades federais, com a vida cotidiana fora das zonas de combate seguindo o seu curso normal, constituindo-se a vitória contra o inimigo interno apenas uma questão de tempo", diz artigo publicado pelo professor, no ano passado, no site "Ludopédio".